Reflexões

Nossos ciclos

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Descobri que minha produtividade neste blog sem café é ZERO. Dia 15 de novembro de 2018 eu cheguei na Islândia debaixo de chuva e dia seguinte também choveu o dia todo, então minha amiga e eu tomando um cafezinho na beira da estrada fizemos um pedido e uma promessa pra Santa Clara, ficaríamos 6 meses sem café se parasse de chover…

Santa Clara clareou e tivemos 10 lindos e maravilhosos dias de Islândia! 

De lá pra cá já se passaram 4 meses, visitei outros 8 países, vi a aurora boreal, visitei amigos e família, fiz curso de yoga e thetahealing, mais uma experiência de workaway, e nada de relato no blog, nadinha, sobre nenhuma das experiências ou lugares visitados! 

Ando preguiçosa…

Aí a única relação que consegui fazer foi a do bom e velho café que me acompanhava em frente ao computador quando eu me inspirava a escrever e compartilhar algo. Mas parei hoje neste restaurante vegano em Copenhagen pra refletir sobre produtividade e no que percebi isso aqui já estava virando um post,  mesmo sem café, com um litro de chá verde na minha frente.

E a produtividade que comecei a refletir e queria compartilhar, é a produtividade de nós, mulheres. Com certeza vocês já notaram que tem dias que produzimos mais e outros que produzimos menos, mas muitas de nós nunca conectaram cada dia destes com nossas fases. 

Eu nasci em São Paulo, classe média, e sabe o que acontece com adolescentes com espinhas (muitas) da classe média quando menstruam pela primeira vez? A mãe leva na ginecologista particular e a gineco taca pílula anticoncepcional na gente pra controlar as espinhas e pra já começar a prevenção, que qualquer momento pode surgir um namoradinho. E lá ficamos no uso continuo da pílula por 10, 20 anos.

Não é com todo mundo que acontece isso (Graças a Deusa), e nem tenho dados estatísticos para provar, mas acontece com muita gente, principalmente da minha geração, e baseado na minha pequena amostragem de público feminino do instagram, o dia que coloquei este assunto em pauta choveu direct com “pelo amor da Deusa, mana, comigo também!!!”.

Mas o que tem a gineco particular da classe média paulistana a ver com a produtividade do blog? Nada. Tudo. A pílula na verdade tem tudo a ver.

Entramos na pílula nos 13 pra 14 anos e lá ficamos 20 anos até parar pra tentar ter filho (algumas). Eu fiquei dos 13 aos 30 porque me despertei antes. A pílula é confortável, as espinhas somem, o fluxo menstrual é contido, sabemos exatamente o dia que vamos menstruar e se for réveillon ou carnaval, opa, é só emendar a cartela pra “se livrar”.

O que acontece, é que com o uso da pílula não ovulamos, não produzimos nossos hormônios de forma natural, não conhecemos nosso corpo, nosso real humor, intuição, fases, nossa mulher lobo.

E eu posso estar falando tudo errado aqui do ponto de vista médico, porque sou engenheira e isto não é um artigo acadêmico, e sim uma reflexão da minha auto observação e do que aprendi em cursos e leituras de tantra e de sagrado feminino. Então me poupe! Brincadeira, lê aí se você se identifica!

Depois dos 30, que parei a pílula e passei a me observar, a anotar meus dias de ciclo, meu humor, minha energia pra fazer as coisas, meus dias de preguiça, fui percebendo similaridades a cada ciclo, e após alguns cursos e estudos descobri que é isso mesmo! Se estamos livres de hormônios fakes, isto é, da pílula, em nosso estado natural de ciclo e em contato como nosso feminino, temos 4 fases de 4 arquétipos do feminino bem definidos:

  1. menstruação: fase da bruxa ou anciã. Onde o óvulo não fecundado precisa sair, é a fase de limpeza, momento de introspecção, onde temos a tendência de não socializar muito e não fazer muita atividade física. Então, pra colocar objetivo nos nossos treinos, deveríamos nos cobrar menos nesta fase, e respeitar nossa vontade de pular aquela balada, mesmo que seja A balada. 
  2. pré-ovulação: a donzela. Começamos um novo período, energia de criação bem alta, esta é a melhor fase pra nossa produtividade, intuição, movimento e tomada de ação. Onde estamos com nossa auto-estima mais elevada. 
  3. ovulação: a mãe. É na ovulação que o corpo está se preparando pra gerar uma nova vida, então é nossa fase mais cuidadora, melhor ouvinte, de maior interação social, e é nesta fase que nossa criatividade atinge o ápice, melhor momento pra novos projetos, pra escrever, desenhar.
  4. pós-ovulação: feiticeira ou sacerdotisa. A famosa TPM! Todas as emoções afloram mais nesta fase, quem nunca terminou um namoro e mandou o namorido pra fora de casa pra sempre nesta fase? ops…talvez só eu. Mas é uma ótima fase de reavaliar nossos sentimentos, porque o que está guardado e camuflado vem à tona!

Então, há 4 anos venho me observando nestas fases, anotando cada dia, encontrando as similaridades e faz todo sentido! Eu anoto em tabelinha online, uso o aplicativo WomanLog, onde posso marcar a os dias da menstruação e outras observações, como humor, sexo, produtividade. Também me recomendaram usar o Clue ou o Flow. Se você não toma pílula, começa a anotar seus ânimos, preguiça, criatividade e compara com estas fases!

Recentemente comecei também a fazer minha Mandala Lunar, que super recomendo! Nela você anota na legenda que quiser e com as cores que quiser, o que tem ocorrido com você dia a dia, marca o ciclo e acompanha com as fases da Lua. Não encontrei aplicativo pra isso, se alguém tiver um comenta aqui, mas eu recebo a minha mensalmente pelo site www.mandalalunar.com.br, com ilustrações lindas!

Falando em lindas, esta foto linda no topo do texto foi de um curso na Índia, e uma das primeiras vezes que tive contato com este tema dos ciclos, apesar de ter parado a pílula 3 anos antes sem saber direito porque estava parando, por uma simples necessidade de me limpar de qualquer tipo de medicamento. Mas este curso, ‘Poderes do Feminino’, foi compartilhado pela Deva Geeta e Aysha Almeé, que trabalham no Brasil e super recomendo! E, além do livro ‘Mulheres que Correm com os Lobos’ da Clarissa Pinkola que já li e reli, elas também recomendaram ‘A Lua Vermelha’ da Miranda Gray que ainda não li, mas fala exatamente das energias criativas do ciclo menstrual.

Aproveito e deixo mais 2 dicas amigas relacionadas com o tema: o documentário ‘Period. End of sentence’ disponível no Netflix sobre o tabu menstruação na Índia e o podcast ‘Talvez seja isso’  sobre o livro Mulheres que Correm com os Lobos disponível no Spotfy.

Pois é, rolou um post, e na verdade não tinha nada a ver com a abstinência do café, abro minha mandala lunar e vejo que estou na fase MÃE, da criação. Então todos estes dias que separei na minha agenda pra escrever, fui até um café, sentei confortável, pedi um chá e não saiu texto nenhum, eu estava na verdade em outras fases lunares não propícias pra isso. Se aprendemos isso sobre a gente, podemos administrar nosso tempo e compromissos do jeito mais apropriado, sem nos forçar a nada. 

Confia na sua intuição, mulher, e não se cobre tanto! Respeita seu corpo, respeita sua criatividade, respeita seu humor. E agora vou aproveitar a fase de criação e já emendar outro post sobre Yoga na Índia ou sobre o roteiro da Islândia. Em breve posto aqui, beijo!

ah! acho que nem preciso comentar que para a prevenção de gravidez AND doenças sexualmente transmissíveis sou #teamcamisinha, né? Porque mesmo tomando pílula eu já usava, vocês me poupem se não usam!

Empreendendo

Kell Haller mudou a rota

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Duas engenheiras trabalhando no varejo, foi assim que eu conheci a Kell, há 6 anos atrás. Trabalhávamos juntas, ela responsável pelo planejamento de demanda e compras de produtos e eu responsável pelo trade marketing e comercial….blablabla, papo chato este de cargos, vamos pular esta parte.

Mas a gente trabalhava lá, no mesmo ambiente, mesma firma, mesas separadas, gestões separadas, e vira e mexe uma estava ajudando a outra nas inaugurações de loja e datas comemorativas. A gente tinha muito em comum, engenheiras, planejadas, certinhas, num varejo louco que muda o tempo todo, e ainda nos encontrávamos pros papos holísticos sobre anjos, hipnose, terapias, comunicação não violenta, reike, e assim vai…

Aprendemos demais no varejo, aprendemos a mudar a rota, porque varejo é isso né? Uma escola! E eu aprendi demais nas trocas que tinha com a Kell, nos cafés e almoços, lembro direitinho de uma inauguração de loja no Recife, ambas descolando um adesivo filho da put@ da vitrine com aquelas colas que agarram no vidro, no meio da tensão do natal, e lá estávamos nós, plenas na vitrine, conversando sobre terapias holísticas. E a gente era daquele tipo que punha a mão na massa sempre!

A palavra “resiliência” aprendi com ela, não por que ela queria me ensinar não, porque ela era o exemplo de resiliência na firma. E até quando ser muito resiliente é bom? Resiliência pelo dicionário é a capacidade de se adaptar facilmente às mudanças, ou a capacidade de um objeto de retornar a sua forma original, mas deve machucar pra um objetivo sair e voltar pra sua forma original tantas vezes! E a Kell estava lá, mostrando ser uma fortaleza, mesmo com as condições mudando o tempo todo, ela sempre se adaptava, imagino que devia machucar, mas ela estava sempre lá, firme. 

