Reflexões

Sobre viajar sozinha e fazer amigos

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Uma amiga me perguntou esses dias como é viajar sozinha e estar sempre acompanhada, como são estas novas amizades, onde vivem, como dormem, do que se alimentam … pois bem, estou numa escala de 5 horas durante a madrugada no aeroporto em Kuala Lumpur (aeroporto este que visitei mais que visitei minha avó na vida inteira) e como estou voltando da Indonésia que fui sozinha e fiz quase 40 amigos, resolvi fazer uma retrospectiva dos meus momentos sozinha de Ásia e refletir sobre isso.

Primeiro, temos que respeitar nossa natureza, não dá pra forçar nada, eu principalmente respeito meu ciclo menstrual e percebo direitinho minhas fases mais introspectiva, mais extrovertida, mais fogo no rabo (essa é longa hahahah), mais criativa.  Depois que aprendi a me observar e respeitar minhas fases, não me forço a nada. Então não tem muita regra, mas tem diferentes momentos, posso estar num hostel bombando e estarei no canto lendo meu livro de boa, como também posso estar hospedada sozinha em um quarto de hotel, mas me conectar na rua até com uma capivara e organizar um jantar onde junto todo mundo que conheci naquela semana dos mais diferentes lugares. No Kuala Lumpur, por exemplo, eu estava numa fase quietinha e tava vindo das Filipinas que foi muito relacional, então meus 3 dias de Kuala Lumpur resolvi explorar a cidade sozinha, quietinha, ignorei todo mundo no hostel.

Em segundo lugar, sou tímida. Verdade. Eu me solto muito depois que já conheci a pessoa, mas num geral, primeiro contato, sozinha, sou bem quietinha. Mas nesta viagem estou com muita vontade de conhecer gente, curiosidade, quero viver muitos momentos com as pessoas ao redor que estão vivendo o mesmo momento, então adotei o meme que mais gosto “o não eu já tenho, agora vou atrás da humilhação” hahahaha, portanto puxo papo, sem vergonha! Muita gente não me dá moral, principalmente gente bem novinha, os de 20…devem pensar “quem é essa tia?”, sim gente, porque tenho 34, e fiz o favor de raspar a cabeça antes de vir, então meu cabelo está crescendo como o de uma senhora, às vezes pareço até mais velha do que eu sou sim.  Mas a maior parte das vezes as pessoas estão bem abertas e a conversa flui. Num lobby de hotel nas Filipinas puxei papo com duas inglesas de 19 anos, e dia seguinte tive a melhor balada com elas, jesus, não sei nem como sobrevivi a tantos shots, porque se tem um povo que sabe beber, são os britânicos. Já  os australianos eu evito contato por não entender o sotaque, kkkk, mas no meu aniversário eu estava sozinha num hostel na praia no Sri Lanka e chegaram 5 australianos de 22 anos, cheguei na mesa deles e logo lancei “oi, tô fazendo 34 anos hoje e estou sozinha, posso sentar com vcs?”, basta sorrir, minha gente, eles me incluiram no drinking game deles que até hoje não entendi as regras, mas só eu bebia toda rodada e acabamos na balada. E também tiveram muitas vezes que puxei papo e a pessoa me respondeu seca, não perguntou nada em retorno, me mediu de cima a baixo e ok também, vida que segue, tentemos o próximo, é só não desistir na primeira batalha.

Terceiro: acredito que tudo ao nosso redor é movido pela energia. O que emanamos, atraímos, então se estou bem, feliz, acordo todo dia e agradeço a oportunidade de eu estar vivendo este sabático e esta viagem, acabo atraindo pessoas do bem também! Sabe o termo “o santo não bateu”? Acontece. Às vezes cruzamos pessoas que simplesmente não queremos estar junto, pessoas reclamonas, negativas, essas aí já percebo logo e caio fora, prefiro sempre estar sozinha do que mal acompanhada, principalmente pra viver e visitar estes lugares tão únicos e especiais! E esse negócio de energia é engraçado (pra quem acredita), lembro que há 7 meses eu estava em Auroville, no sul da Índia, sentada em um café tentando colocar este site no ar há horas, mas sofreniiii porque não manjo nada, aí surgiu um suíço, que tinha sentado do meu lado no ônibus numa visita a agrofloresta, ele me viu no café, pediu pra sentar comigo e em 5 minutos meu site estava no ar, ele trabalhava justamente como designer gráfico. A gente atrai o que deseja!

Agora vamos às táticas que adotei aqui nesta viagem, anotem, xuxus:

1) quando chego numa cidade e desembarco, na esteira à espera da mala no aeroporto, ou no trajeto no busão ou no trem já observo cada ser humano ao redor. Quando vejo um mochileiro ocidental mais aberto, sorrindo, observando ao redor, já vou perguntar se está indo pro mesmo lugar que eu, se tem hostel reservado,  se topa dividir o táxi ou se vai enfrentar busão pra irmos juntos e etc. Às vezes já arrumo o próximo companheiro de viagem neste momento, foi assim com um alemão no Sri Lanka, aliás a primeira aula de yoga que dei na vida foi pra ele na praia, no dia seguinte que puxei papo em um trem e dividimos o tuk tuk até os nossos hostels.

