Caminho de Santiago de Compostela

O Caminho Francês pra Santiago

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El Camino ❤️ , acho que o mês mais feliz deste sabático! Ante de tudo, explicando aos que não sabem, existem vários caminhos de peregrinação que levam a Santiago de Compostela  na Espanha (uns 10 diferentes). Alguns saem de outros países e continuam na Espanha e qualquer pessoa pode escolher qualquer um dos caminhos e qualquer ponto de saída. Eles podem ser feitos a pé, de bicicleta ou a cavalo e é preciso fazer a Credencial do Peregrino antes de sair, para poder se hospedar nos albergues de peregrino e ir recebendo os carimbos a cada parada até chegar ao carimbo de Santiago de Compostela na chegada!

Além da credencial, outra tradição importante é a concha que identifica o peregrino, todos tem esta concha amarrada em suas mochilas e o caminho é todo sinalizado por conchas e setas amarelas (nos postes, placas, árvores, chão). É como buscar ovos de páscoa, tem que andar atento buscando as conchas!

Para esta minha primeira vez (sim, creio que haverão muitas) escolhi o Caminho Francês que é o mais popular/comercial de todos. Mas como eu tava com preguiça e já subi o basecamp do Everest este ano (you go girl!!), resolvi não começar como todo mundo de Saint Jean de Pied de Port  (subindo os Pirineus)  e fui pelo caminho francês alternativo que já sai do alto dos Pirineus na cidade de Somport na França, descobri depois que este Caminho “alternativo” Francês se chama Caminho Aragonês pois atravessa o estado do Aragão, de Somport até Puente la Reina, completando 165 km. Pra chegar em Somport peguei um trem de Madrid a Zaragoza e outro trem até Jaca, dormi em Jaca em um albergue de peregrinos, deixei minha mochila e peguei um ônibus para Somport dia seguinte, onde desci caminhando meus primeiros 33km (mas sem a mochila) até Jaca. Quem não aguenta tantos km em um dia também pode dormir no meio do caminho, em Canfranc.

Não vou detalhar o caminho e as paradas, porque a dica MARA que eu dou é usar este site aqui que sinaliza tudo de cada caminho da Espanha: http://caminodesantiago.consumer.es. Nesta primeira etapa do Caminho, eu não usei aplicativo, não usei mapa, não usei 3G no caminho, apenas dava print da próxima etapa neste site antes de sair do wifi de manhã e se precisava de uma ajuda olhava os prints, mas tentei fazer o caminho sem muita tecnologia, apenas seguindo as setas e conchas amarelas.

A ideia de sair de Somport ao invés de Saint Jean foi ao mesmo tempo boa e ruim,  é desta experiência que quero contar aqui no post, esta rota alternativa (Caminho Aragonês) completa 165km em 6 dias de Somport até Puente la Reina, onde se une com o Caminho Francês e vira um único caminho. Mas como esta rota alternativa não é tão conhecida, eu senti que ela tem sido abandonada ao longo dos anos…muitos postes com a sinalização das setas amarelas caíram e fiquei indecisa sobre a rota, também não achei que tinham setas o suficiente, cheguei a andar 1 km sem ver seta, mas mesmo assim não cheguei a me perder, intuição nos guia também! Mas o pior (pra quem não gosta de perrengue) foi que as cidades pequenas no meio de cada etapa estão vazias, alguns albergues e bares nelas foram fechados (mesmo setembro ainda ser temporada), então às vezes não havia alternativa de encurtar uma etapa dormindo no meio do caminho ou realizar uma parada para comer algo. Cheguei a andar 20km sem nenhuma opção de comida, então tem que se organizar e carregar lanche mesmo! E por dois dias nem fontes de água achei, cheguei a ficar com sede depois que meu litro de água acabou (e acho difícil levar mais de um litro pelo peso da mochila).

A parte boa do caminho é que por ele ser tão menos frequentado, você caminha sozinho, livre, na natureza, vendo paisagens incríveis! Eu amei! cheguei a andar 6 horas sem cruzar ninguém, mas isso é pra quem curte esta solidão né? Eu prefiro do que fazer trilha com gente. E também, por ser menos frequentado, uma média de 15 pessoas passam por ele todos os dias, e só há um albergue por parada, então todas as noites acabei encontrando e dormindo com as mesmas 13 pessoas e criamos vínculo (nenhum abaixo dos 55 anos, tá?), mas todos uns fofos, e eu fui a tradutora oficial entre os franceses, os espanhóis, o alemão, o inglês e a belga (muito amô por eles!).

