Reflexões

a vida de bike

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Eu sempre sonhei com uma vida de bike. Nunca me arrisquei em SP a usá-la como meio de transporte diário, sempre tive medo de pedalar nas calçadas ou no meio dos carros, me contentava com os domingos de ciclofaixa na zona sul e centro de São Paulo, à passeio.

Mas há 5 meses me mudei pra Dinamarca, um país plano e “bike friendly”. O primeiro mês morei numa ilha e trabalhei como voluntária na própria casa que eu morava, nos 4 meses seguintes morei num município há 20min de trem de Copenhagen, e logo comecei a trabalhar no centro de Copenhagen, então eu vinha diariamente em trem, a bicicleta ficava pros dias de folga, pra pedalar pra praia ou pela floresta atrás de casa. 

Agora estou há 5 dias morando em um bairro que sempre sonhei pertinho do centro de Copenhagen (que na verdade é outro município, mas como está há apenas 3,5 km do centro eu chamo de bairro mesmo, afinal pra mim a Dinamarca inteira é uma grande cidade de interior do nosso Brasilzão kkkkk os dinas me matam se me ouvem falar assim).

Mas de verdade, o estado de SP tem 5x a área da Dinamarca, a população da grande São Paulo é 4x a população da Dinamarca inteira …tudo depende do nosso referencial. E o meu é: em SP eu morava “perto”dos meus pais e “perto”do trabalho, apesar de serem 3 bairros diferentes, eram 3 km pra cada um de distância (que eu sempre fazia de carro). Os meus amigos que moravam em zonas diferentes de SP chegavam a morar a 20 km do trabalho, levar 2h no trânsito, pensa num circuito Limão – Faria Lima ou Lapa – Brooklin, é isso! Longe pra caramba! Isso é considerado viagem de férias na Dinamarca, às vezes nem pra fim de semana eles pegam trem de 2h…mas enfim, estou num “município” há 3,4k do meu trabalho, bem em frente à prefeitura, o que me permite ir de bike. 

Compartilhando alguns fatos: 26% das viagens com menos de 5km na Dinamarca são feitas em bicicleta. 49% das crianças entre 11 e 15 anos vão de bike pras escolas. A cada 1 km pedalado, quando se evita carro, a população ganha 1 euro em benefícios a saúde, e em Copenhagen a população pedala na média 3km/dia.

(fonte: http://www.cycling-embassy.dk/facts-about-cycling-in-denmark/statistics/)

Que sonho de país! E voltando à minha vida de bike: mudei há 5 dias e trabalhei nos últimos 4 dias, levei exatos 11 minutos para chegar ao trabalho, o caminho todo tem ciclovia exclusiva, farol pros ciclistas e preferência pra eles (ops, pra nós, já posso me colocar nesta categoria). Carros e pedestres param para o ciclista passar.

Também tem código, que aprendi rapidinho: se for virar pra direita estica o bracinho na lateral do corpo, se for parar, ergue a mão como se tivesse cumprimentando alguém (dobra o cotovelo em 90 º com a palma aberta pra cima voltada  pra frente). A primeira vez que vi um senhor dando o sinal de parar achei que ele tava me dando tchau, até olhei pra trás pra ver se era comigo mesmo. Mas pior foi minha amiga quando mudou pra cá e deu hi-five no cara da bike que tava fazendo sinal de parar. Gente, sério!

Mas enfim, minha saga da bike começou a 4 dias, o caminho pro trabalho é quase uma reta só, mas ainda tenho dificuldades de tirar a mão do guidão pra fazer sinal de parar ou de virar, sempre tive essa dificuldade, perco o equilíbrio.

Outra grande dificuldade é que só consigo começar a pedalar quando o pedal direito está pra cima. Quando é o esquerdo, começo devagar desgovernada até pegar impulso. E quando os dois pedais param em paralelo ao chão, ferrou, coloco os dois pezinhos no chão e vou no passinho pra frente… sou só eu ou tem mais gente lesada assim? Isso porque minha bike freia no pé quando pedala pra trás, então quando estou paradinha não consigo girar o pedal pra trás até a minha posição favorável: pedal direito acima, pedal esquerdo abaixo. 

Falando em passinho pra frente só consigo parar se alcanço os 2 pés no chão, sem sair do banco. Admiro muito aquelas pessoas que deixam o banco altão e quando param saem do banco à frente pra colocar o pé no chão. Admiro mais ainda as minas de saia lápis e salto que fazem isso (dêem google em imagens da princesa Mary aqui) essa é cena mais comum aqui.

Admiro mais mais ainda, quem começa o pedal de ladinho na bike, dá um impulso com um pé, e depois passa o outro pro ouro lado da bike, wowwww!

Admiro mais mais mais ainda quem pedala segurando o copo reutilizável de café, e ainda faz tudo isso listado acima.

Mas um dia… um dia chego ao estágio destas pessoas e farei um vídeo no youtube sobre como pedalar com maestria. No meu momento atual:  falta só eu colocar rodinhas laterais, né? Mas aos poucos vou tomando jeito. 

Os começos são difíceis, sempre, até se tornarem confortáveis. Estes primeiros dias de bike, preocupada em não atrapalhar os outros e não causar acidentes, em fazer os sinais, decorar o caminho, me trouxeram uma lembrança muito forte de quando comecei a dirigir. Eu tinha 19 anos, já tinha carta mas tinha muito medo de dirigir. Morava em São Carlos, interior de SP, o ano era 2003, e de repente meu pai me deu o carro que era dele antes: um Uno Mile modelo 1990, da idade do meu irmão. O carro já tinha sido do meu pai por 9 anos e do meu avô por mais 4 anos, só tinha 4 marchas, 2 portas e era cor baunilha. Ahhh quem não lembra do Baunilhinha pela UFSCar… foram tantas caronas!

Mas no começo eu morria de medo de dirigir, e nos primeiros dias eu ia pra faculdade 1 hora mais cedo que a aula só pra não cruzar ninguém na rua, pra ir na minha velocidade 20km/hora, sem passar da segunda marcha e fazer as várias tentativas de parar na vaga 45º da faculdade, sem nenhum carro ao redor. Mesmo assim na primeira semana recebi o bilhetinho no parabrisa “aprenda a parar numa vaga só”… nuca esqueço. Boas lembranças!

E esta vida atual no pedal está neste começo devagar e receoso, mas está me deixando muito feliz! Não gasto com transporte, não poluo o meio ambiente, faço um exercício diário, vejo a cidade com outros olhos, pedalo devagar conhecendo cantinhos novos: ja descolei a loja de fantasia pra parada gay e uma floricultura pra encher meu quarto de flores, além de muitos cafés e restaurantes indianos. A gente olha a cidade com outros olhos na bicicleta, observa as pessoas e são aqueles 20min diários (de ida e volta) pra pensar na vida, ter estas reflexões, como esta aqui, e quem sabe a partir desta não reativo este blog que estava parado e trago reflexões semanais sobre a vida na Dinamarca e do sabático? Que assuntos vcs queriam que eu trouxesse aqui?

Um comentário em “a vida de bike”

  1. Menina! Que legal ter notícias suas! Muito bom em saber. Vou contar para minha filha que tem já 5 anos que ela anda melhor de bike do que vc kkk. A claro que lembro do Baunilhinha … cabia 4 caixas de cerveja mais gelo!. Único 4 marchas.
    Grande abraço.
    Alves
    Ps: Sobre sugestão de pauta: meditação, comida, diversidade cultural, cultura (ser) não consumista, mais simples mais feliz!

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