Trabalhamos 4 anos na mesma firma, fomos nos conectando cada vez mais, até psicóloga ela me recomendou num momento que eu queria muito começar terapia, e foi indicação certeira: fiz 3 anos de terapia com esta indicação e me descobri muito. 

Até o dia que a Kell e eu fomos desligadas, no mesmo dia! Uma às 8h da manhã, a outra às 9h. Mas como dizia uma amiga minha, energeticamente já não estávamos na firma, estávamos desconectadas daquele espaço de trabalho, então não foi surpresa, recebemos a notícia de forma madura, marcamos de ir ao sindicato juntas dia seguinte assinar os papéis e já fomos de legging e tênis pra curtir o dia no parque depois! Lembro muito daquela manhã de parque, água de côco e planos, em plena terça-feira!

Naquele momento, já falávamos de reike e thetahealing, e a Kell logo foi fazer os primeiros cursos de Thetahealing, foi uma decisão certeira na vida dela! Após ela realizar o básico já me deu uma sessão, e me ajudou a derrubar uma barreira de medo que eu tinha de me jogar no sabático pra me descobrir em uma nova profissão…e olha que após dois anos também estou me descobrindo no thetahealing como uma nova profissão…

Naquela época, a Kell logo foi trabalhar em uma nova firma, mas foi por poucos meses, porque no fundo ela sabia o que queria: trabalhar com cura e energia. Em paralelo, ela se formou em mais de 10 cursos do Thetahealing, foi até a Espanha ter formações como instrutora e em poucos meses largou a firma e passou a se dedicar 100% com o que queria:  atendimentos e cursos de Theta!

Foi uma decisão fácil? Mudar da estabilidade para o novo nunca é fácil, exige coragem, mas se não tentarmos nunca saberemos. Tem o salário que cai certinho todo mês no mesmo valor? Não. Tem a segurança financeira, plano de saúde, 13º? Não. Mas ela está feliz e confiante. Porque quando a gente faz o que ama, manifesta positivo, corre atrás, o resto vem.

Esta decisão também não foi fácil porque o marido da Kell tem uma profissão fora do “comum”: é mágico e hipnólogo. Então os ganhos dele são sazonais, dependem dos eventos! Ter o salário da Kell antes, caindo redondo todo mês era uma segurança para ambos. Aliás, se ela fosse escutar muitos palpites que escutou na vida, nem com ele estaria há 12 anos, pois foram muitos julgamentos ao que seria um relacionamento ideal, afinal, “mágico, né?”. Mas o que é um relacionamento ideal? Pra Kell é onde existe amor, respeito e admiração e é valorizando as diferenças que um impulsiona o outro. Agora ambos resolveram viver e se entregar a seus verdadeiros propósitos! Hoje o Paolo também embarcou no Thetahealing e apoia a Kell nos cursos! Sobre as contas pra pagar? Ainda existem e estão sendo pagas. Confie, trabalhe no que você ama, que o dinheiro virá. 

Porque eu queria contar a história dela aqui? Porque eu a admiro e queria inspirar muitas outras mulheres a não ficarem em suas zonas de conforto. Inspirar a escolherem seus boys pelo amor e companheirismo e não pela segurança financeira ou social. Inspirar a se dedicarem às profissões que sonham em trabalhar, e não às que estão em suas zonas de conforto!

Ah! E sobre o Thetahealing, passo a palavra à Kell que está neste mundo há bem mais tempo que eu: “ Nós construímos nossa vida a partir de nossas crenças, muitas estão no nosso inconsciente, aproximadamente 90% do que fazemos é inconsciente segundo a ciência. Mas calma, nem tudo é ruim!!! Com o ThetaHealing conseguimos acessar esses padrões inconscientes e mudar aquilo que a pessoa entende como limitante. Ao reconhecer todos os aprendizados que aquele padrão trazia pra pessoa, re-significamos e a partir daí a pessoa pode criar algo novo pra si, inclusive se livrar de doenças físicas. ThetaHealing (cura da alma) é uma técnica de autoconhecimento e transformação , com diversas ferramentas fantásticas e com uma energia de puro amor que trabalha 3 pilares importantes: mente, corpo e espiritualidade.” Kell Haller.

É isso! E pra quem tem interesse em uma sessão ou formação em Thetahealing em SP, super indico esta minha amiga! O contato da Kell: (011) 98342 9453.

E espero ter inspirado mais gente por ai!

Reflexões

Vida pré-sabático

 

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Esses dias atrás, aqui no meu segundo curso de Yoga na Índia, tive que fazer uma tarefa de casa pra aula de filosofia: montar uma aula sobre qualquer tema e apresentar! Filosofia é a matéria mais difícil pra mim, sou das Exatas, né? Mas sentei, meditei um pouco, refleti, e me lembrei de um poema que escutei há um ano atrás de um indiano aqui na Índia: The Calf Path, de Sam Foss.

Então montei minha aula sobre este poema, e uma analogia com a vida moderna que levamos! Em resumo, o poema conta de um caminho desordenado que o um bezerro fez um dia, seguido de um cachorro dia seguinte, de umas ovelhas depois, de uns homens, e um dia este caminho virou uma pequena estrada de um vilarejo, e por fim uma grande avenida toda desordenada no centro de uma cidade, onde milhares de pessoas passam todos os dias sem saber porque aquela avenida  tem formato zigue zague, sem saber que seguiam os passos de um bezerro de 300 anos atrás…

Então eu trouxe pra aula este tema, e o fato de que hoje em dia muitas pessoas nascem, vão pra escola, estudam pra passar na faculdade, fazem faculdade, se formam, batalham por um emprego, financiam o primeiro carro, trabalham mais ainda, são promovidas, casam, financiam o apartamento, trabalham mais e mais, têm seu primeiro filho, e o ciclo se reinicia, mas muitas vezes elas não sabem o porquê. E não tem problema nenhum realizar este ciclo! Desde que se tenha consciência e desejo de realizá-lo, e não fazê-lo porque todo mundo o faz.

Tudo que é feito com consciência é saudável!

Eu estava neste ciclo, terminei o colégio, fiz cursinho, entrei na faculdade.

Todo mundo ia pra faculdade na minha escola, fui também.

Passei em engenharia de produção em faculdade pública do interior, fui morar em São Carlos, aproveitei ao máximo essa fase: a vida em república, os estágios, projetos, voluntariado na Amazônia, intercâmbio, as cervejadas, vivi tudo intensamente, até chegar a fase de me formar e passar num processo de trainee. Lembro que os professores só falavam em processo de trainee, era o assunto do último ano, eram duas possibilidades: ser promovido a analista no estágio atual ou entrar em um processo de trainee, era aquele “calf path”.

Todo mundo prestava processo de trainee na minha faculdade, então prestei também. 

Lembro que me candidatei a mais de 20, e no primeiro que passei já desisti dos outros. Comecei, foi intenso, difícil e eu vivia infeliz, me sentia despreparada, estava numa grande empresa, com um bom salário para um recém formado, mas eu não aprendia muito e era cobrada por coisas que eu não sabia. Me rendeu uma úlcera no estômago e uma sensação eterna de que eu não era boa o suficiente, sempre sendo comparada aos demais. Então mais de um ano depois, desisti. 

As pessoas me achavam louca, desistir de um processo de trainee que ao final de 2 anos o cargo “garantido” era uma gerência! Que sucesso né? Mas pra mim sucesso era ser feliz.

Peguei a recisão, as férias pendentes, o 13º e fui pra Londres fazer 2 meses de curso de inglês. Lembro que nesta época eu dizia “não volto nunca mais pro mercado corporativo!!!”, eu pensava em ser fotógrafa, mas sempre vinha o pensamento “ser fotógrafa dá dinheiro?” e logo eu achava que não, e que se não dava dinheiro eu não deveria tentar, pois foi assim que aprendi na vida: que precisávamos ganhar dinheiro.

Então voltei de Londres, sem um real no bolso, mas eu estava morando com meus pais e eles me apoiavam incondicionalmente, voltei pras entrevistas de emprego, logo passei em uma e virei coordenadora de Trade Marketing. Foi um salto de trainee pra coordenadora, ter a responsabilidade de um time, ser gestora, e eu tinha apenas 26 anos, me considerava nova, mas dessa vez, foi um sucesso: fui feliz! Tinha muitas responsabilidades e em poucos meses fui promovida a gerente de Trade Marketing, o time cresceu, aos 27 anos eu gerenciava 2 analistas, 4 coordenadores regionais e quase 200 promotores, daqueles que executam aquelas gôndolas perfeitinhas em supermercados. Eu adorava dar treinamento a eles, criar processos, rodar os supermercados do Brasil checando gôndola de supermercado!

E aí o fluxo seguiu: recebi proposta de outra empresa, com salário maior e no mercado de beleza, me empolguei tanto! FUI! Fiquei 6 anos, era apaixonada por esta empresa, sou ainda, aprendi, construi muita coisa, fiz amigos incríveis, fui sendo promovida, financiei carro novo,

Todo mundo ao redor tinha carro, comprei também.

