Reflexões

em trânsito

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Aqui estou eu no aeroporto de Dublin, na verdade nesta foto eu já estou na casa da minha amiga em Zurique, 24h depois de uma longa viagem, mas quando escrevi este texto eu estava no aeroporto de Dublin, então vamos lá: aqui estou no aeroporto de Dublin, são quase 2h da manhã, saí ao meio dia da casa do meu irmão em Killarney, do outro lado da Irlanda, passei a tarde em Cork, onde deixei meu mochilão em uma loja, e a noite peguei um ônibus de 4 horas pra Dublin. Cheguei 11 da noite num ponto de ônibus no meio do nada e esperei o próximo ônibus pro aeroporto. Meu vôo mesmo é só amanhã às 6h da manhã. Mas quando somos mochileiros, colocamos no papel se vale mesmo ir até a cidade, pagar hostel, enfrentar busão na madrugada… melhor passar a noite aqui, do jeito que estou, de meia, com um sanduíche e uma cerveja, bolsa colada no corpo, e dois bancos unidos pra eu conseguir deitar e tirar um cochilo. Esta situação de busão, mochilão, aeroporto, já faz parte da minha rotina.

Já são 20 meses viajando e foram incontáveis noites de aeroporto, o de Kuala Lumpur era minha segunda casa na Ásia,  os vôos mais baratos são via Air Asia e sempre tinham escala em Kuala Lumpur, lembro que uma vez eu tinha 6 horas de espera lá, de madrugada, resolvi me dar um luxo e paguei 55 dólares por um quarto no aeroporto, eu tava muito cansada e só queria dormir, mas quando cheguei no quarto, chuveiro bom, secador, TV, quarto só pra mim, um monte de luxo que eu não tinha há meses, resolvi aproveitar tudo e nem dormi! 

E já teve noite no chão do aeroporto de Istambul, com sleeping esticado no carpete que fui acordada 4h da manhã com o moço querendo passar aspirador, teve 5 horas de espera no aeroporto da Etiópia, numa sala entupida de gente sem lugar pra sentar, e teve noite em triliche de trem na Índia, isto mesmo, TRI-liche em um trem em movimento, 16 horas em trem numa micro cama e um medo…um medo gente, no meio daqueles indianos todos, sem saber o que poderia acontecer, dormindo mas acordando a cada 5min só pra checar se estava tudo como estava antes. E o medo não é à toa, recentemente vi o relato do @caiotravels sobre a Índia, alguém se aproveitou dele dormindo no trem e colocou 1 kilo de ópio no mochilão dele, tem traficante que faz isso com medo da polícia entrar no trem e verificar, e provavelmente esse cara não conseguiu tirar a droga depois, que o Caio mudou de cama e ficou em cima do mochilão. Sim, acontece.

Ah, e teve noite em ônibus noturno na índia também, em umas cabininhas que mais parece um caixão. E que não quero nem imaginar quem tava deitado antes de mim.

Eu não consigo lembrar direito como eu era antes deste sábatico, porque aqui virou rotina me movimentar de cidade a cada 3 ou 5 dias, antes acho que eu ficava um pouco ansiosa, chegava com antecedência no aeroporto, separava a roupa certa pra viajar, mochilinha, checava todas as diretrizes do destino. Hoje vou de qualquer jeito e até esqueço, às vezes pouso num novo país, sem internet, e penso “vix, esqueci de ver como chego no hostel”, saio perguntando, pego uns ônibus locais e tudo sempre dá certo. Lembro que há um ano atrás, no início de 2018 eu tava em Gold Coast, na Austrália, tranquei meu mochilão no locker do aeroporto e andei até a praia, dei um último mergulho no Pacífico Sul, coloquei o vestido por cima do biquíni molhado, voltei, despachei o mochilão e entrei pro embarque, assim como quem sai da piscina do prédio. 

Mas também teve muito perrengue nestes longos transportes, lembro que no Sri Lanka eu tava sem chip de internet e resolvi ir da praia no sul pras montanhas no meio do país em ônibus local. O primeiro durou 4 horas e eu fiquei com muita, muita vontade de fazer xixi, obviamente o ônibus não tinha banheiro e  ninguém falava inglês, por mímica tentei fazer o motorista parar, mas ele só deu risada. De repente o ônibus parou num quiosque no meio da estrada, a mulherada desceu e foi fazer xixi atrás do muro, fui junto, e depois todo mundo pediu comida, mas eu com medo de perder o ônibus e sem ninguém falar inglês, voltei e esperei 15 minutos derretendo lá dentro. Mas foi na troca de ônibus que o bicho pegou, parei numa rodoviária pequena, nenhuma placa nem sequer no alfabeto romano, parou um primeiro moço pra me “ajudar”, me disse que o ônibus que eu queria ia sair de uma plataforma, fui e esperei. Parei outro moço que me confirmou, mas este disse que talvez o ônibus não viria, que acontecia com frequência e ele poderia me levar. Daí veio um terceiro cara e ofereceu carona também, dizendo que este ônibus não passava há dias, eu via os 3 caras parados cada um num canto, se entreolhando. PÂNICO. Parei 3 meninas adolescentes, tentei pedir informação, elas só davam risada sem entender nada de inglês. Então saí andando pelas ruas, achei um policial, ele me levou até a plataforma certa que era totalmente oposta a onde eu estava e o ônibus chegou.

Viajar sozinha é isso, é confiar nas pessoas sempre desconfiando, é perguntar a mesma coisa pra várias pessoas diferentes, é não demonstrar medo nunca, mesmo que tremendo por dentro, erguer o peito, mas saber também que tem gente do bem, gente que ajuda. O dia que cheguei na Noruega vindo da Islândia, tava com a minha amiga na máquina comprando bilhete de ônibus pra cidade, chegou um cara e ofereceu o bilhete que ele tinha a mais, sem cobrar nada, e custava uns R$ 100!

Mas um vez na Índia, na entrada da estação de trem, no raio x (na Índia tem raio x pra entrar em metrô, rodoviária, aeroporto…) tinha um cara sem uniforme nenhum, pedindo pra ver o bilhete, quando ele olhou o meu disse que o trem tinha sido cancelado e no mesmo momento surgiu um segundo cara dizendo que poderia me levar ao destino em táxi. Ainda bem que eu já era rata velha de Índia, acompanhava todos os trens pelo aplicativo, vi que o cara nem uniforme tinha, xinguei e entrei na rodoviária. Na Índia é assim, na base do xingamento, tem que enfrentar. Sim, a Índia nos fortalece, muito. 

Lembrando destes momentos tensos de Índia e Sri Lanka até me acomodo mais na poltrona aqui na Irlanda, feliz, aeroporto seguro, confortável, até esqueço que hoje serão 24h em trânsito com a mesma roupa. 

Ah, acabei de lembrar como eu era pré-sabático, eu fui 5 anos seguidos pra Rondônia de ônibus, 2 dias e meio viajando, pra fazer trabalho voluntários com as populações ribeirinhas, sim, sempre gostei de um perrengue, é normal.

2 comentários em “em trânsito”

  1. Querida Marina. Fez um tempo desde seu último post. Estava já preocupado. Ficamos felizes em saber que está bem.. de destino a destino. Aproveito para te desejar um feliz Natal. Que 2019 seja ainda mais intenso e gratificante que 2018. Alves.

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