Reflexões

o nepal surgiu por algum motivo aqui

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O Nepal passou pela vida ainda preciso descobrir o porquê, deve ser pra testar minha paciência, rever minha comunicação, pra eu engolir meu choro, pra eu deixar de ser esquentada ou pra valorizar as diferenças culturais, afinal o que seria do mundo se todos fossemos iguais?

Antes mesmo de vir pra cá, eu estava em contato por WhatsApp com um dono de uma agência, recomendado por uma amiga, fechando o Everest Basecamp Trekking, e tudo que ele dizia no WhatsApp era “Don’t worry”, eu perguntava o que estava incluso no pacote do Everest, “Don’t worry”, perguntava o endereço do hotel que ele me hospedaria, “Don’t worry”, até um dia antes de eu embarcar, e confirmar se ele me buscaria no aeroporto, “Don’t worry”…velho, você nem perguntou que horas é meu vôo, vai me buscar como?

Não diga pra uma escorpiana “Don’t worry” ou “Calma”, I worry! Gosto da comunicação mais clara, mesmo que a Ásia esteja me transformando…

Enfim, não estava segura com ele, cancelei tudo, reservei um hostel pras primeiras 4 noites e resolvi que fecharia o Everest quando estivesse em Katmandu, mas outra amiga me recomendou outro dono de agência e o cara me respondeu lindamente em um inglês perfeito, com informações completas de Everest, Butão, e ainda fotos do hostel que ele acabou de inaugurar, gostei do cara e fui conhecê-lo no primeiro dia, no meio a outras agências que passei pedindo informações. Sim, ele é muito gente boa, fechei o trekking de 12 dias do Everest com ele, a viagem de 3 dias pro Butão e ele ainda me deu 3 noites no hostel.

O único problema, como todo bom nepalês ou indiano que se preze, é que a cada 10 palavras que ele troca comigo, 4 são “me recomenda no tripadvisor?” Porque aqui é assim, você compra uma água numa barraca de rua, “me recomenda no tripadvisor?”, já nem ligo mais, sorrio e digo “sure!!”. Com esse cara é igual. Deu ruim com o guia que ele me arrumou pro Everest, já conto o porquê, mesmo assim voltei, expliquei pra ele todo o sufoco, ele me ouviu mais ou menos, pois estava escrevendo no celular, mas ao final “I’m so sorry, but …me recomenda no tripadvisor?”…velho,  o guia que você me arrumou deu ruim, vou te recomendar como? Me ajuda a te ajudar! Mas a viagem ao Butão foi um arraso, guia e motorista excelentes, ótimas pousadas, este sim recomendarei no tripadvisor!

Este cara também quer ser simpático o tempo todo, e aí fica pior que brasileiro quando diz “vamos marcar!”, todo dia ele manda mensagem dizendo “Te convido pra jantar hoje a noite, te mostro a cidade”, como bom anfitrião, mas chega a noite e ele manda mensagem que está enrolado com cliente, se podemos remarcar…meu bem, eu já me arrumei no meu restaurante favorito, passo todas as noites lá com os gringos todos, relaxa! Um dia deu certo de irmos jantar, levei uma amiga, marcamos de ir na agência dele antes, e quando estávamos pra sair pro restaurante, chegaram clientes pedindo informações de passeios, ele chamou uns empregados, falou em nepalês, e de repente os caras trouxeram a cerveja e dois pratos de momos, ele entregou pra mim e minha amiga, e lá jantamos, na mesa da agência, enquanto ele atendia os clientes na nossa frente..…ai gente, é o tipo de coisa que é o tal negócio… só rindo mesmo! Isso não é um jantar agradável!! Enfim, agradecemos, comemos e vazamos.

Episódio 3: o guia do Everest. De cara quando desci no aeroporto de Lukla achei ele bem novato, falava pra dentro e não tinha bom inglês, porém, seríamos apenas eu e ele pelos 12 dias de trilha, achei melhor não reclamar. Logo fui fazendo amigos pela trilha, na parada do almoço, na parada do jantar, até paquera surgiu no começo da trilha e durou os 12 dias (sim, dei uns pegas no Everest porque sou dessas), achei bom ter feito estes amigos porque eles estavam fazendo o mesmo roteiro nos mesmos dias que eu, assim eu tinha gente pra conversar e me divertir, já que meu guia era quietão. Ele também não tinha mapa, não mostrava o itinerário, e quando fui ficando resfriada e com sinusite vi que nem tinha a caixinha de remédios que deveria ter…não era um guia muito profissional e  fui pegando bode do nível de serviço. Até que, na volta do Everest  no 10o dia de trilha, cruzei com o paquera que reforçou o  combinado do primeiro dia: se tudo desse certo pros dois, nos encontraríamos no pub de Namche Bazar no dia 10 a tarde. Mas neste dia 10 algo aconteceu com meu guia que surtou,  sem eu ver ele entrou no café que o paquera estava com o grupo, enfiou o dedo na cara dele e falou “Não chame a Marina pro pub, não fale com ela, se afaste dela”…. Mais tarde no pub o paquera me contou o episódio e o grupo todo dele estava assustado com a agressividade do meu guia. Não entendi nada,  talvez ele estivesse tentando evitar que eu bebesse já que eu estava doente… mas gente….tenho 34 anos, pelo amor…sou responsável por mim, ele nunca deveria ter falado assim com um amigo meu ou com qualquer pessoa, ultrapassou todos os limites. Assustei! Neste dia 10 falei com o dono da agência e chequei se eu poderia dispensar o guia antes e me hospedar onde eu quisesse na próxima noite, que já estaríamos na última cidade antes do avião. Como o dono da agência  confirmou que tudo bem, fui tranquila no último dia de trilha sem tocar no assunto. Mas sei lá o que se passa com este povo, quando  dispensei o guia e disse que procuraria hotel por mim, o cara surtou, começou a me seguir, falava em nepalês com cada dono de pousada que eu entrava e todos me recusavam um quarto depois que ele falava algo que nunca vou saber o que é…até que me senti acuada e aceitei ir pra reserva dele, fiz um teatro pra dispensá-lo, pois comecei a achar a situação perigosa, e ele foi embora, gritando que o “Nepal não precisava de turistas como eu”…oi??  a comunicação neste país já me dá um certo bode, aí ainda vem um cara destes surtado cruzar o meu caminho!