Fui sendo promovida, financiei apartamento,

Todo mundo ao redor tinha apartamento, comprei também.  

entra namorado, sai namorado, chega cachorro que eu trato como filho, dedicação total à firma, trabalho, trabalho…

Eu era feliz, mas quando perguntavam quem eu era, eu descrevia meu cargo. Quando perguntavam o que eu fazia da vida, eu respondia a empresa que eu trabalhava. Fui percebendo que meu cargo, meu diploma e minha profissão me representavam. E aquela não era eu. Mas eu também não sabia quem eu era. Estava fazendo tudo seguindo padrões, mas sem consciência.

Aí entraram as terapias, “tradicionais” e as holísticas, cursos de auto conhecimento, livros, sessões, rodas de sagrado feminino, fui me abrindo pra um campo novo, e este processo durou uns dois anos até o dia que quis viver só o que eu considerava  na época “o lado B”. 

Sobre o momento da coragem de tirar o sabático, já contei outra vez aqui! Foram muitas sincronicidades e um momento de trabalho onde eu já não me entregava tanto e a empresa também precisava de outra pessoa em meu lugar. Fui desligada! Oh my god!!! Mentira, foi maravilhoso, foi a coragem que me faltava pra acertar o momento de partir pra esta aventura chamada sabático. 

Eu interrompi um ciclo que estava seguindo por comodidade, porque estava na minha zona de conforto, porque era conhecido e certo, assim como o Calf Path,  que apesar de ser em formato zigue e zague, todo mundo seguia porque era conhecido e certo. Mas eu queria algo desconhecido e novo.

Lembro que em uma das minhas  despedidas da ‘firma’, onde eu contava meus planos de viagem, disse que começaria pela Ásia fazendo uma formação em Yoga na Índia, e uma das meninas do trabalho me disse “que bom, porque no final, se tudo der errado, você pode ser professora de yoga”… na hora eu pensei “eu estou fazendo uma formação em yoga porque se tudo der CERTO eu serei professora de yoga”. Mas eu não julgo e nem culpo este tipo de pensamento, é normal pensar assim, não é todo mundo que quer mudar. Semana passada um dos professores aqui na Índia contou a mesma história, trabalhava em Dubai no mercado da moda, gerente de marketing de marcas de luxo, e largou tudo pra trabalhar com yoga, quando visitou seus antigos amigos em Dubai, um perguntou porque ele tinha feito este “downgrade” de carreira… As pessoas atribuem sucesso à salário e cargos, eu atribuo à felicidade, à ter tempo, e consciência. O dinheiro acompanha quando nos encontramos.

Eu não acho que todo mundo tenha que interromper este ciclo da sociedade, só o que estão inconformados com ele, estes devem! Por que pra muita gente, seguir o ciclo faz completo sentido, é realmente do desejo e consciência deles, então tá ótimo!

Quem eu sou agora? Depois de 22 meses vivendo um sabático? Não sei a resposta…kkk…sou tantas que não sei descrever!

Meu futuro? eu não sei, estou manifestando o que eu quero e sei que o melhor virá! Tenho muitos caminhos que quero seguir agora e alguns paralelos a outros, pois não precisamos ser uma pessoa só. E dentre este caminhos,  pode até ser que eu volte a trabalhar em uma ‘firma’, mas será na cidade que eu escolhi, com um propósito certo e com a consciência do que estou fazendo e porquê. 

E neste exato momento recebo uma msg no Instagram “oi, comecei a te seguir a pouco tempo acabo de largar a engenharia pra trabalhar com energia!”. 

É, Ana Carol, somos muitas!

Reflexões

The Calf Path – Sam Foss

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Há um atrás, aqui na Índia, eu conversava com um indiano sobre sabático, mudança de carreira, sobre deixar de seguir “padrões”… e ele me apresentou este poema de Sam Foss, que vez ou outra eu releio. Então resolvi compartilhar aqui! O original é este, em inglês, mas dá pra passar no tradutor se precisar.

(mas a foto é da estrada na Islândia, hahahaha, só porque gosto da foto mesmo!)

Um poema que conecta e nos questiona!

The Calf Path

(Sam Foss)

“One day through the primeval wood

A calf walked home as good calves should;

But made a trail all bent askew,

A crooked trail as all calves do.

Since then three hundred years have fled,

And I infer the calf is dead.

But still he left behind his trail,

And thereby hangs my moral tale.

The trail was taken up next day,

By a lone dog that passed that way;

And then a wise bell-wether sheep

Pursued the trail o’er vale and steep,

And drew the flock behind him, too,

As good bell-wethers always do.

And from that day, o’er hill and glade.

Through those old woods a path was made.

     

And many men wound in and out,

And dodged, and turned, and bent about,

And uttered words of righteous wrath,

Because ‘twas such a crooked path;

But still they followed—do not laugh—

The first migrations of that calf,

And through this winding wood-way stalked

Because he wobbled when he walked.

     

This forest path became a lane,

that bent and turned and turned again;

This crooked lane became a road,

Where many a poor horse with his load

Toiled on beneath the burning sun,

And traveled some three miles in one.

And thus a century and a half

They trod the footsteps of that calf.

     

The years passed on in swiftness fleet,

The road became a village street;

And this, before men were aware,

A city’s crowded thoroughfare.

And soon the central street was this

Of a renowned metropolis;

And men two centuries and a half,

Trod in the footsteps of that calf.

   

Each day a hundred thousand rout

Followed the zigzag calf about

And o’er his crooked journey went

The traffic of a continent.

A Hundred thousand men were led,

By one calf near three centuries dead.

They followed still his crooked way,

And lost one hundred years a day;

For thus such reverence is lent,

To well established precedent.

A moral lesson this might teach

Were I ordained and called to preach;

For men are prone to go it blind

Along the calf-paths of the mind,

And work away from sun to sun,

To do what other men have done.

They follow in the beaten track,

And out and in, and forth and back,

And still their devious course pursue,

To keep the path that others do.

They keep the path a sacred groove,

Along which all their lives they move.

But how the wise old wood gods laugh,

Who saw the first primeval calf.

Ah, many things this tale might teach—

But I am not ordained to preach.”

Empreendendo

Cacau mudou a rota

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Eu não lembro exatamente a primeira vez que a gente se falou pelo Instagram e nem como uma achou a outra, mas a sintonia de mulheres que viajam sozinhas é assim, a gente simplesmente se conecta, e vira best friend! Eu acho que nos falamos a primeira vez quando ambas estavam na Indonésia, porque Bali enamora… e compartilhamos da mesma lágrima ao deixar a ilha (apesar de nunca termos nos visto ao vivo), aí não paramos mais de trocar mensagem, sobre dica de hostel, de airbnb, causos do tinder, bafões e etc…

Mas eu lembro bem a primeira vez que conversamos mais profundamente após algumas trocas de dicas de viagem, e foi sobre “como esquecer um boy”! hahahaha logo usei a dica de um texto do blog dela e apaguei o contato do grego do meu celular, porque né? O fim já estava decretado desde o começo, eu que ainda criava expectativas sozinha. 

E naquela noite conversei com a Cacau, e conheci um pouco da vida dela, ela tem um blog que narra recomeços, um Instagram de viagens, um carisma incrível e um sorriso largo! Escreve tão bem que está lançando um livro. De repente estávamos amigas, destas amizades virtuais que nunca nos vimos mas conversamos quase todo dia, tanto que parece até que estamos viajando juntas.

Até que um dia batemos um papo, e foi numa live no instagram, resolvemos nos conhecer “ao vivo”, e então conheci sua história! 

Cacau Ribeiro tomou um pé na bunda do marido após um relacionamento de 15 anos e do emprego que mantinha firme há 2 anos, após 11 anos na empresa anterior. Ela podia ter entrado nas cobertas e só lamentado a vida pro resto dos dias (opa, cobertas não, ela mora no Ceará…mas ela poderia ter se isolado em casa). Houve luto? Sim, e o luto precisa ser sentido mesmo, para nos reconstruirmos, como dizem aqui na Índia: moksha (morte para ressurreição). Mas o luto dela durou 3 meses de cama, onde ela perdeu alguns kilos e ganhou apoio de psicólogos…não foi fácil, nunca é, mas a Cacau aprendeu a recomeçar! 

Logo ela pegou estes limões que a vida lhe deu e fez uma bela caipirinha! Embarcou pra dois meses de Itália e Grécia!

Depois disso a Cacau se (re)descobriu viajando, após os 30: teve Indonésia, retiro na Tailândia, Paris, Londres, Lisboa, pé na estrada! Saiu explorando o mundo sozinha! Antes deste período ela já havia conhecido alguns lugares do Nordeste Brasileiro, Estados Unidos e Canadá em suas férias, mas nunca desta maneira, livre, sem planos e sem a necessidade de voltar com data marcada. 

Pra Cacau sempre acaba tendo uma data de volta, canceriana ela, sente saudades de casa e volta entre uma viagem e outra. Não é do estilo dela passar 20 meses longe de casa como eu, mas cada uma do se jeitinho, nós vamos explorando o mundo às nossas maneiras. A Cacau se permite passar estes meses sozinha desbravando o mundo e se conectando com as pessoas ao redor, da poltrona ao lado no avião, aos colegas de hostel até às instafriends, conectadas por esta rede online de mulheres viajantes!

Neste período ela voltou a escrever, começou a escrever suas reflexões em um blog onde  narra recomeços, encoraja outras mulheres a seguirem seus sonhos, dá dicas, conta das viagens, fala dos dias de luta e dos dias de glória. E agora está lançando seu primeiro livro! 

