Vida alternativa, Vida em ashram

Vida em ashram

ashram

Acredito que muita gente que leu ou assistiu ‘Comer, Rezar, Amar’ já deve ter pensado em dar um tempo em um ashram. Ashrams são como mosteiros religiosos, tradicionalmente hindus, onde pessoas vivem afastadas da sociedade buscando evolução espiritual, muitos são liderados por gurus que neles vivem, outros são liderados por seus discípulos que sustentam sua filosofia. Passei um mês em um aqui na Índia e foi uma experiência maravilhosa! Descobri que dá pra viver, meses, talvez até anos em um!

Sempre gostei de retiros, a cada 6 meses me enfiava em algum pra passar feriado ou até 1 semana. Retiro de yoga, de silêncio, tantra, meditação, respiração… alguns eram em ashrams, outros em hotéis afastados, mas eu ia pra descompressar  da loucura de SP mesmo. Porém, viver um mês todo em um ashram é diferente, esquecemos do mundo lá fora.

Vida em ashram é bem simples, mas é no simples que damos valor a muita coisa, minha vida em SP era muito confortável, salário pingava todo mês, morava em um lugar legal, frequentava restaurantes, quando dava vontade de comer algo era só descer no Pão de Açúcar (quantas vezes fui de pijama e casacão) ou simplesmente pedir pelo Ifood.

Mas passando um mês no ashram, com súbitos desejos de um cafezinho ou chocolate, quem dera os dois juntos no Starbucks, dividindo quarto com desconhecidos, dormindo em colchonete, acordando antes do sol nascer, praticando a seva (limpando banheiro, descascando legumes, tirando o limo do pátio com uma escovinha), aí sim damos valor ao conforto que temos em nossas casas, mas ao mesmo tempo encontramos um conforto diferente no simples. Dá uma paz!

Para conhecer e se hospedar em um ashram, principalmente aqui na Índia, há várias formas, pode-se escolher retiros de 3 a 15 dias com algum objetivo como silêncio, yoga ou cura, pode-se simplesmente se hospedar e participar das atividades diárias de yoga e meditação, pode-se também voluntariar e viver nele  por meses até (realizando a seva ou trabalho voluntário), ou ainda se matricular em algum curso: yoga, meditação, ayurveda, reiki, etc.

Eu escolhi este último caminho, passei meu primeiro mês de Índia em um Ashram realizando o curso de 250 horas de Yoga Teacher Training (TTC), focado no Hatha Yoga, um curso em período integral por 4 semanas, muito comum aqui na Índia. Há milhares! E por isso o cuidado ao escolher um bom curso é fundamental. Eu fui através de indicações, mas é possível pesquisar na internet, buscar em grupos de facebook quem já realizou o curso  que você está pesquisando, entrar em contato, pedir opinião. Só neste site https://www.yogaalliance.org são quase 400 opções na Índia.

Se você estiver pesquisando com certeza vai se deparar com as opções em Rishikesh,  a capital do yoga no mundo, principalmente Hatha Yoga. Agora, se escolher estudar Ashtanga Yoga, há mais opções em Mysore, e se quiser estudar Ayurveda, busque Kerala.  Eu tinha nos meus planos estudar em Rishikesh, mas como sabia que eu passaria a temporada de satsangs do Prem Baba por lá, resolvi escolher outro ashram numa região mais central da Índia, mais afastado de qualquer cidade para fazer o curso, e foi uma ótima escolha, afastado de tudo, no meio das montanhas, não dava pra sair do ashram pra nada: nem um cafezinho, nem uma refeição em restaurante, nada. Eu sou do tipo da dedicação total e isolamento, funcionou melhor pra mim, mas pra quem não gosta desta sensação de não liberdade, melhor optar por algum em cidade, com permissão de saídas a noite pós curso.

Contando um pouquinho sobre o meu dia-a-dia, era assim, acordávamos todos os dias pouco antes das 6 da manhã com um sino tocando e nos reuníamos no salão para meditar juntos e entoar alguns mantras por meia hora, e na sequencia praticávamos 1 hora e meia de yoga: asanas (que são as posturas) e pranayamas (exercícios de respiração). Isso tudo em jejum, e às 8 horas estávamos liberados para…o karma yoga! sim, ainda em jejum tínhamos 1 hora de dedicação ao chamado karma yoga, disciplina da ação, ou seva, que era nossa dedicação de trabalho ao ashram, nos revezávamos entre limpeza dos salões, do pátio, da biblioteca, jardinagem, cozinha pra ajudar no preparo do café ou almoço.