Episódio 4: após alguns dias em Katmandu, 12 dias de trekking ao Everest Basecamp e 3 dias de Butão, deixei minha última semana de Nepal dedicada a um voluntariado que me candidatei pelo Worldpackers. O conceito do Worldpackers é de curtir uma viajem e trabalhar algumas horas por dia em troca de hospedagem e às vezes também alimentação, tornando a viagem mais barata. Eu já tinha usado em uma hostel no Sri Lanka e tinha dado super certo! Aqui eu queria continuar curtindo Katmandu, então vi que se trabalhasse aquelas 5 horas por dia no orfanato que me candidatei, teria quarto, café, almoço e jantar de graça, ainda teria tempo a tarde pra curtir e faria uma coisa legal, que é ajudar crianças pelas manhãs. Mas….o voluntariado deu ruim! Primeiro que não era em Katmandu como dizia o site, era longe ‘paporra’, no meio do nada na periferia, onde nem um restaurante por perto eu achei, caso desse ruim alguma das refeições inclusas, e deu, logo de cara o responsável do orfanato disse que ia ver se eu poderia almoçar na escola onde as crianças estudavam…dia 1 fiquei sem almoço, dia 2 ele pediu pra eu negociar meu almoço na escola…vai vendo! Já o café e o jantar eram no orfanato com as crianças, mas pobres crianças, era arroz com lentilha nas duas refeições, preparados por uma cozinheira que servia o arroz pegando com a mão e a água de tomar era direto da torneira, …logo pensei “será que após 7 meses de Ásia finalmente aqui terei minha primeira diarréia?”

A dinâmica do orfanato era assim: 10 crianças que acordam 6 da manhã, fazem lição até às 9h, vão pra escola, ficam até às 16h na escola e voltam pra fazer lição no orfanato das 4 às 7 da tarde, quando jantam e se preparam pra dormir. Eu fiquei hospedada no quarto de uma família perto, entre a escola e o orfanato. E o responsável pelo orfanato pediu pra eu ajudar nas lições da manhã, nas da tarde e ainda dar aula de inglês na escola…até aí pensei, isto daria 13 horas de trabalho por dia, ao invés de 5, né? Se bem que longe de tudo eu ia querer tempo livre pra que?

Mas o que mais me incomodou, logo no primeiro dia, é ele me pediu uma ajuda financeira, que não estava combinado…falou uma vez, duas, três e só quando eu concordei que doaria 50 dólares pro projeto, ele sossegou. E sossegou mesmo! Virou as costas, disse que tinha que sair e me largou lá, meio que sem entender por onde eu começaria, não me apresentou pras crianças, disse que eu tinha que voltar na escola e negociar com o diretor minhas aulas de inglês lá. Uma confusão!

No primeiro dia a tarde eu já estava sem almoço, ajudei as crianças nas lições, jantei com elas e fui pro meu quarto na outra casa dormir. Dia seguinte eu estava lá às 6 da manhã, onde comecei o dia delas com práticas de yoga, elas eram fofas, por elas eu teria continuado…mas fui pra escola, onde o diretor me deixou mais de uma hora numa sala esperando, e ele entrava e saía repetindo “você quer dar aula de inglês né? Vou tentar arrumar uns alunos pra você”…eu só pensava “me candidatei pra uma vaga para dar aulas de inglês, como assim esse cara não estava me esperando e parecia agora estar fazendo um favor de me arrumar uns alunos?”, tentei explicar pra ele, mas ele não entendia bem inglês. Não consegui mais falar com o responsável do orfanato, fiquei sem almoço de novo na escola (pensa numa pessoa que fica mal humorada sem comer), voltei pro quarto que eu tinha e eu deveria voltar às 16h pra buscar as crianças e ajudar nas tarefas no orfanato.

Mas pensei, pensei, estava extremamente incomodada com a situação, me candidatei a dar aula de inglês e não existia este trabalho, as refeições não estavam mesmo inclusas e o cara ainda me arrancou uma grana e sumiu…o bom de estar em sabático é que somos completamente livres, diferente de estar num trabalho e ter que encarar aquela reunião chata…aqui, sinto que “não sou obrigada!”, se tá ruim, vaza, ainda mais se fogem do combinado. Arrumei meu mochilão, andei andei andei até achar um ônibus que viesse pro centro da cidade, e fui embora. Mandei mensagem pro cara explicando tudo que ele estava fugindo da proposta do Worldpackers, mas pela resposta dele, horas depois, parece que ele estava mais preocupado com minha doação mesmo. Uma pena.

Aí no meio de tanta confusão de comunicação eu me pergunto, sou eu? Dou azar? Crio expectativa? Ou o Nepal é uma cilada mesmo, Bino? Eu não sei, achei que estava mais que batizada após 3 meses de Índia, mas por aqui, tudo se superou, Nepal veio pra testar minha paciência, me fazer pensar se o que eu considero correto é correto pro outro também, pensar na ética e nas malandragens…E dá-lhe Ásia!

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