Ela também abriu uma agência de marketing, a Mrs Marketing, e virou empreendedora! E hoje concilia uma vida de Home Office onde se divide entre o livro, reflexões pro blog, projetos da agência e os planejamentos da próxima viagem. É fácil? Não, tem que batalhar muito pra seguir os sonhos, mas é gratificante, é real, está acontecendo, e isso que importa!

São mulheres assim que inspiram, inspiram a mudar, a seguir a intuição, realizar os sonhos, a descobrir o mundo e junto se descobrirem! Eu amei conhecer a Cacau, e por isso quis dividir um pouco da história dela aqui!

Ah! E se você ficou curiosa em como esquecer o boy, leiam este texto maravilhoso da Cacau!

Reflexões

O segredo pra viajar sempre

Por Cacau Ribeiro e Marina Storch

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O que você faz para viajar tanto?

Esta é a pergunta que eu e a Cacau do @cacautells ouvimos sempre. Como sabem, eu estou em sabático há 20 meses e a Cacau trabalha de forma remota com a Mrs. Marketing, o que nos permite ter maior disponibilidade para viajar.

Mas, você que trabalha em emprego formal também pode realizar seus sonhos de viajante!

Nós, quando trabalhávamos como executivas, também viajávamos sempre.

Qual é o segredo? Focar, reduzir os custos da viagem, mudar de hábitos e mudar a rota.

1. Sonhe, foque 

Qual é seu destino do sonhos?

Faça sua lista dos sonhos e defina o primeiro da lista. Separe um tempo para definir quando você poderá ir e quanto você precisará para visitar o local desejado.

Qual é o valor médio das passagens? Qual é o valor médio das diárias? Qual é o valor médio gasto com alimentação? Quanto custam os passeios que você deseja fazer?

Você precisa chegar a um valor alvo, sem esta informação você nunca saberá se possui recursos suficientes e quanto tempo precisa para conseguí-lo.

2. Reduza os custos da sua viagem

Há várias formas de viajar gastando menos, seguem algumas dicas.

2.1 Passagens

Este item pede um texto só para ele, porque é mais complexo. Mas a dica base é pesquisar e comparar os preços das passagens.

Você precisa saber como o preço está se comportando para entender quando ele estará mais barato.

Antes de procurar qualquer preço, use janela anônima pois os sites podem identificar a sua procura e aumentar o preço quando você procurar pela segunda vez.

– Data específica

Vá em sites que trabalham com mais de uma empresa aérea e use os recursos de alertas (Skyscanner, Decolar, Submarino, Viajanet, Passagens Imperdíveis , Melhores Destinos etc.).

Você cadastra os destinos, mês ou o período específico e será notificado por e-mail sempre que o preço chegar no valor que gostaria ou quando ele sofrer alguma variação.

Se receber o alerta e a passagem estiver baixa, não espere.

Mas, antes, confira no site da companhia aérea se o valor está menor, geralmente as OTAs (agências online) vendem mais caro, mas parcelam.

Já comprando nas companhias aéreas o valor pode estar menor, porém as condições de pagamento não são tão boas.

– Datas flexíveis

Se você não tem data específica, use sites como Skyscanner e Google Voos para pesquisar quando as passagens estão mais baratas para aquele destino e você programa a sua viagem levando em consideração menores valores.

Estes sites mostram o valor das passagens por dia e comparam várias companhias. Assim, você terá mais chance de escolher a passagem mais baratas.

Também vale cadastrar seu e-mail nos sites agência (Skyscanner, Decolar, Submarino, Viajanet, Passagens Imperdíveis , Melhores Destinos)

Eles enviam para você as principais promoções independente do destino. Basta ficar de olho e comprar quando aparecer algo interessante para você.

E se estiver completamente aberto, pode buscar no skyscanner vôo da cidade onde estiver para “qualquer destino”e ele vai te dar as opções de destino por preço, quem sabe desta ferramenta não sai seu próximo destino de férias, foi assim que da Índia, fui parar no Nepal!

2.2 Hospedagens

– Contatos 

É a hora de bater na porta de amigos, conhecidos e parentes.

Não há nada melhor que rever uma pessoa querida e ainda economizar com hospedagem (amigos de amigos e instafriends também estão valendo!!)

– Economia compartilhada

A economia compartilhada é uma mão na roda quando falamos de hospedagem.

Alguns exemplos:

– Airbnb : pessoas alugam casas ou apartamentos inteiros ou quartos em suas casas. Dependendo da localidade é mais barato que as hospedagens tradicionais e é bem seguro.

– Couchsurfing : neste site pessoas oferecem espaço nas suas casas de graça. Aqui nem sempre o conforto é prioridade e deve-se ficar atento as referências da pessoa.

– Workaway e Worlpackers: você paga uma taxa anual e pode inscrever-se para vagas do mundo todo em que troca-se trabalho por hospedagem. (contei minha experiência trabalhando em hostel neste link).

– Comparar 

Os bons e velhos Booking , Trivago e  Agoda (muito usado na Ásia) não devem ser esquecidos.

Caso você não deseje aventurar-se nas formas mais baratas, compare preços até encontrar algo que caiba no seu bolso.

Lembre-se também que os hostels continuam sendo uma boa opção para quem quer economizar e muitos já priorizam o conforto e segurança dos hóspedes.

– Desconto e bônus

Abuse e use dos meus links de descontos e bônus:

– Desconto de € 40 na sua primeira hospedagem pelo Airbnb usando meu link.

– Bônus de R$50,00 em qualquer hospedagem feito pelo Booking usando meu link.

Neste sabático eu testei diversas formas de hospedagens, até camping rolou na Grécia que foi a opção mais econômica na alta temporada) e relatei um pouco de cada experiência neste outro post aqui.

2.3 Alimentação

Priorize hospedagens que permitam o uso da cozinha.

Esta é uma modalidade muito usada por pessoas que alugam quarto pelo Airbnb e por alguns hostels.

Evite comer fora todos os dias, deixe estes momentos para dias especiais e sempre ande com seu lanche na mochila. (gostamos de lanches).

2.4 Passeios 

Pesquise o que pode ser feito de graça onde você vai.

Em Paris, por exemplo, ver a Torre Eiffel é de graça, você só paga se quiser subir nela. A experiência de ver a torre de longe ou ficar embaixo dela já é de tirar o fôlego.

Quando a Cacau foi, esticou a toalha dela no gramado e ficou apenas contemplando, depois foi a uma apresentação de opera na praça que fica ao lado.

Experiência maravilhosa e grátis!

Visitar outros lugares é muito mais do que entrar e pagar por atrações turísticas.

2.5 Transporte

Procure ficar em locais bem localizados para evitar o uso de transporte, caso esteja em um local cujo transporte público é precário (ou caríssimo).

Já na Europa, você pode ficar um pouco mais afastado e pagar menos com hospedagem. Já que usar o transporte é fácil e rápido (baixe os mapas do metrô e faça do Google Maps ou maps.me seus melhores amigos).

A bicicleta também é uma ótima opção em alguns locais. Em alguns países você pode optar por bicicletas compartilhadas.

Aplicativos como Uber ou o Grab (usado na Ásia) também são uma boa opção caso você precise de carro. Em alguns países, você pode também compartilhar a corrida!

Já caronas, a Cacau e eu nunca nos arriscamos, mas caronas seguras podem ser definidas pelo BláBlácar, onde o aplicativo consta as informações de quem está dando e recebendo a carona.

3. Mude seus hábitos  

Não tem para onde correr, se você não ganhou na loteria, precisará economizar se quiser viajar sempre.

Já que você agora sabe quanto precisará para viajar, é hora de economizar para conseguir pagar as passagens, hospedagens e ter dinheiro para gastar lá.

Tanto eu quanto a Cacau tivemos que mudar alguns hábitos quando decidimos fazer nossa primeira grande viagem.

Seguem alguns deles:

– Fuja de feriados

Evite viajar em feriados e finais de semana.

Opte por viajar nas férias para poder passar mais tempo viajando e gastar menos.

– Baladas

Diminuir as saídas e/ou trocá-las por passeios e baladas grátis.

Um montante considerável de dinheiro vai embora nas baladas, no cinema, nos shows, etc.

Sei que é complicado cortar este hábito, mas pense que em breve você estará no destino que tanto sonhou e por um tempo maior que a maior parte das pessoas.

É também possível divertir-se gastando pouco, procure e você achará boas opções na sua cidade. Parque e piqueniques, pipoca e Netflix, festinha em casa e comidinha caseira também são opções viáveis.

– Bebida

Se sair, beba menos ou não beba (por causa do álcool perdemos muito da nossa economia e muitas vezes a memória kkk).

– Roupas

Compre apenas o que você precisa e não o que você deseja.

Reutilize, aproveite bazares e promoções e vá em brechós.

– Alimentação

Por causa do yoga me tornei vegetariana, mas acabei economizando muito em restaurantes, pratos com carne são sempre mais caros. Também cortei a bebida e o cafezinho, e a conta diminuiu.

Fuja de Ifood e restaurantes. Comer em casa ou levar comida de casa sempre é mais barato.

– Renda Extra

Procure uma forma de ganhar dinheiro extra.

A Cacau aluga um quarto da casa dela pelo Airbnb e usa parte da renda para as viagens.

Já eu me desfiz do meu guarda-roupa, deixei apenas o que coube no mochilão e vendi o resto em bazares e no site do Enjoei (pode procurar a lojinha de Marina Storch lá que está em promo).

