Reflexões

Vida pré-sabático

 

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Esses dias atrás, aqui no meu segundo curso de Yoga na Índia, tive que fazer uma tarefa de casa pra aula de filosofia: montar uma aula sobre qualquer tema e apresentar! Filosofia é a matéria mais difícil pra mim, sou das Exatas, né? Mas sentei, meditei um pouco, refleti, e me lembrei de um poema que escutei há um ano atrás de um indiano aqui na Índia: The Calf Path, de Sam Foss.

Então montei minha aula sobre este poema, e uma analogia com a vida moderna que levamos! Em resumo, o poema conta de um caminho desordenado que o um bezerro fez um dia, seguido de um cachorro dia seguinte, de umas ovelhas depois, de uns homens, e um dia este caminho virou uma pequena estrada de um vilarejo, e por fim uma grande avenida toda desordenada no centro de uma cidade, onde milhares de pessoas passam todos os dias sem saber porque aquela avenida  tem formato zigue zague, sem saber que seguiam os passos de um bezerro de 300 anos atrás…

Então eu trouxe pra aula este tema, e o fato de que hoje em dia muitas pessoas nascem, vão pra escola, estudam pra passar na faculdade, fazem faculdade, se formam, batalham por um emprego, financiam o primeiro carro, trabalham mais ainda, são promovidas, casam, financiam o apartamento, trabalham mais e mais, têm seu primeiro filho, e o ciclo se reinicia, mas muitas vezes elas não sabem o porquê. E não tem problema nenhum realizar este ciclo! Desde que se tenha consciência e desejo de realizá-lo, e não fazê-lo porque todo mundo o faz.

Tudo que é feito com consciência é saudável!

Eu estava neste ciclo, terminei o colégio, fiz cursinho, entrei na faculdade.

Todo mundo ia pra faculdade na minha escola, fui também.

Passei em engenharia de produção em faculdade pública do interior, fui morar em São Carlos, aproveitei ao máximo essa fase: a vida em república, os estágios, projetos, voluntariado na Amazônia, intercâmbio, as cervejadas, vivi tudo intensamente, até chegar a fase de me formar e passar num processo de trainee. Lembro que os professores só falavam em processo de trainee, era o assunto do último ano, eram duas possibilidades: ser promovido a analista no estágio atual ou entrar em um processo de trainee, era aquele “calf path”.

Todo mundo prestava processo de trainee na minha faculdade, então prestei também. 

Lembro que me candidatei a mais de 20, e no primeiro que passei já desisti dos outros. Comecei, foi intenso, difícil e eu vivia infeliz, me sentia despreparada, estava numa grande empresa, com um bom salário para um recém formado, mas eu não aprendia muito e era cobrada por coisas que eu não sabia. Me rendeu uma úlcera no estômago e uma sensação eterna de que eu não era boa o suficiente, sempre sendo comparada aos demais. Então mais de um ano depois, desisti. 

As pessoas me achavam louca, desistir de um processo de trainee que ao final de 2 anos o cargo “garantido” era uma gerência! Que sucesso né? Mas pra mim sucesso era ser feliz.

Peguei a recisão, as férias pendentes, o 13º e fui pra Londres fazer 2 meses de curso de inglês. Lembro que nesta época eu dizia “não volto nunca mais pro mercado corporativo!!!”, eu pensava em ser fotógrafa, mas sempre vinha o pensamento “ser fotógrafa dá dinheiro?” e logo eu achava que não, e que se não dava dinheiro eu não deveria tentar, pois foi assim que aprendi na vida: que precisávamos ganhar dinheiro.

Então voltei de Londres, sem um real no bolso, mas eu estava morando com meus pais e eles me apoiavam incondicionalmente, voltei pras entrevistas de emprego, logo passei em uma e virei coordenadora de Trade Marketing. Foi um salto de trainee pra coordenadora, ter a responsabilidade de um time, ser gestora, e eu tinha apenas 26 anos, me considerava nova, mas dessa vez, foi um sucesso: fui feliz! Tinha muitas responsabilidades e em poucos meses fui promovida a gerente de Trade Marketing, o time cresceu, aos 27 anos eu gerenciava 2 analistas, 4 coordenadores regionais e quase 200 promotores, daqueles que executam aquelas gôndolas perfeitinhas em supermercados. Eu adorava dar treinamento a eles, criar processos, rodar os supermercados do Brasil checando gôndola de supermercado!

E aí o fluxo seguiu: recebi proposta de outra empresa, com salário maior e no mercado de beleza, me empolguei tanto! FUI! Fiquei 6 anos, era apaixonada por esta empresa, sou ainda, aprendi, construi muita coisa, fiz amigos incríveis, fui sendo promovida, financiei carro novo,

Todo mundo ao redor tinha carro, comprei também.

Fui sendo promovida, financiei apartamento,

Todo mundo ao redor tinha apartamento, comprei também.  

entra namorado, sai namorado, chega cachorro que eu trato como filho, dedicação total à firma, trabalho, trabalho…

Eu era feliz, mas quando perguntavam quem eu era, eu descrevia meu cargo. Quando perguntavam o que eu fazia da vida, eu respondia a empresa que eu trabalhava. Fui percebendo que meu cargo, meu diploma e minha profissão me representavam. E aquela não era eu. Mas eu também não sabia quem eu era. Estava fazendo tudo seguindo padrões, mas sem consciência.