2) Aí chego no hostel, às vezes com a pessoa que já me arranjei no meio de transporte, às vezes sozinha, me hospedo em quartos compartilhados de 6 a 8 camas, começo a me instalar e qualquer pessoa que esteja no quarto já me apresento “hello, i’m marina from brazil”. E aqui é Brasil, né? Quem não gosta? Temos esta vantagem competitiva, é falar que é do Brasil, povo já abre o sorrisão, ou a pessoa já foi para o “Rio de janeiRo” (leia isso com sotaque de gringo nos R’s) ou sonha em ir. Daí o assunto já entra no embalo. Foi assim que conheci uma americana no hostel de Bali que ama churrasco, depois de 5 minutos de conversa já fechamos um driver pra ir numa cachoeira, nos juntamos com mais uma inglesa do quarto e saímos pra jantar.

3) Ainda no hostel, tento participar de algumas atividades, os tours que eles organizam, walking tour pela cidade, noite de cinema, happy hour, foi no happy hour do hostel em Gili T na Indonésia, lotado de latinos, que fiz uma turma de amigos, e minha estadia que deveria durar 3 dias, viraram 10 hablando espanhol todo o tempo. No Myanmar, fiz um tour e conheci umas meninas muito incríveis, dia seguinte já fechamos um trekking de 3 dias juntas, e na próxima cidade passamos mais 3 dias de turma, andando de bike, almoçando e jantando juntas. Às vezes dá liga!

4) Agora, se estou numa cidade que não consegui hostel e fui pra um quarto privado, tenho a tática das atrações turísticas, aqui  o foco é outro: mirar pessoas sozinhas ou duplas de amigas/amigos tirando selfies. O truque é se oferecer pra tirar foto deles, depois pedir que tirem sua, fazer uma yoga pose na foto que o povo dá risada e quer imitar depois e emendar a conversa. Eu evito casais neste momento pois eles são mais fechados hahahahah (mas há exceções!!! Conheci um casal mara holandês num trem no Sri Lanka e saímos pra almoçar na espera do segundo trem e conheci outro casal  mara da África do Sul numa mesa de bar na indonésia que fomos pra balada dia seguinte)

5) Se isto é um tabu pra você, é necessário quebrá-lo: ir pra restaurantes, bares e baladas sozinha! Chego, foco em sentar perto de quem tá sozinho também, puxo assunto, às vezes só perguntando o que a pessoa visitou aquele dia ou o que recomenda já gera assunto. Um dia no Sri Lanka eu queria muito ir pra balada e ninguém do hostel animou, fui sozinha mesmo, e dançando sozinha conheci uns espanhóis mara que acabei passando 3 dias juntos (and paquera.). Ah! Na praia também já conheci muita gente estando sozinha, olhando pros lados sorrindo, os gregos nas Filipinas conheci assim (and paquera). Sorrir é importante! Foi sorrindo na trilha do Everest que eu estava fazendo sozinha com um guia, que uns americanos vieram puxar papo, e acabaram virando minha turma pelos 12 dias de trilha (and paquera também, por que né?). Ok, vou parar de falar de paquera e focar nos amigos.

6) Este instagram mara que deus nos deu, usem! nunca imaginei que eu fosse ter tanto amigo virtual da sala de bate papo da uol. Sério, cada um que me manda direct no insta eu respondo, alguns estão na mesma cidade, ou vamos nos cruzar nos próximo destino, aí marcamos de nos encontrar. Ou algum amigo que apresenta outro pelo insta, bato um papo e encontro. Facebook também, na Índia eu entrei no grupo mochileiros do face e achei 2 brasileiros fazendo o mesmo itinerário que eu pelo Rajastão, me juntei a eles por 10 dias, olha, a viagem não teria sido a mesma sem eles! O povo também usa o site do couchsurf pra hangout, tem a opção de hospedagem gratuita no couchsurf, mas também tem esta opção de apenas se conectar com quem está na mesma cidade e marcar um café ou um tour, eu nunca usei, mas sei que existe.

7) Esta tática mais velha, mas pra mim tem apenas 1 semana porque nunca tinha usado antes: usar o tinder em viagem é mara! Muita gente usa em viagem com um intuito diferente, já coloca no profile “estou em bali até o dia 10, se estiver afim de uma praia junto, um almoço, uma cerveja, marcamos”, mais de boa sem tanto apelo sexual. Montei meu perfil e usei por um fim de semana em uma praia que eu estava sozinha em Bali, funcionou, já mandei de cara “estou sozinha, queria ir na balada domingo”e o brasileiro mara já mandou “vem com a minha turma do hostel” e ainda nos encontramos na praia, rolou date, e ainda brasileiro que eu tava com tantas saudades, mara!