Agora é colocar a mão na massa e começar a arrumar as malas.

Você ficou com alguma dúvida?

Depois olha um pouco dos destinos que já exploramos:

Cacau: https://www.depoisdeumpenabunda.com.br

Marina: https://mudeiarota.com/category/roteiros-de-viagem/

Até breve!

Reflexões

em trânsito

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Aqui estou eu no aeroporto de Dublin, na verdade nesta foto eu já estou na casa da minha amiga em Zurique, 24h depois de uma longa viagem, mas quando escrevi este texto eu estava no aeroporto de Dublin, então vamos lá: aqui estou no aeroporto de Dublin, são quase 2h da manhã, saí ao meio dia da casa do meu irmão em Killarney, do outro lado da Irlanda, passei a tarde em Cork, onde deixei meu mochilão em uma loja, e a noite peguei um ônibus de 4 horas pra Dublin. Cheguei 11 da noite num ponto de ônibus no meio do nada e esperei o próximo ônibus pro aeroporto. Meu vôo mesmo é só amanhã às 6h da manhã. Mas quando somos mochileiros, colocamos no papel se vale mesmo ir até a cidade, pagar hostel, enfrentar busão na madrugada… melhor passar a noite aqui, do jeito que estou, de meia, com um sanduíche e uma cerveja, bolsa colada no corpo, e dois bancos unidos pra eu conseguir deitar e tirar um cochilo. Esta situação de busão, mochilão, aeroporto, já faz parte da minha rotina.

Já são 20 meses viajando e foram incontáveis noites de aeroporto, o de Kuala Lumpur era minha segunda casa na Ásia,  os vôos mais baratos são via Air Asia e sempre tinham escala em Kuala Lumpur, lembro que uma vez eu tinha 6 horas de espera lá, de madrugada, resolvi me dar um luxo e paguei 55 dólares por um quarto no aeroporto, eu tava muito cansada e só queria dormir, mas quando cheguei no quarto, chuveiro bom, secador, TV, quarto só pra mim, um monte de luxo que eu não tinha há meses, resolvi aproveitar tudo e nem dormi! 

E já teve noite no chão do aeroporto de Istambul, com sleeping esticado no carpete que fui acordada 4h da manhã com o moço querendo passar aspirador, teve 5 horas de espera no aeroporto da Etiópia, numa sala entupida de gente sem lugar pra sentar, e teve noite em triliche de trem na Índia, isto mesmo, TRI-liche em um trem em movimento, 16 horas em trem numa micro cama e um medo…um medo gente, no meio daqueles indianos todos, sem saber o que poderia acontecer, dormindo mas acordando a cada 5min só pra checar se estava tudo como estava antes. E o medo não é à toa, recentemente vi o relato do @caiotravels sobre a Índia, alguém se aproveitou dele dormindo no trem e colocou 1 kilo de ópio no mochilão dele, tem traficante que faz isso com medo da polícia entrar no trem e verificar, e provavelmente esse cara não conseguiu tirar a droga depois, que o Caio mudou de cama e ficou em cima do mochilão. Sim, acontece.

Ah, e teve noite em ônibus noturno na índia também, em umas cabininhas que mais parece um caixão. E que não quero nem imaginar quem tava deitado antes de mim.

Eu não consigo lembrar direito como eu era antes deste sábatico, porque aqui virou rotina me movimentar de cidade a cada 3 ou 5 dias, antes acho que eu ficava um pouco ansiosa, chegava com antecedência no aeroporto, separava a roupa certa pra viajar, mochilinha, checava todas as diretrizes do destino. Hoje vou de qualquer jeito e até esqueço, às vezes pouso num novo país, sem internet, e penso “vix, esqueci de ver como chego no hostel”, saio perguntando, pego uns ônibus locais e tudo sempre dá certo. Lembro que há um ano atrás, no início de 2018 eu tava em Gold Coast, na Austrália, tranquei meu mochilão no locker do aeroporto e andei até a praia, dei um último mergulho no Pacífico Sul, coloquei o vestido por cima do biquíni molhado, voltei, despachei o mochilão e entrei pro embarque, assim como quem sai da piscina do prédio. 

Mas também teve muito perrengue nestes longos transportes, lembro que no Sri Lanka eu tava sem chip de internet e resolvi ir da praia no sul pras montanhas no meio do país em ônibus local. O primeiro durou 4 horas e eu fiquei com muita, muita vontade de fazer xixi, obviamente o ônibus não tinha banheiro e  ninguém falava inglês, por mímica tentei fazer o motorista parar, mas ele só deu risada. De repente o ônibus parou num quiosque no meio da estrada, a mulherada desceu e foi fazer xixi atrás do muro, fui junto, e depois todo mundo pediu comida, mas eu com medo de perder o ônibus e sem ninguém falar inglês, voltei e esperei 15 minutos derretendo lá dentro. Mas foi na troca de ônibus que o bicho pegou, parei numa rodoviária pequena, nenhuma placa nem sequer no alfabeto romano, parou um primeiro moço pra me “ajudar”, me disse que o ônibus que eu queria ia sair de uma plataforma, fui e esperei. Parei outro moço que me confirmou, mas este disse que talvez o ônibus não viria, que acontecia com frequência e ele poderia me levar. Daí veio um terceiro cara e ofereceu carona também, dizendo que este ônibus não passava há dias, eu via os 3 caras parados cada um num canto, se entreolhando. PÂNICO. Parei 3 meninas adolescentes, tentei pedir informação, elas só davam risada sem entender nada de inglês. Então saí andando pelas ruas, achei um policial, ele me levou até a plataforma certa que era totalmente oposta a onde eu estava e o ônibus chegou.

Viajar sozinha é isso, é confiar nas pessoas sempre desconfiando, é perguntar a mesma coisa pra várias pessoas diferentes, é não demonstrar medo nunca, mesmo que tremendo por dentro, erguer o peito, mas saber também que tem gente do bem, gente que ajuda. O dia que cheguei na Noruega vindo da Islândia, tava com a minha amiga na máquina comprando bilhete de ônibus pra cidade, chegou um cara e ofereceu o bilhete que ele tinha a mais, sem cobrar nada, e custava uns R$ 100!

Mas um vez na Índia, na entrada da estação de trem, no raio x (na Índia tem raio x pra entrar em metrô, rodoviária, aeroporto…) tinha um cara sem uniforme nenhum, pedindo pra ver o bilhete, quando ele olhou o meu disse que o trem tinha sido cancelado e no mesmo momento surgiu um segundo cara dizendo que poderia me levar ao destino em táxi. Ainda bem que eu já era rata velha de Índia, acompanhava todos os trens pelo aplicativo, vi que o cara nem uniforme tinha, xinguei e entrei na rodoviária. Na Índia é assim, na base do xingamento, tem que enfrentar. Sim, a Índia nos fortalece, muito. 

Lembrando destes momentos tensos de Índia e Sri Lanka até me acomodo mais na poltrona aqui na Irlanda, feliz, aeroporto seguro, confortável, até esqueço que hoje serão 24h em trânsito com a mesma roupa. 

Ah, acabei de lembrar como eu era pré-sabático, eu fui 5 anos seguidos pra Rondônia de ônibus, 2 dias e meio viajando, pra fazer trabalho voluntários com as populações ribeirinhas, sim, sempre gostei de um perrengue, é normal.

Caminho de Santiago de Compostela

O Caminho do Norte para Santiago

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Este é o segundo post sobre o Caminho de Santiago que escrevo, este é sobre o Caminho do Norte, o Caminho do Litoral Norte da Espanha, onde todas as pessoas que haviam feito me falavam que era o mais lindo de todos. Só pode ser o mais lindo! Me apaixonei!

Como comecei minha jornada no Caminho Aragonês em Somport, migrei pro caminho Francês em Puente la Reina e voltei tudo até a França pra começar de novo pelo Caminho do Norte, posso assegurar, que destes 3 caminhos que fiz, em minha opinião, o Norte é disparado o mais lindo de todos!

Sobre o Caminho Francês que 80% dos peregrinos fazem e minha mudança de rota pro Caminho do Norte, conto no post abaixo aqui no blog. Assim também como dei a dica do que levar e quanto gastar (a média dia em qualquer um dos caminhos pra mim foi de EUR 30 entre albergues, restaurantes e supermercado). Aqui, além da dica do site http://caminodesantiago.consumer.es que eu já havia dado, no Caminho do Norte também utilizei o aplicativo Buen Camino, onde estão todas as rotas, os mapas e os telefones dos albergues.

Mas o caminho do norte gente… é uma natureza de arrepiar, de chorar de emoção, é ver o sol nascer por trás das rochas, são montanhas de um imenso verde, são bezerros  e cabras por todas as partes te acompanhando com o olhar, são os cavalos soltos com as crinas mais loiras e lindas que já vi, é sentir a maresia, subir e descer morro pra tomar banho de mar, é colocar o pé na areia, é passar por povoados onde os moradores puxam conversa só porque você é peregrino, te convidam pras suas casas, é comer maçãs, figos e amoras direto das árvores, são as praias mais lindas, cruzando o país Basco, a Cantábria e as Astúrias, antes de entrar na Galícia. Sério, é muito incrível!

