Reflexões

Rotina sem rotina

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Este nome roubei de uma amigo que conheci nesta jornada chamada sabático, o Dani, e usarei para descrever minha rotina (sem rotina) na Dinamarca.

Hoje é segunda, até trabalhei, mas nem é toda segunda que trabalho, comecei o dia de uma maneira MUITO atípica pro meu lifestyle minimalista sabático: em uma clínica de estética!! Eu sempre fui vaidosa e vivia na dermato na minha antiga vida corporativa patricinha em SP, até dois anos atrás, e é verdade que durante estes 28 meses sabáticos desencanei demais da minha aparência, raspei a cabeça, fiquei meses sem maquiagem, comecei a fazer exercício pelo simples prazer e não pela estética e nunca mais usei salto alto.

Mas as rugas na minha testa…essas me incomodam, e aumentaram muito nestes dois anos de poeira indiana, zero skin care, semanas seguidas de praia na Indonésia, Filipinas e Grécia, noites dormidas em aeroportos, trens e beliches distintas de hosteis e pouco protetor solar (sim, errei)…enfim, nestes 28 meses viajando a verdade é que minha pele do rosto envelheceu aceleradamente e eu estava incomodada. Então aproveitei que caiu do céu um quarto mais barato pra eu alugar aqui em Copenhagen, fiz as contas, e a economia que farei em aluguel e transporte nos próximos 3 meses me pagam a aplicação de botox na testa (afinal 35 anos, né mores?). Então hoje comecei meu dia indo de bike até a clínica de estética, recebendo botox sem pomada anestésica (diferente do Brasil) e pagando pelo celular (mobile pay), porque aqui cartão ou dinheiro em espécie são pré-históricos. Procedimento simples e rápido por aqui, já falei que as dinamarquesas são lindas e vaidosas?

Mas voltando a minha rotina, e ignorando este evento atípico, às 9h da manhã desta segunda-feira eu estava livre, parei num café delícia pra um brunch (depois de pesquisar preços pelas internet),  pedalei na beira do rio, fui na biblioteca real pra conhecer e estudar e de lá fui pedalando pro trabalho ao meio dia. Saí às 20h, de bike, e parei num parque pra contemplar o pôr-do-sol antes de ir pra casa ver um filme com uma taça de vinho (na verdade foi um episódio “ugly delicious” do Netflix sobre uma pizzaria que conhecerei aqui esta semana e é uma das 5 melhores pizzas do mundo!). Isto é uma segunda-feira feliz!

Estou desde abril trabalhando em uma loja bem turística no centro de Copenhagen, é uma joalheria que vende jóias em Âmbar,  produto super tradicional da Dinamarca, e as únicas exigências para se trabalhar lá eram ter boa comunicação e quanto mais idiomas melhor para atender turistas do mundo todo. Então passo o dia fina no meu terninho atendendo brasileiros, portugueses, mexicanos, espanhóis, alemães e americanos e gastando meus idiomas que sempre amei estudar! A maior parte do tempo falo inglês e espanhol, me arrisco bastante no alemão (embora todo alemão fale muito bem inglês) e uso e abuso do vocabulário que aprendi no meu mochilão mundo usando palavras em russo, hindi, italiano… e quando entra turista de algum país que já visitei, já puxo uma conversa sobre meu prato favorito ou praia que mais gostei. Estou trabalhando, mas me sinto ainda num lobby de hostel trocando experiências com viajantes. 

Às vezes trabalho do meio dia às 20h, outras vezes das 9h às 16h, geralmente tenho folga às quartas, quintas ou sextas, prefiro trabalhar aos finais de semana onde o salário é maior e ter folga na semana pra aproveitar parques e museus mais vazios, mas enfim, cada semana é diferente, sem horário fixo, e cada dia aproveito de uma maneira diferente. E trabalhar de vendedora é assim: acabou o expediente, acabou. Não tem que ler e-mail em casa ou preparar material pra reunião do dia seguinte.

Nas minhas folgas durante a semana, aproveito pra ir à praia ou fazer uma viagem curta a algum museu ou parque ao redor de Copenhagen, nos dias que saio às 4 da tarde, aproveito que está escurecendo às 10 da noite e tenho mais estas 6 horas livres onde nado no canal, encontro amigos, vou ao cinema, faço pic nic no parque ou marco uma cerveja num bar. Até sessão de fotos nas horas livres já rolou, e convite pra ser figurante, acontece de tudo nesta Dinamarca!