Aí entraram as terapias, “tradicionais” e as holísticas, cursos de auto conhecimento, livros, sessões, rodas de sagrado feminino, fui me abrindo pra um campo novo, e este processo durou uns dois anos até o dia que quis viver só o que eu considerava  na época “o lado B”. 

Sobre o momento da coragem de tirar o sabático, já contei outra vez aqui! Foram muitas sincronicidades e um momento de trabalho onde eu já não me entregava tanto e a empresa também precisava de outra pessoa em meu lugar. Fui desligada! Oh my god!!! Mentira, foi maravilhoso, foi a coragem que me faltava pra acertar o momento de partir pra esta aventura chamada sabático. 

Eu interrompi um ciclo que estava seguindo por comodidade, porque estava na minha zona de conforto, porque era conhecido e certo, assim como o Calf Path,  que apesar de ser em formato zigue e zague, todo mundo seguia porque era conhecido e certo. Mas eu queria algo desconhecido e novo.

Lembro que em uma das minhas  despedidas da ‘firma’, onde eu contava meus planos de viagem, disse que começaria pela Ásia fazendo uma formação em Yoga na Índia, e uma das meninas do trabalho me disse “que bom, porque no final, se tudo der errado, você pode ser professora de yoga”… na hora eu pensei “eu estou fazendo uma formação em yoga porque se tudo der CERTO eu serei professora de yoga”. Mas eu não julgo e nem culpo este tipo de pensamento, é normal pensar assim, não é todo mundo que quer mudar. Semana passada um dos professores aqui na Índia contou a mesma história, trabalhava em Dubai no mercado da moda, gerente de marketing de marcas de luxo, e largou tudo pra trabalhar com yoga, quando visitou seus antigos amigos em Dubai, um perguntou porque ele tinha feito este “downgrade” de carreira… As pessoas atribuem sucesso à salário e cargos, eu atribuo à felicidade, à ter tempo, e consciência. O dinheiro acompanha quando nos encontramos.

Eu não acho que todo mundo tenha que interromper este ciclo da sociedade, só o que estão inconformados com ele, estes devem! Por que pra muita gente, seguir o ciclo faz completo sentido, é realmente do desejo e consciência deles, então tá ótimo!

Quem eu sou agora? Depois de 22 meses vivendo um sabático? Não sei a resposta…kkk…sou tantas que não sei descrever!

Meu futuro? eu não sei, estou manifestando o que eu quero e sei que o melhor virá! Tenho muitos caminhos que quero seguir agora e alguns paralelos a outros, pois não precisamos ser uma pessoa só. E dentre este caminhos,  pode até ser que eu volte a trabalhar em uma ‘firma’, mas será na cidade que eu escolhi, com um propósito certo e com a consciência do que estou fazendo e porquê. 

E neste exato momento recebo uma msg no Instagram “oi, comecei a te seguir a pouco tempo acabo de largar a engenharia pra trabalhar com energia!”. 

É, Ana Carol, somos muitas!

6 comentários em “Vida pré-sabático”

  1. Somos muitas, mesmo. Me identifiquei demais com seu texto, parte dele ate parece que fui eu que escrevi hahaha! Sucesso em sua jornada! bjo grande, a mochila de Anália =)

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    1. Realmente para uma pessoa de exatas, vc filosofando nesse paralelo entre Calf Path e a sua realidade vivida, vc se tornou muito mais “humanas”.
      Me lembrou muito a musica do Almir Sater (Tocando em frente), somos condicionados a ter sucesso profissional e todo o restante gira em torno disso, a felicidade é apenas um detalhe para aqueles que param para refletir e questionar Oq é ser feliz, o restante da massa, segue a boiada.
      Parabéns pela sua coragem, estou certo que já deu muito certo, basta acompanhar a sua alegria diária.

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      1. Obrigada! amei a música, é exatamente sobre seguir o bezerro, seguir a boiada, as vezes sem saber porque. ando meio “humanas” mesmo hahaha

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  2. Oi Marina, meu irmão estudou com você em São Carlos e me indicou seu blog porque eu também larguei o mundo corporativo para viver essa experiência. Me identifiquei muito com seu texto e com a descrição pessoal atrelada ao trabalho, vejo que ainda não me livrei dela, até porque ainda estou na busca do “quem sou eu”. Estou há dois meses na Escócia. Na próxima semana vou para Europa para começar o Caminho de Santiago. Eu já fiz o português e amei! Vou fazer o francês agora, vi que você mudou a rota para o norte, vou ler mais sobre isso, achei ótima a ideia, “porque não?”! rs
    Essa semana resolvi escrever tudo em um blog também, porque afinal acaba virando um diário (ou quase um livro) de lembranças para nós mesmos, não é?
    Bom, espero que a gente possa se esbarrar por aí futuramente. Ótimo ter lido seu texto, foi no momento certo!
    Abraços
    Mariana

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    1. Oi Mariana! que bom que também está nesta fase! e no comecinho ainda, vai rolar muita coisa e você vai se encontrando, vc vai ver. No começo do meu sabático, meu maior medo era acabar o período que eu tinha me proposto (que era de 1ano e meio) e não saber o que fazer. pois é, passaram 2 anos, e sigo sem saber o que fazer, hahahah só vivendo e aproveitando o presente que é o que temos. as coisas vão se ajeitando, você vai ver!
      quem é seu irmão?
      Buen camino para você! se der a louca mude para o do Norte, ou faça o do Norte em outro momento, é lindo demais!!
      bjos

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