Índia, Roteiros de viagem

Ela é espiritualizada, ela

ganges

A Índia é muito espiritualizada, aqui todos tem esta conexão seja com algum Deus, com uma energia, com o Ganges, o que for, não importa se oram para Shiva ou Alá, se praticam o Yoga ou o Tantra, ou simplesmente porque karma é importante e todo mundo tem seus karmas pra dissolver, aqui é energia, magia e espiritualidade. Isso é o que mais me encanta na Índia, principalmente aqui no norte, esta relação com o que não podemos tocar, com o místico, com a religião, é pedir pro garçon um prato que reduz o pitta e ele trazer frutas com iogurte (na medicina ayurvédica buscamos equilibrar os doshas pitta, kapha, vata), é  pechinchar muito uma mercadoria até escutar do vendedor que se for abaixo daquele preço é “bad karma”, é cruzar na rua com um sadhu (homem sagrado) que pinta a sua testa e te abençoa, é ver crianças aprendendo meditação desde a escola.

Esta última viagem que fiz por aqui passei por lugares que mais tive contato com crenças, religiões, rituais, energia. Lugares diferentes da viagem que fiz pelo Rajastão em dezembro, região mais turística, aqui no norte me conectei mais com a Índia Mística, um lugar que ativou minha intuição, meus sonhos, aquele lugar que enche o peito de uma energia boa que não se explica de onde vem, e acontece aquela sincronicidade, as famosas “não” coincidências.

Neste último mês visitei 6 cidades e aqui vou contar um pouquinho de cada uma delas pra inspirar quem quer conhecer a Índia, 4 delas fiz em grupo com o Vem Comigo para Índia que super recomendo, pois eles apresentam a Índia de maneira profunda e contrastante, unindo atrações turísticas ao dia-a-dia dos indianos, e como se tratava de Agra, Khajuharo, Varanasi e Bodhgaya, percorrendo 2200km entre elas com a volta pra Delhi, confesso que me deu uma preguicinha de planejar os trens e vôos sozinha, com o grupo já estava tudo no pacote e éramos em 8 brasileiros que dei a sorte de serem todos maravilhosos!

Mas se você, garota, quiser visitar estes lugares sozinha, não vejo problema algum, achei todos muito seguros, e recomendo duas redes de hostel que estão pela Índia toda: Mustache e Zostel, são muito bons e fáceis de fazer amigos pra visitar tudo. Mantenha sempre o cuidado de não andar sozinha a noite, isto nunca é aconselhável na Índia, e se for pegar um uber, taxi ou tuktuk, acompanhe pelo maps se está indo na direção certa e ligue pra alguém (ou finge) falando em inglês “oi, chego aí em x minutos, já estou no carro”, pro motorista saber que você está ligada e tem gente te esperando, assim não tem erro.

Bom, vou começar contando de Delhi, que já passei 3 vezes, sempre por 2 ou 3 dias, entre uma viagem e outra. Delhi é o caos, é poluição, é stress, vaca e tuktuk te atropelando… mas é Índia, e eu adoro. Sempre me hospedo na região do Main Bazar, atrás do Imperial Cinema tem opções de hotel dos US$ 10 aos US$ 40, só depende da sua tolerância à sujeira, a minha é alta então economizo mexxxmo. O Main Bazar é um mega mercadão de rua onde se pode comprar de tudo e por lá já comi em dois lugares que gostei muito, de qualidade e pimenta leve: Brown Bread Backery e o Madan Café, que apesar dos nomes “padaria”e “café”, servem refeições indianas e são frequentados por ocidentais também, na dúvida peça o Thali (famoso P.F. com arroz, lentilha, legumes, curry e nan – tipo um pão).

Agora, se quiser fazer compras em uma lugar mais organizado e visitar um bairro mais chique para comer ou tomar um drinque, faça compras no mercado Dilli Haat, um mercado a céu aberto pago, sem vacas ou tuktuks invadindo as barracas e vá ao Hauz Khas Village no fim do dia para um passeio no parque e um drink no pôr-do-sol.

Dos pontos turísticos de Delhi que valeram a visita pra mim, recomendo fazer este pout pourri de religiões visitando  o maior templo hindu do mundo: Akshardham (80% da população indiana é hindu),  a maior mesquita da Índia: Jama Masjid (os muçulmanos representam 14%) , o santuário sikh Gurudwara Bangla Sahib (4a religião, com 1,7% da população), e o Lotus Temple (moderno e aberto a todas as religiões). Atenção ao dress code: cobrir pernas e ombros com roupas folgadas para entrar nestes solos sagrados e sempre deixar o sapato do lado de fora! Outros pontos turísticos bonitos em Delhi são o Red Fort e a Humayuns Tomb.