8) Esta é importante: nunca deixar passar batido um brasileiro, nunca. Sabe quando você escuta  português lá do outro lado da calçada, corre lá e grita “ae brasil!”. Melhores pessoas!  Principalmente pra mim que estou há muito tempo longe de casa, amo conhecer brasileiros aqui. Não são todos que são abertos, principalmente os  que estão em férias curtas, estes estão mesmo é fugindo dos brasileiros, é batata: te dão um sorriso amarelo e não retribuem uma pergunta que vc fizer…mas se for outro viajante de longa data como você, ou alguém que está morando naquela cidade, é fervo certo, em 5 min já trocamos whatsapp, face, instagram, já temos selfie e descobrimos um amigo em comum no brasil que já mandamos aquele áudio “amigaaaaa você não acreditaaaa quem tá do meu lado”. Foi assim no Everest, sentei pra ver um filme numa das paradas de descanso da trilha e escutei dois brasileiros, ficamos amigos, e um foi meu companheiro de alguns jantares em Katmandu depois, e o outro almocei junto em Singapura um mês depois. Já em Auroville, no sul da índia, escutei uma brasileira na rua, ficamos amigas e ela me me colocou em contato com um grupo de brasileiros morando na Índia, que só por ganesha, nunca me senti tão em casa com eles, até balada funk rola quando estou em Delhi.

9) Agora, sobre a máxima “bora beber que eu nunca fiz amigo comendo salada” aqui, não é verdade. Sim, é mais fácil fazer amigo bebendo no hostel ou no bar, mas quando comecei este sabático me propus a reduzir muito o consumo de álcool, pra ajudar na minha evolução no yoga e na meditação, mas também porque beber encarece qualquer viagem, então me propus a beber 1 vez ao mês, e em países muito festeiros acabo bebendo só aos sábados ou domingos. Mas aprendi a estar na festa, no bar, no pub, bebendo uma água de coco, um suco, um café, e me relacionar com as pessoas da mesma forma, sem gastar tanto e sem ressaca dia seguinte. Comecei a fazer isso antes mesmo de viajar, meus últimos meses em São Paulo continuei frequentando as mesmas festas (e muitas gratuitas) bebendo apenas água, e fui feliz.  E sim, na Índia fiz amigos comenda salada, compartilhando mesa de restaurante vegetariano. Rishikesh na Índia veio pra me provar isso, é uma dry city (proibido o consumo de álcool) e onde eu conheci mais gente, nos restaurantes, nas aulas de yoga, na fila pros satsangs do Prem Baba, num curso que fiz, na dança circular e até na beira do rio. Tá vendo, sabático tá aí quebrando paradigmas!

Fato é, nestes 9 meses de Ásia fiz amigos apenas quando eu estava sozinha, todas às vezes que me encontrei com alguém que veio do Brasil pra fazer uma parte da viagem junto, foi mais difícil conhecer novas pessoas. E pra mim, a beleza desta viagem não está só em conhecer lugares, mas em conhecer as pessoas, as diferentes culturas, religiões, histórias de vida e pontos de vista. Foi num jantar com a israelense em Canggu e em outro jantar com a americana em Colombo que me vi no outro, que percebi não ser a única a largar a carreira corporativa e explorar o mundo, não sou a única a buscar meu propósito e uma nova carreira … nestas conversar empáticas crescemos ainda mais. E pode até ser que eu nunca mais veja estas pessoas na vida, mas elas fizeram diferença naquele momento. Outras, com certeza ainda verei, aqui mesmo fui reencontrando muita gente de país em país, e este mês saio da Ásia com uma listinha de gente pra visitar na Europa. eba!!!

Estas conexões não são lindas?

7 comentários em “Sobre viajar sozinha e fazer amigos”

  1. Oi bom dia, se você for vir para Europa especialmente para Londres, quero conhecê-la meu sonho é tirar um ano para fazer o que vc fez.

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  2. Miga, muito bem! Se abrir para a experiência de conectar com novas pessoas é muito nobre e maravilhoso. E toda pessoa que passa por nós deixa um pouquinho delas conosco. Saudades!!!!!

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  3. Ola Marina,
    Gostei muito deste post como todos os outros. Posso sugerir um post (pergunta) * estou sem ponto de interrogação Acredito que a comida, o jeito de fazer, como as pessoas comem diz muito sobre um povo, uma cultura. Neste meses todos como foi sua experiencia com a comida (pergunta). Percebi que teve uma preocupação com lugares limpos e com custo acessível. Mas e ai, pode compartilhar algo conosco (pergunta). grande abraço. Aki o churras é garantido!

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    1. oi alves!!! desculpa a demora que esqueci de ver os comentários aqui do blog ultimamente!!! outro amigo também me sugeriu escrever sobre comida, bom assunto! vou escrever sim! obrigada pela dica e por me acompanhar também por aqui!

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  4. muito massa essas dicas… estava com dúvidas em relação a conexão com as pessoas e como lidar com a solidão em não ter os amigos do dia a dia depois de alguns meses viajando

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