Eu não sei explicar o que aconteceu neste Caminho, ele começou de uma decisão por impulso no meu terceiro dia de Caminho Francês, quando cheguei em Logroño, em La Rioja, após caminhar 20km desde a última cidade, quando eu estava há 3 dias frustada com tanta gente e muvuca, decidi ir pro Norte e recomeçar de uma praia, San Sebastian. Então olhei no mapa, parei na Oficina de Apoio ao Peregrino em Logroño, falei do meu desejo, e além deles dizerem que muita gente estava desistindo do caminho francês, me mostrarem o ônibus pra San Sebastian, ainda me deram um alfajor e parabenizaram pela decisão de mudar…saí com a certeza, naquele minuto, que eu estava fazendo a coisa certa. Aproveitei minha tarde em Logroño numa festa do vinho, peguei o ônibus e 5 horas depois eu chegava no fim de tarde em San Sebastian. Aí foi um balde de água fria…parei na oficina turística pra perguntar onde era o albergue de peregrino, e a moça me respondeu: IMPOSSÍVEL, estamos no meio do festival de cinema, não há onde dormir por menos de 200 euros, todos os albergues lotados. Eram 19h e me desesperei, ela até ligou em cidades ao redor, e não havia vaga em lugar nenhum, busquei no booking.com e a opção mais barata estava 600 euros.

Saí meio perdida pelas ruas, disposta a esticar meu sleeping em uma praça pra passar a noite, embora ela tenha me dito que poderia ser perigoso, por ser uma cidade muito movimentada, mas cruzei um peregrino no meio da rua, com a concha pregada na mochila (como eu) e pedi ajuda. Ele nem estava fazendo o caminho, apenas já o tinha feito uma vez e nunca tirou a concha a mochila, mas como o destino é bom, ele logo me indicou um trem para Irun, começo do caminho e 30 km pra trás, me disse que lá seguramente haveria cama livre no albergue e eu poderia andar dia seguinte e chegar novamente a San Sebastian, quando o festival terminava e voltaria a ter disponibilidade em albergue. Assim foi, e o destino me fez começar o Caminho do Norte do primeiro ponto mesmo, Irun, quase na fronteira com a França. A ideia inicial era escapar esta parte e começar de uma praia, mas o Caminho me fez fazê-la, e foi uma parte linda, de serra sempre com vista para o litoral, no País Basco. 

O resto do Caminho não irei detalhar as etapas, basta ver no site ou aplicativo que eu indiquei aqui. O Caminho de Norte inteiro, de Irun até Compostela, tem 815km, eu fiz apenas 700, pulei uma parte entre Bilbao e Santader, pois já tinha andado 256km antes no Caminho Francês, e porque esta parte é bem industrial, de estradas e menos praias. Mas um dia volto num feriado qualquer pra fazer só este trechinho, em 4 dias é possível, e dizem que Portugalete que fica lá tem um litoral lindo.

No Caminho eu andava uma média de 30km por dia, sempre com a minha mochila de 7 kilos nas costas, peguei chuva, andei de capa de chuva, peguei sol que já saía do albergue com biquíni por baixo, peguei ventania de 75km/h, que mal conseguia andar, teve de tudo! Tinha dia que eu desembestava a andar e iam 25km sem parar, tinha dia que eu estava mais preguiçosa e parava a cada 5km pra comer algo que eu carregava comigo ou sentar pra descansar. Mas quando tinha praia eu sempre parava! A Praia de San Sebastian é linda, numa cidade super turística, cheia de restaurantes e bares chiques, acabei passando uma tarde e a manhã seguinte toda lá e este dia andei só a tarde (muito raro algum peregrino começar a andar 14h como eu fiz).

Depois foram tantas outras praias, que não importava a temperatura (e às vezes tava 12º graus fora) mas eu colocava o biquíni e às vezes entrava no mar! Gijón, Playa da Cueva, Penarronda, Comillas, Tapa de Casariego, Cudillero, Playa de Po, La Isla, e tantas outras praias que perdi a conta! 

A rotina era mais ou menos assim: eu acordava empolgada, tomava café, preparava o lanche pra levar e via no mapa as praias do caminho, colocava um pin no mapa e mesmo se eu tinha que sair do Caminho oficial eu ia, fazia meu próprio caminho entre os povoados e campos do litoral, tinha dia que escolhi ir acompanhada, tinha dias que fui sozinha, tinha dia que saía cedo 2 horas antes do nascer do sol, outros eu era a última e saía às 9h quando fechava o albergue, tinha dias que eu encontrava alguém no meio do dia e seguia com a pessoa, tinha dias que eu ia em silêncio absoluto, tinha dias que ia com a maior playlist andando e dançando! Mas o que eu mais gostava era quando eu via o mar de longe, me aproximava, e descia na praia, colocava o biquíni, tomava sol, fazia yoga, mergulhava no mar. Às vezes eu comprava algo de comer num supermercado ou café antes e fazia picnic na praia. Estes dias eu decidia ficar sem hora pra sair, mas como o celular podia ficar sem bateria, ou eu podia chegar no destino e encontrar o albergue municipal lotado (que custam 6 euros), sempre procurava antes no booking.com ou ligava nos Hostels privados do aplicativo e já deixava minha vaga garantida, pra ficar na praia sem hora pra sair, e chegar no albergue depois de anoitecer, era a última.

Se teve perrengue? sempre! Mas eu não ligava, tudo sempre dá certo no final. No meu último dia de litoral, cruzando das Astúrias pra Galícia, eu ia parar em umas 6 praias (afinal depois seriam 6 dias sem litoral até Santiago de Compostela), e ia dormir em Ribadeo. Liguei nos albergues privados de lá mas só tinha quarto individual de 30 euros, achei caro e resolvi arriscar sem reservar nada. Aproveitei as praias até o último minuto e quando cheguei no albergue municipal de Ribadeo (os municipais não aceitam reserva) ele estava lotado. Já estava escurecendo e eu não queria pagar 30 euros nos privados, então andei mais 6 km (além dos 24km que eu já tinha andado) até a próxima cidade que tinha cama por 10 euros, nem liguei. Mas outro dia que parei em La Isla pra dormir (uma praia bem pequena) eu cheguei cansada e passando mal de algo que comi no caminho, o albergue estava fechado e o único hotel da cidade também, mas eu estava com um espanhol e saímos ligando em alguns números até achar um quarto pra alugar por 30 euros pra nós dois, então sempre há uma alternativa, se não fosse este quarto, eu ia andar 5km a mais até a próxima cidade, mesmo passando mal.

O Caminho é assim, nos ensina a ter paciência, perseverança, nos ensina a viver com pouco, a conviver com os outros e com nós mesmos, mostra que nosso corpo aguenta muito mais do que imaginamos, mostra como somos felizes em meio a natureza. O choro vem, muitas vezes de felicidade, de emoção, as coincidências acontecem, as pessoas certas surgem, e às vezes passamos até 7h totalmente sozinhas. Foram 33 dias caminhando, 940km entre os 3 Caminhos que percorri, cheguei a fazer 42km de caminhada em um dia, sem nem notar! Também enfrentei o medo, de estar sozinha numa floresta escutando uns sons do além, o medo de um cavalo que correu até mim pra ficar cara a cara e me olhar nos olhos, mas nenhum grande susto e sempre a confiança que tudo dará certo.

O Caminho é lindo, e falo pra todo mundo: FAÇA!!! Principalmente se for o do Norte ❤️.

Caminho de Santiago de Compostela

O Caminho Francês pra Santiago

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El Camino ❤️ , acho que o mês mais feliz deste sabático! Ante de tudo, explicando aos que não sabem, existem vários caminhos de peregrinação que levam a Santiago de Compostela  na Espanha (uns 10 diferentes). Alguns saem de outros países e continuam na Espanha e qualquer pessoa pode escolher qualquer um dos caminhos e qualquer ponto de saída. Eles podem ser feitos a pé, de bicicleta ou a cavalo e é preciso fazer a Credencial do Peregrino antes de sair, para poder se hospedar nos albergues de peregrino e ir recebendo os carimbos a cada parada até chegar ao carimbo de Santiago de Compostela na chegada!

Além da credencial, outra tradição importante é a concha que identifica o peregrino, todos tem esta concha amarrada em suas mochilas e o caminho é todo sinalizado por conchas e setas amarelas (nos postes, placas, árvores, chão). É como buscar ovos de páscoa, tem que andar atento buscando as conchas!

Para esta minha primeira vez (sim, creio que haverão muitas) escolhi o Caminho Francês que é o mais popular/comercial de todos. Mas como eu tava com preguiça e já subi o basecamp do Everest este ano (you go girl!!), resolvi não começar como todo mundo de Saint Jean de Pied de Port  (subindo os Pirineus)  e fui pelo caminho francês alternativo que já sai do alto dos Pirineus na cidade de Somport na França, descobri depois que este Caminho “alternativo” Francês se chama Caminho Aragonês pois atravessa o estado do Aragão, de Somport até Puente la Reina, completando 165 km. Pra chegar em Somport peguei um trem de Madrid a Zaragoza e outro trem até Jaca, dormi em Jaca em um albergue de peregrinos, deixei minha mochila e peguei um ônibus para Somport dia seguinte, onde desci caminhando meus primeiros 33km (mas sem a mochila) até Jaca. Quem não aguenta tantos km em um dia também pode dormir no meio do caminho, em Canfranc.