Partindo de Delhi pra Agra, onde está o Taj Mahal, você tem duas opções, pode fazer um bate e volta de trem, ônibus ou taxi, entrando no Taj no horário de pico (cheinho de gente), ou seguir a recomendação de muitos blogs de viagem, que foi o que fizemos, chegando na hora do almoço de trem,  pegar o pôr do sol do parque Mehtab Nagh, nas costas do Taj e dia seguinte entrar no Taj bem cedinho no nascer do sol, ainda vazio. Na cidade também tem o Agra Fort para visitar e se tiver um tempinho para almoço ou café e puder apoiar um projeto especial, vá na Sheroes Hangout, onde mulheres excluídas da sociedade trabalham e cozinham. Guerreiras, com seus rostos danificados por ataques de ácido pelos mais absurdos motivos, lá elas se uniram e trabalham juntas. São reportados ainda hoje de 250 a 300 ataques de ácido por ano na Índia. #stopacidattack. Na Sheroes se pode comprar roupas e artesanatos feitos por elas ou pedir algo do cardápio para comer (este sem preço, você paga o valor que o seu coração mandar). Contraste, assim como toda a Índia, é sair do Taj Mahal, uma das 7 maravilhas do mundo construída por amor pelo imperador Shah Jahan em memória de sua ‘esposa favorita’ Aryumand e ir tomar um café na Sheroes com mulheres abandonadas e machucadas por seus maridos ciumentos. Um choque cultural, como toda Índia.

Seguindo para Khajuharo,  uma pequena cidade famosa por seu complexo de templos hindus medievais, dedicados a Brahma, Vishnu e Shiva e muitos deles com imagens tântricas. Os templos são lindos, os detalhes impressionam e os jardins ao redor são muito bem cuidados. Ela é menos turística que as outras cidades, senti uma certa “carência”da população que avança mais nos turistas tentando vender  souvenirs, difícil ficar 5 minutos em silêncio, o povo gruda mesmo! E se disser que é Brasileiro, vão até arranhar um português com vc e dizer que conhecem alguém de Ouro Preto, tô até agora tentando descobrir quem de Ouro Preto passou por lá e conheceu a população inteira…kkkk. Achei muito bonita, mas se o tempo for curto, na minha opinião esta visita seria dispensável se comparada com as outras cidades.

E então cheguei em Varanasi, eu estava ansiosa pra conhecer esta mais profunda Índia e este dia finalmente chegou! Varanasi não dá pra explicar, tem que sentir, ver, cheirar, ouvir tudo o que acontece na beira do Ganges:  300 corpos são cremados por dia, sadhus (homens sagrados) meditam em seus tapetinhos, homens e mulheres lavam e estendem suas roupas no mesmo Ganges que as cinzas pós cremação são jogadas, devotos mergulham de roupa 3 vezes repetindo suas preces, crianças vendem pujas (flores como oferenda), barbeiros raspam cabeças, outros homens oferecem serviço de limpar orelhas, tudo isso em meio a vacas, búfalos, macacos, cabras e os mais lindos doguíneos de rua. Dá pra ficar o dia inteiro sentado na escadaria na beira do Ganga apenas observando tudo isso (mas fique atento que às vezes as vacas mais gordinhas perdem o equilíbrio nos degraus e descem correndo).

Varanasi é considerado o solo mais sagrado do hinduísmo, muitos idosos vão para lá esperar a morte chegar, as cremações podem ser vistas de pertinho, mas não podem ser fotografadas, eu particularmente não senti tristeza nas cremações, para os hindus toda morte é seguida de um renascimento em outro corpo, humano ou animal, sempre em evolução.

Na beira do Ganga também ocorre todos os dias às 18h a cerimônia Aarti Ganga, cerimônia do fogo de agradecimento, no gath principal, linda! Podendo ser assistida em terra ou do barco, muitos barqueiros vão te oferecer esta voltinha por 100 rúpias por pessoa (US$ 1,50), vale a pena!

Saindo da beira do Ganga, e desbravando as ruas de Varanasi, entre, explore, se perca, apesar de se deparar com muita pobreza, cruzam-se olhares, sorrisos e namastês com trabalhadores, vendedores, indianas em sáris, crianças em uniforme e muitas muitas vacas em ruelas estreitas. Caso se perca o suficiente e se encontre novamente, pare no Blue Lassi pra tomar um lassi (espécie de iogurte) batido com romã. Enquanto espera na mureta, corpos irão passar com destino ao crematório, não se assuste.