Íamos tomar café apenas às 9h da manhã, no começo era muito difícil ficar estas 3 horas acordada sem comer, mas sempre soube que as práticas são melhores em jejum e depois o corpo acaba acostumando. Mas no café, óbvio, eu comia um monte! A gente se servia à vontade de frutas, mingau, arroz com vegetais (sim, bem asiático) e chá. O horário do café era longo e ainda dava pra tomar banho e limpar nosso quarto e banheiro, que eu dividia com 2 inglesas fofíssimas. Acho que eu não desencardia um banheiro como este do ashram desde a época de república na faculdade! Mais aprendizados.

Das 10:30 às 12:30 tínhamos aulas teóricas sobre anatomia, filosofia e história do yoga, ayurveda, benefícios do yoga, entre outros temas com professores todos indianos dando o curso em inglês, mas naquele sotaque que exige um esforço extra.

Depois tínhamos o almoço, onde também podíamos nos servir à vontade, vegetariano, obviamente, com muitos vegetais, arroz, lentilha, e sempre acompanhado do famoso chapati (feito na chapa com farinha e água). Sim,  consegui engordar no ashram de tanto chapati que comi. Mesmo levando alguns chapatis pra vaquinhas depois do almoço, eu ainda comia vários…#mejulguem

Às 2 da tarde, voltávamos pro salão pra praticar o yoga nidra, que é um relaxamento completo de corpo e mente por 40 minutos (melhor momento), os alunos mesmo se revezavam pra cada dia um liderar a prática. E das 3 as 4:30 da tarde tínhamos mais aulas teóricas e das 4:30 às 6 tínhamos mais 1 hora e meia de práticas. Sim, eram 6 horas por dia de práticas de postura e respiração, mas mesmo assim eu engordei de tanto que comi aquela comida delícia.

Às 6 da tarde nos juntávamos com o pessoal de outros cursos e voluntários do ashram para entoar 108 vezes um mantra, em uma cerimônia do fogo muito linda, todos os dias, e seguíamos pro jantar. Todas as refeições eram (ou deveriam ser feitas) em silêncio, e ao longo das semanas tínhamos também um dia de silêncio por semana que era ótimo pra concentração.

E todas as noites, entre 8 e 10 da noite (horário que todas as luzes eram apagadas) ficávamos livres pra usar o wifi, meditar, ler, ir na lojinha comprar um doce vegano delícia, e muitas vezes tinha sessão de contos hindus ou dança.

O curso foi nesta intensidade durante 4 semanas, com folgas apenas às sextas,  quando estávamos livres pra visitar templos ao redor, fazer trilha nas montanhas, ir conhecer a cidade mais próxima, e no meu caso…kkk…arrumei com umas amigas um resort lá perto onde usávamos a piscina pagando o equivalente a 10 reais toda sexta. #luxo. Mas mesmo almoçando no resort às sextas, mantínhamos a dieta vegetariana. Só confesso que uma sexta escapei e tomei um café…com sorvete….#vidaloka

Uma coisa que gostei muito no meu curso, além da turma ser de apenas 18 alunos, foi que desde a segunda semana do curso, começamos a nos revezar para liderar pequenas práticas como professores, por 10 minutos todos os dias, em grupos menores, íamos treinando liderar o mantra, o pranayama (respiração) ou a prática de posturas de yoga, até no final do curso conduzirmos 2 aulas inteiras de 1 hora, como parte do exame final. Obviamente 1 mês de curso não é suficiente para virarmos professores de yoga, mas saí de lá confiante em compartilhar yoga, e logo na semana seguinte conduzi algumas práticas em um hostel no Sri Lanka, ensinando o que eu havia aprendido e aprendendo mais ainda com outros hóspedes.

Pra quem gosta de yoga, e tiver tempo, como um mês todo de férias ou um período maior livre, eu super recomendo este curso de yoga na Índia. Não precisa fazer para tornar-se professor depois, faça pra se aprofundar em suas práticas diárias, é maravilhoso!

 

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