Apesar deste caminho alternativo não subir os pirineus, é um caminho pesado sim, pelas longas distâncias de cada etapa (25 a 33 km por dia), algumas subidas e descidas, com poucas paradas para uma bebida fria ou algo de comer. Também não há farmácias ou médicos (apenas no dia 1 em Jaca e no dia 4 em Sangüesa) e muito menos supermercado para preparar seu lanche do dia seguinte, levar frutas e até cozinhar no hostel, apenas em Jaca e Sangüesa isso é possível. As pernoites em Arrés, Ruesta e Monreal são literalmente no meio do nada, onde o próprio albergue tem um bar que vai te preparar jantar, café da manhã e o “bocadillo” pra trilha do dia seguinte, mas pra minha fome não era suficiente, e pro meu bolso saía caro, se comparado com a possibilidade de um supermercado, mas tudo bem, as paisagens e a trilha sem ninguém compensaram este perrengue.

Quando cheguei em Obanos, pouco antes da pernoite em Puente la Reina e cruzei com o pessoal vindo do outro caminho, o Caminho Tradicional Francês, notei a diferença entre os dois caminhos! De cara em Obanos vi duas fontes de água, parei pra abastecer a garrafa e começou a passar gente, gente, gente…grupos, duplas, casais, não dava 3 minutos sem passar alguém, não tem nem comparação com o caminho que eu vinha. Logo puxei papo com duas meninas da minha idade (eram 6 dias sem ver ninguém abaixo dos 50 kkk), duas espanholas de Barcelona, fomos andando e conversando, e após 2 minutos da última seta amarela uma delas se desesperou em não ver outra seta, mas estávamos em uma rua reta, eu não entendi o desespero hahaha,  eu estava acostumada a andar até 1 km sem ver seta! Me espantei com a diferença! E fui reparando como é muito sinalizado este caminho! E a cada km há um bar ou quiosque ou vending machine (no meio do nada!), as pessoas  param, pedem sanduíche, suco, café, cerveja, eu estava acostumada a passar minhas 6 a 8 horas diárias de caminhadas com meus lanches na mochila e racionando minha água pra não faltar! E a partir deste caminho, todas as cidades que passamos tinham vários albergues ou pousadas, então pra alguém que queira fazer trechos curtos de 10 a 15km por dia, é super possível.

Gostei muito de ter começado pelo Caminho Aragonês e depois ter juntado com o Francês, assim posso viver as duas coisas, e as pessoas que conheci nos 6 primeiros dias desde Somport: maravilhosas! Um senhor francês que perdeu uma perna em um acidente de moto há 18 anos e hoje faz o caminho com prótese e muleta, ele vai de carro até a cidade da próxima pernoite, daí volta andando 5km pra esperar a esposa em uma sombrinha e  segue de novo estes 5km com ela, completando apenas 10km por dia, que é o que ele aguenta. Uma belga de 71 anos que está fazendo 1000 km de Caminho desta vez, mas há 10 anos ela fez 2700km desde a Bélgica até Santiago. E um espanhol nos seus 60 e muitos que teve um problema no coração este ano e colocou um marcapasso, está fazendo o caminho devagar, com uma bengala e acompanhado dos seus dois filhos. E também conheci o Pepe, que em 2014 se deu conta que seu tempo não valia trabalho ou salário nenhum, então pediu demissão, doou todos seus livros e roupas, devolveu o apartamento alugado e vive há 4 anos peregrino pela Espanha, tudo o que ele tem está na sua mochila de 20 kg, ele vive ao redor do Caminho, mas ás vezes sai dele, volta, vai conhecendo pessoas que lhe dão coisas, distribui tempo para conversa, sorrisos e mensagens impressas em marca-páginas, e essa é a sua vida, andarilho!

Esta foi a  particularidade desta minha experiência no caminho alternativo ao francês: as pessoas que cruzei! E isto não tem preço. No Caminho Francês o perfil dos peregrinos é outro, conheci poucos fazendo o caminho sozinho, são mais grupos de amigos e casais, um pouco mais de festa e menos introspecção, mais jovens, porém com menos propósito em fazer o caminho, todos que eu perguntava “por que fazer” me respondiam “porque é bonito”, “porque eu tinha férias”, “porque fulano me chamou”. Ponto. Nenhuma pessoa que eu conheci no Francês tinha um propósito espiritual, ou religioso, ou de busca interior, ou de superação. Também conheci grupos organizados de turismo nesta rota, agências que levam grupos, transportando suas mochilas em carros e fazendo suas reservas em hotéis, às vezes até mesmo com guia. Achei o Caminho Francês bem mais comercial!