Não vou detalhar o caminho e as paradas, porque a dica MARA que eu dou é usar este site aqui que sinaliza tudo de cada caminho da Espanha: http://caminodesantiago.consumer.es. Nesta primeira etapa do Caminho, eu não usei aplicativo, não usei mapa, não usei 3G no caminho, apenas dava print da próxima etapa neste site antes de sair do wifi de manhã e se precisava de uma ajuda olhava os prints, mas tentei fazer o caminho sem muita tecnologia, apenas seguindo as setas e conchas amarelas.

A ideia de sair de Somport ao invés de Saint Jean foi ao mesmo tempo boa e ruim,  é desta experiência que quero contar aqui no post, esta rota alternativa (Caminho Aragonês) completa 165km em 6 dias de Somport até Puente la Reina, onde se une com o Caminho Francês e vira um único caminho. Mas como esta rota alternativa não é tão conhecida, eu senti que ela tem sido abandonada ao longo dos anos…muitos postes com a sinalização das setas amarelas caíram e fiquei indecisa sobre a rota, também não achei que tinham setas o suficiente, cheguei a andar 1 km sem ver seta, mas mesmo assim não cheguei a me perder, intuição nos guia também! Mas o pior (pra quem não gosta de perrengue) foi que as cidades pequenas no meio de cada etapa estão vazias, alguns albergues e bares nelas foram fechados (mesmo setembro ainda ser temporada), então às vezes não havia alternativa de encurtar uma etapa dormindo no meio do caminho ou realizar uma parada para comer algo. Cheguei a andar 20km sem nenhuma opção de comida, então tem que se organizar e carregar lanche mesmo! E por dois dias nem fontes de água achei, cheguei a ficar com sede depois que meu litro de água acabou (e acho difícil levar mais de um litro pelo peso da mochila).

A parte boa do caminho é que por ele ser tão menos frequentado, você caminha sozinho, livre, na natureza, vendo paisagens incríveis! Eu amei! cheguei a andar 6 horas sem cruzar ninguém, mas isso é pra quem curte esta solidão né? Eu prefiro do que fazer trilha com gente. E também, por ser menos frequentado, uma média de 15 pessoas passam por ele todos os dias, e só há um albergue por parada, então todas as noites acabei encontrando e dormindo com as mesmas 13 pessoas e criamos vínculo (nenhum abaixo dos 55 anos, tá?), mas todos uns fofos, e eu fui a tradutora oficial entre os franceses, os espanhóis, o alemão, o inglês e a belga (muito amô por eles!).

Apesar deste caminho alternativo não subir os pirineus, é um caminho pesado sim, pelas longas distâncias de cada etapa (25 a 33 km por dia), algumas subidas e descidas, com poucas paradas para uma bebida fria ou algo de comer. Também não há farmácias ou médicos (apenas no dia 1 em Jaca e no dia 4 em Sangüesa) e muito menos supermercado para preparar seu lanche do dia seguinte, levar frutas e até cozinhar no hostel, apenas em Jaca e Sangüesa isso é possível. As pernoites em Arrés, Ruesta e Monreal são literalmente no meio do nada, onde o próprio albergue tem um bar que vai te preparar jantar, café da manhã e o “bocadillo” pra trilha do dia seguinte, mas pra minha fome não era suficiente, e pro meu bolso saía caro, se comparado com a possibilidade de um supermercado, mas tudo bem, as paisagens e a trilha sem ninguém compensaram este perrengue.

Quando cheguei em Obanos, pouco antes da pernoite em Puente la Reina e cruzei com o pessoal vindo do outro caminho, o Caminho Tradicional Francês, notei a diferença entre os dois caminhos! De cara em Obanos vi duas fontes de água, parei pra abastecer a garrafa e começou a passar gente, gente, gente…grupos, duplas, casais, não dava 3 minutos sem passar alguém, não tem nem comparação com o caminho que eu vinha. Logo puxei papo com duas meninas da minha idade (eram 6 dias sem ver ninguém abaixo dos 50 kkk), duas espanholas de Barcelona, fomos andando e conversando, e após 2 minutos da última seta amarela uma delas se desesperou em não ver outra seta, mas estávamos em uma rua reta, eu não entendi o desespero hahaha,  eu estava acostumada a andar até 1 km sem ver seta! Me espantei com a diferença! E fui reparando como é muito sinalizado este caminho! E a cada km há um bar ou quiosque ou vending machine (no meio do nada!), as pessoas  param, pedem sanduíche, suco, café, cerveja, eu estava acostumada a passar minhas 6 a 8 horas diárias de caminhadas com meus lanches na mochila e racionando minha água pra não faltar! E a partir deste caminho, todas as cidades que passamos tinham vários albergues ou pousadas, então pra alguém que queira fazer trechos curtos de 10 a 15km por dia, é super possível.

Gostei muito de ter começado pelo Caminho Aragonês e depois ter juntado com o Francês, assim posso viver as duas coisas, e as pessoas que conheci nos 6 primeiros dias desde Somport: maravilhosas! Um senhor francês que perdeu uma perna em um acidente de moto há 18 anos e hoje faz o caminho com prótese e muleta, ele vai de carro até a cidade da próxima pernoite, daí volta andando 5km pra esperar a esposa em uma sombrinha e  segue de novo estes 5km com ela, completando apenas 10km por dia, que é o que ele aguenta. Uma belga de 71 anos que está fazendo 1000 km de Caminho desta vez, mas há 10 anos ela fez 2700km desde a Bélgica até Santiago. E um espanhol nos seus 60 e muitos que teve um problema no coração este ano e colocou um marcapasso, está fazendo o caminho devagar, com uma bengala e acompanhado dos seus dois filhos. E também conheci o Pepe, que em 2014 se deu conta que seu tempo não valia trabalho ou salário nenhum, então pediu demissão, doou todos seus livros e roupas, devolveu o apartamento alugado e vive há 4 anos peregrino pela Espanha, tudo o que ele tem está na sua mochila de 20 kg, ele vive ao redor do Caminho, mas ás vezes sai dele, volta, vai conhecendo pessoas que lhe dão coisas, distribui tempo para conversa, sorrisos e mensagens impressas em marca-páginas, e essa é a sua vida, andarilho!

Esta foi a  particularidade desta minha experiência no caminho alternativo ao francês: as pessoas que cruzei! E isto não tem preço. No Caminho Francês o perfil dos peregrinos é outro, conheci poucos fazendo o caminho sozinho, são mais grupos de amigos e casais, um pouco mais de festa e menos introspecção, mais jovens, porém com menos propósito em fazer o caminho, todos que eu perguntava “por que fazer” me respondiam “porque é bonito”, “porque eu tinha férias”, “porque fulano me chamou”. Ponto. Nenhuma pessoa que eu conheci no Francês tinha um propósito espiritual, ou religioso, ou de busca interior, ou de superação. Também conheci grupos organizados de turismo nesta rota, agências que levam grupos, transportando suas mochilas em carros e fazendo suas reservas em hotéis, às vezes até mesmo com guia. Achei o Caminho Francês bem mais comercial!

Mas esta foi uma visão pontual minha, de apenas 3 dias de Caminho Francês, apenas 70 km, e conto o porquê: faltando 780km pra chegar em Santiago, eu não estava gostando da “muvuca” dos últimos 3 dias do Caminho Francês e saí deste caminho!! Eu estava cruzando mais de 100 pessoas por dia na trilha, um pouco incomodada com a quantidade de quiosques e bares, as pessoas bebendo e falando alto, sem eu conseguir fazer minha caminhada em silêncio, então desisti, ignorei que tinha andado já 235km, voltei pra França e comecei tudo de novo por outro caminho de santiago: O Caminho do Norte. Isto mesmo, mudei a rota! E não me arrependo um só momento, foi a melhor decisão de mudança deste sabático!!! E um reflexo do que tem sido minha vida nos últimos tempos: a coragem de mudar diante do incomodo e /ou do comodismo. Não é porque escolhemos um caminho, um trabalho, um relacionamento lá trás que precisamos ficar pra sempre, se não está bom, temos que ter a coragem de mudar!

Mas deixando a filosofia de lado e voltando ao Caminho: o fato de eu não ter gostado do Caminho Francês não impede de outras pessoas gostarem, quem prefere andar com suporte de restaurantes, quem não se sente confortável ou seguro de estar tantas horas sozinho na natureza, principalmente mulheres que me enviarem dúvidas com seus medos, sim, o Caminho Francês é indicado para quem prefere andar com mais infra-estrutura e encontrar mais pessoas! É que euzinha prefiro o “into the wild style” e um perrengue básico pra chamar de meu!

Ainda sobre o caminho Francês, falando das paisagens, ele é lindo tá? Não desisti pelo visual, porque o visual é lindo, de planícies, passando por muitas plantações e muitas cidades fofas! Só fui até Logrono, não deu tempo de passar por Leon e Burgos que eu queria conhecer, com catedrais góticas incríveis, mas tudo bem. Este caminho só tem alguns dias maçantes em trechos de Navarra e La Rioja de puras plantações com sol na cabeça e clima bem seco, mas o visual é bonito!

Já o Caminho do Norte que eu migrei é outro visual, ele é no litoral. Então as paisagens são de serra, floresta e praias. P-R-A-I-A-S !!! Por isso me apaixonei tanto! Mas antes de migrar pro outro post que eu conto do Caminho do Norte, queria dar duas dicas aos interessados que me mandaram perguntas sobre o caminho: os gastos e a mochila!