Seguindo para Bodhgaya, uma cidade budista, onde está localizada a árvore onde o Buda se iluminou (na verdade é apenas o local da árvore, pois a original não está mais lá e agora já é a terceira reposição da mesma), mas ao redor da árvore há um enorme templo budista maravilhoso para visitar, sentar e simplesmente meditar! Fiz isso os 3 dias que estive lá. Além da estátua Big Budha gigante de 25 metros em outra parte da cidade para conhecer. Esta cidade é diferente do resto que conheci, encontramos mais tibetanos, monges e japoneses pelas ruas, tem até menos indiano…na Índia! Tudo é mais silencioso, calmo, a palavra é ZEN. Bodhgaya é uma cidade ZEN. Muitas opções de restaurantes tibetanos, a melhor pedida de prato são os momos, hummmm. Apesar de mais distante, eu gostei muito de visitar uma cidade budista, diferente de todo o resto da Índia. Outra cidade budista que recomendam também é Dharamsala, residência do Dalai Lama,  mas (ainda) não visitei.

Cheguei em Rishikesh, ahhh Rishikesh, esta conquistou meu coração, mas eu já sabia que isso aconteceria desde antes de vir pra Índia, então deixei logo pro final, pra não correr o risco de ser minha primeira e eterna parada. Rishikesh é o conjunto de tudo que amo: natureza, yoga e espiritualidade, é uma cidade vegetariana e dry city (proibida a venda de álcool), lotada de cafés e restaurantes delícia na beira do Ganges, pra comer bem e se jogar nas almofadas do chão durante a tarde, praticar yoga de manhã, fazer trekking nas montanhas do Himalaia, visitar cachoeiras e cavernas, massagem ayurvédica, leitura de mão, workshop de dança, mapa astral, cursos de kundalini e tantra, entrar no Ganges (de roupa) pra se reenergizar, assistir a cerimonia de Aarti Ganga no pôr do sol…é assim: o paraíso!

E além de ter todas estas atividades para fazer, que você fica sabendo através de cartazes nos muros ou pelo boca a boca de quem sentou no café ao seu lado e bateu aquele papo filosófico, também se pode fazer absolutamente nada, apenas sentar na beira do rio, tomar um solzinho na cara e sentir a energia do lugar, ou dormir até tarde nos hotéis simples e baratos, num silêncio profundo que nem parece Índia.

Os cafés e restaurantes são tantos que fica difícil listar os melhores, mas como passei 15 dias em Laxman Juhla (bairro de rishikesh), vou citar os que mais frequentei e gostei: German Backery do ladinho da ponte pra comer bowl de frutas com granola no café, almoço barato e tradicional no Rawat (o famoso talhi, vulgo PF, sai por US$1), e os cafés Little Budha, Café Royal, Shambala, Beatles, TAT e Lotus para jantar ou pra aquele chai da tarde lendo um livro (uma refeição sai em torno de US$3 e um chai US$ 0,80).

Falando em livro, lá se encontram vários sebos e livrarias um pouco monotemáticas (mas que eu adoroooo) sobre misticismo, yoga, espiritualidade.

A cidade é lotada de ashrams e escolas de yoga, se encontram aulas a qualquer dia e horário, e ali se pode fazer os famosos TTCs (teacher training course de 200 a 500 horas para formação de professores de yoga com certificação internacional).

Os ashrams também oferecem satsangs diários com gurus (espécie de encontro com mestres espirituais que passam seus ensinamentos e respondem perguntas), eu vim pra cá especialmente nesta época do ano por ser a temporada do Prem Baba, um guru que sigo há alguns anos. E esta época ainda me proporcionou encontros e reencontros com brasileiros, especialmente com pessoas de Piracanga, pra matar a saudade.

Rishiskesh é de uma energia e sincronicidade única, é sentar num café e comentar algo com a pessoa do lado, que outra já vai escutar e trazer uma dica, outra vai te acompanhar até o próximo workshop, no workshop você vai conhecer alguém que terá algum ponto em comum e te levará em um ashram, neste ashram você vai se inscrever em algum curso, no curso vai surgir outra coisa, e assim os pontos vão se conectando e o despertar coletivo surgindo.

De Rishikesh saiu até tatuagem no braço direito, com elementos que me surgiram após entoar 5 horas de mantra “Om Namah Shivaya” em grupo na noite de Mahashivaratri, festival hindu que honra Shiva.

E assim foi meu último mês,  assim é a Índia, é pra sentir, e se entregar. Namastê!

7 comentários em “Ela é espiritualizada, ela”

  1. Nossa Ma! Viajei no seu texto! Amei essas palavras recheadas de alegrias e descobertas. Pronto! Me convenceu de que a Índia deve entrar pra minha lista. Te amo amiga!

    Curtir

  2. Que demais!!! Amei seus textos.. conseguimos nos sentir um pouquinho lá com vc.. obrigada por compartilhar alguns sentimentos!! 💙
    Ansiosa pelos posts do Base Camp e Butão!! 😊😊

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s