Mas esta foi uma visão pontual minha, de apenas 3 dias de Caminho Francês, apenas 70 km, e conto o porquê: faltando 780km pra chegar em Santiago, eu não estava gostando da “muvuca” dos últimos 3 dias do Caminho Francês e saí deste caminho!! Eu estava cruzando mais de 100 pessoas por dia na trilha, um pouco incomodada com a quantidade de quiosques e bares, as pessoas bebendo e falando alto, sem eu conseguir fazer minha caminhada em silêncio, então desisti, ignorei que tinha andado já 235km, voltei pra França e comecei tudo de novo por outro caminho de santiago: O Caminho do Norte. Isto mesmo, mudei a rota! E não me arrependo um só momento, foi a melhor decisão de mudança deste sabático!!! E um reflexo do que tem sido minha vida nos últimos tempos: a coragem de mudar diante do incomodo e /ou do comodismo. Não é porque escolhemos um caminho, um trabalho, um relacionamento lá trás que precisamos ficar pra sempre, se não está bom, temos que ter a coragem de mudar!

Mas deixando a filosofia de lado e voltando ao Caminho: o fato de eu não ter gostado do Caminho Francês não impede de outras pessoas gostarem, quem prefere andar com suporte de restaurantes, quem não se sente confortável ou seguro de estar tantas horas sozinho na natureza, principalmente mulheres que me enviarem dúvidas com seus medos, sim, o Caminho Francês é indicado para quem prefere andar com mais infra-estrutura e encontrar mais pessoas! É que euzinha prefiro o “into the wild style” e um perrengue básico pra chamar de meu!

Ainda sobre o caminho Francês, falando das paisagens, ele é lindo tá? Não desisti pelo visual, porque o visual é lindo, de planícies, passando por muitas plantações e muitas cidades fofas! Só fui até Logrono, não deu tempo de passar por Leon e Burgos que eu queria conhecer, com catedrais góticas incríveis, mas tudo bem. Este caminho só tem alguns dias maçantes em trechos de Navarra e La Rioja de puras plantações com sol na cabeça e clima bem seco, mas o visual é bonito!

Já o Caminho do Norte que eu migrei é outro visual, ele é no litoral. Então as paisagens são de serra, floresta e praias. P-R-A-I-A-S !!! Por isso me apaixonei tanto! Mas antes de migrar pro outro post que eu conto do Caminho do Norte, queria dar duas dicas aos interessados que me mandaram perguntas sobre o caminho: os gastos e a mochila!

O ideal é que a mochila tenha 10% do seu peso, e que não passe dos 40 litros, tem que ser aquelas que ajustam bem na cintura pra distribuir o peso! Considere que a própria mochila já pesa cerca de 1 kg e o litro de água também, então de resto, eu trouxe: sleeping bag, casaco corta vento que também é a capa de chuva, capa de chuva pra mochila (se não for embutida), um casaco de fleece, uma papete pra chegar no destino e passear com os pés respirando, uma havaina pra tomar banho, toalha de camping, necessaire pequena, uma calça e blusa pra dormir. E daí são dois looks: o 01 e o 02, hahaha um você usa, chega e lava, e o outro você usa dia seguinte se o de ontem não tiver seco, então são 2 bermudas de lycra (e 1 legging se esfriar), 2 camisetas de dryfit, 2 tops, 2 calcinhas e 2 meias. A bota de trekking tem que ser muito confortável, cano médio e estar amaciada no seu pé! Tem gente que faz com tenis de corrida, mas não é indicado pros dias de chuva e as pedras que eu encarei na serra do litoral, onde amarrei bem o cano médio protegendo o tornozelo.

Esta é a mochila ideal pra quem vem neste clima que estou, em setembro/outubro ou abril/maio, estas são as melhores épocas. Junho a agosto além de ser muito quente é bem cheio de gente, inclusive excursões de escolas espanholas!! E de novembro a março é bastante frio, então a mochila precisa ser reforçada com outras roupas (nesta época também muitos albergues fecham, então aconselham até a levar barraca, isolante térmico, etc).

Os gastos: eu gastei exatamente 30 euros por dia! Os albergues de peregrino vão de 5 a 12 euros, os menus nos restaurantes vão de 10 a 12 euros (dois pratos, bebida e sobremesa) e um café-da-manhã ou lanche sai 4 a 5 euros. Como neste momento o euro está nos saindo R$5,20, eu prefiro fazer supermercado onde o meu jantar, café do dia seguinte e lanche pra trilha me saem no máximo 7 euros. De resto, é só andar, porque a natureza e nossas pernas são grátis!

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