O ideal é que a mochila tenha 10% do seu peso, e que não passe dos 40 litros, tem que ser aquelas que ajustam bem na cintura pra distribuir o peso! Considere que a própria mochila já pesa cerca de 1 kg e o litro de água também, então de resto, eu trouxe: sleeping bag, casaco corta vento que também é a capa de chuva, capa de chuva pra mochila (se não for embutida), um casaco de fleece, uma papete pra chegar no destino e passear com os pés respirando, uma havaina pra tomar banho, toalha de camping, necessaire pequena, uma calça e blusa pra dormir. E daí são dois looks: o 01 e o 02, hahaha um você usa, chega e lava, e o outro você usa dia seguinte se o de ontem não tiver seco, então são 2 bermudas de lycra (e 1 legging se esfriar), 2 camisetas de dryfit, 2 tops, 2 calcinhas e 2 meias. A bota de trekking tem que ser muito confortável, cano médio e estar amaciada no seu pé! Tem gente que faz com tenis de corrida, mas não é indicado pros dias de chuva e as pedras que eu encarei na serra do litoral, onde amarrei bem o cano médio protegendo o tornozelo.

Esta é a mochila ideal pra quem vem neste clima que estou, em setembro/outubro ou abril/maio, estas são as melhores épocas. Junho a agosto além de ser muito quente é bem cheio de gente, inclusive excursões de escolas espanholas!! E de novembro a março é bastante frio, então a mochila precisa ser reforçada com outras roupas (nesta época também muitos albergues fecham, então aconselham até a levar barraca, isolante térmico, etc).

Os gastos: eu gastei exatamente 30 euros por dia! Os albergues de peregrino vão de 5 a 12 euros, os menus nos restaurantes vão de 10 a 12 euros (dois pratos, bebida e sobremesa) e um café-da-manhã ou lanche sai 4 a 5 euros. Como neste momento o euro está nos saindo R$5,20, eu prefiro fazer supermercado onde o meu jantar, café do dia seguinte e lanche pra trilha me saem no máximo 7 euros. De resto, é só andar, porque a natureza e nossas pernas são grátis!

Sri Lanka

Sri Lanka, onde?

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Há um ano atrás eu conhecia o Sri Lanka, mas resolvi contar só hoje sobre esta experiência porque me veio toda a memória do ano passado, então voltei lá nas minhas anotações, tabelinha de gastos (engenheira ela) e fotos, e montei este relato aqui. Estava eu na minha terceira semana de curso de formação de Yoga na Índia em outubro de 2017, o clima estava cada vez mais quente, eu cada vez mais coberta (em ashrams também precisamos cobrir ombros e pernas) e a quarta e última semana do curso se aproximava com uma vontade louca de ir pra praia. Eu estava em Nashik, ao sul de Mumbai e pensei que poderia ir para as praias de Goa ou Kerala na Índia mesmo. Porém, um belo dia, por sincronicidade de conversas diferentes, 2 pessoas citaram suas viagens ao Sri Lanka, que eu confesso que nem sabia se era na Ásia ou na África (geografia nunca foi meu forte)…olhei no mapa, bem ao sul da Índia, pertinho, com praia…entrei no site do Worldpackers e tinha oportunidade de work exchange em hostel (troca de 20 horas semanais de trabalho por hospedagem e refeições), então me candidatei à vaga, comprei minha passagem e uma semana depois estava indo passar um mês  neste país tão pouco visitado (especialmente por brasileiros).

Bom, minha ida ao Sri Lanka foi mais pra curtir uma praia e ter a experiência de work exchange (que conto neste outro post ) do que pelo país em si, mas acabei sendo surpreendida por um destino incrível (e muito barato)! Logo me encantei, vi que é um país com muito pra se visitar, e tentei explorar ao máximo, mas não estive nas montanhas do norte, por exemplo, e nem litoral leste que conheci muita gente vindo de lá.

Pousei em Colombo, mas nem cheguei a conhecer a capital, dia seguinte de manhã já peguei um trem pra Mirissa, barato (US$ 1,50) mas pensa num aperto de quase 5 horas…sem lugar pra sentar…enfim, fui de pé quase até o final, a última hora de viagem vagou uma poltroninha que ocupei. Negombo é outra cidade ao lado de Colombo que dizem ser charmosinha, mas eu estava tão sedenta por praia, que pulei esta parte e fui logo pra Mirissa.

Mirissa é a praia que escolhi ficar e onde arrumei o job no hostel, dá pra passar dias nela, é calma e linda com pôr-do-sol especial, os hostels costumam custar US$ 10 com café da manhã (tanto o My Hostels que eu trabalhei quanto o Hostel First que visitei) e de Mirissa também dá pra fazer uma trilha pra Secret Beach, uma prainha isolada que eu amei e acabei indo vários dias. 

Em Mirissa dá pra alugar caiaque, stand up padle, sair de barco, fazer snorkeling ou sentar em alguns dos restaurantes com espreguiçadeira na praia e relaxar o dia todo, é uma vibe muito parecida com a de algumas ilhas na Tailândia, mas ainda com pouca exploração turística, então é menos cheio e tudo é muito barato! 

Um prato em restaurante custa de 300 a 700 rúpias, que equivale a 2 a 5 dólares, a cerveja Lion 600ml custa US$ 2 no horários de happy hour (que tem promos) e US$ 3 na balada.

Não é toda cidade que vende álcool fora dos bares, por exemplo em Mirissa pra comprar em supermercado precisa de uma licença que só os moradores possuem. Já em Weligama (que dá pra ir de tuk tuk) se compra álcool em loja especializada para trazer pra casa. Mas a famosa bebida é o arrack, uma espécie de rum que custava US$ 2 a garrafa e tomávamos com coca na baladinha (arrack attack é o drink ;-). Falando em balada, gostei muito da organização deles, como a praia é larga e cheia de bares, mas não tem tanto turista como nas ilhas da Tailândia, todos os bares funcionam pra happy hour, mas após as 11 apenas 1 por dia da semana abre pra balada, assim não tem dispersão e concorrência, eles se organizam, anunciam em cartazetes a programação semanal e sinalizam qual o bar da noite com um holofote na areia (tipo aquele holofote que chama o batman). O problema de ser o mesmo holofote migrando de bar em bar é que é o mesmo DJ que acompanha, e todo dia é a mesma playlist (risos…)

E assim todo dia tem baladinha pé na areia! Sem pagar pra entrar e com drinks baratos. Durante o dia, além de curtir a praia de Mirissa, fui também em lugares próximos visitar, Matara é a maior cidade com bons restaurantes, Galle Fort é uma pequena Holanda dentro de um forte, com hotéis boutique, restaurantes e sorveterias artesanais (que eu tive a sorte de visitar com uma holandesa hóspede do hostel) e Weligama é uma praia boa pra surf, com aulas, aluguel de prancha, reggaes a noite e vários surf camps. Também fui a algumas praias em Unawatuna, mas acho que dei azar com o tempo, porque no google imagem a água parecia transparente mas quando eu fui estava escuro pela chuva.

Conheci apenas este litoral sul do país, que eu considero a “Tailândia ainda não descoberta” pela beleza natural, poucos europeus estão começando a explorar mas no mês todo eu conheci apenas um sulamericano na região.  Mas para visitar o Sri Lanka precisa se atentar à época de monções que é diferente em cada região do país, por exemplo eu fui em outubro e era seca no litoral sul, já minha amiga visitou em maio e explorou o litoral leste, principalmente Arugam Bay, aliás para roteiros de Ásia super indico o trabalho dela, agente de viagens nômade digital, podem buscá-la no insta: @mari.seligardi!

Depois destas semanas trabalhando no hostel na praia, eu só tinha poucos dias livres antes de voltar pra Índia, então fui conhecer as montanhas de Ella, no centro do país, uma cidadezinha muito charmosa que parece Campos do Jordão. Eu fui de ônibus local, numa longa viagem de 7 horas (que custa US$1) sendo a única turista em meio aos locais, mas muita gente vai de trem. Ella é uma cidade pequena, cheia de cafés e massagens baratas, e o mais gostoso de fazer são as trilhas nas montanhas pra visitar os pontos turísticos: Nine Archs Bridge, Ella Rock, Little Adam’s. 

Ella é muito famosa pelo trem que chega nela vindo da cidade Kandi, é considerada uma das rotas de trens mais bonitas do mundo, e geralmente os turistas chegam na capital Colombo, pegam um trem pra Kandi e depois seguem nesta rota linda de trem de para Ella. Eu fiz o contrário, cheguei do litoral em Ella e fiz a rota linda de trem pra Kandi ao contrário, mas a rota é a mesma, e é mesmo muito linda, são horas de paisagens montanhosas e plantações, num trem antigo. Passeio maravilhoso!!

Outra atração turística famosa no Sri Lanka são os safaris, que eu não cheguei a fazer, o país tem quase 20 parques e reservas nacionais, e muitos com safaris, e alguns até com pernoite em cabana e jantar em roteiro de luxo. Aliás, o Sri Lanka começou a ter muito resort babado pra quem gosta de turismo de luxo, mas a preços mais razoáveis que Tailândia e Indonésia.

É isso, um pequeno país asiático, com forte influência das ex colônias portuguesa e holandesa, rodeado de um litoral lindo e com uma cadeia montanhosa maravilhosa! Pessoas simples, com feições parecidas a dos indianos, comida boa e roteiros muito, muito baratos! Completamente fora da rota da maioria dos mochileiros brasileiros pela Ásia, mas vale a pena incluir! 

Eu incluí e amei!