Quando trabalho do meio dia às 8 da noite, tento aproveitar minhas manhãs com caminhada no parque, yoga ou marcando um brunch com as amigas (como será amanhã).

Quando dou sorte e minhas folgas se acumulam todas juntas, viajo. Em junho sem querer no meu calendário tive 6 dias seguidos de folga que fui conhecer a Estônia, em julho pedi um fim de semana de folga e fui fazer um curso em Berlin, e no fim do mesmo mês calhou de ter 4 folgas seguidas de novo que fui visitar amigos em Amsterdam, aqui é tudo pertinho, dá pra ir de carona de blabla car, de ônibus Flixbus ou arrumar uma passagem em promoção da Ryanair ou Norwegian Airlines. 

Minha vida aqui não tem muita regra, e apesar de eu estar trabalhando, chamo ainda de sabático, porque acordo, sinto meu corpo, respeito minhas vontades e sigo o flow: como quando tenho fome, pulo num canal gelado quando sinto calor, pedalo ou caminho quando sinto necessidade de movimentar, encontro um amigo ou date quando estou afim, estudo ou escrevo quando estou inspirada. Apenas respeito o fluxo, me respeito, tenho meus dias todinhos em silêncio, tenho meus dias sozinha, tenho meus dias que emendo brunch com um, almoço com outro, parque com outro, jantar com outro e fim do dia tenho a sensação que o dia durou uma semana. 

O mais engraçado é que na loja estou trabalhando 40 horas semanais (que é bem acima da média de carga horária da Dinamarca), mas sigo dizendo que estou num part time job…isso porque nos meus dois primeiros meses na loja, antes da alta temporada de turismo começar, eu realmente trabalhava só 2 a 3 dias na semana, e agora, apesar de trabalhar 5, sigo com essa sensação de part time, de tanto tempo livre bem aproveitado que tenho. No Brasil, trabalhar 40 horas semanais era o mínimo, mas parece que eu não aproveitava o resto do dia, pelo trânsito, stress, e-mails de trabalho fora do expediente, preparação de material, preocupações…e o fim de semana era curto para se descansar o suficiente. Hoje, mesmo num dia que trabalho 8 horas, às vezes tenho mais 5 horas livre num parque com amigos, o que me dá a sensação de um sábado inteiro no meio da semana. 

A verdade é que estou trabalhando mas sigo chamando minha vida de sabático, porque o estilo sabático se instaurou em mim. Em dezembro passado, eu estava mochilando pelo mundo faziam 20 meses quando percebi que estava cansada de mudar de país todo mês, de viver com todas as minhas roupas dentro de uma mochila e de dormir em uma cama (ou sofá, ou barraca, ou chão de aeroporto) diferente a cada 2 noites.

Então comecei a pesquisar e pensar onde me fixar pra ter uma “rotina”e não precisei pensar muito, mesmo por que se tivesse pensado as opções mais lógicas seriam Brasil ou Portugal, pelas nacionalidades, língua e amigos/família. Eu apenas senti que meu lugar era em Copenhagen em apenas 1 fim de semana de visita aqui e voltei em março pra me fixar.

Não, não é tão fácil pra brasileiro se mudar pra Dinamarca, eu fiz isso graças a minha nacionalidade Europeia e agradeço todos os dias minhas ancestrais, bisavó portuguesa e toda sua origem, que me permitem hoje este privilégio de morar neste país que admiro mais e mais a cada dia. Mas para brasileiros precisam vir empregados com visto de trabalho ou estudando com visto de estudante.

Quando mudei, graças aos rápidos contatos via instagram e facebook com outros brasileiros aqui, consegui um trabalho em uma semana. Sabe a expressão QI (quem indica)? Aqui vale também, e através de outra brasileira que me indicou pra essa vaga consegui este trabalho. Aliás, nos tornamos amigas, fomos no show do Backstreetboys juntas e até dog sitter do cachorro lindo dela já fui. Conexões da jornada!

Mas na mesma semana, através do linkedin, também consegui outro trabalho no turismo, e quando neguei a vaga já indiquei outra amiga brasileira pro meu lugar e ela está trabalhando lá, felizona, enquanto eu estou aqui na loja, felizona! Então ter contatos e conexões realmente fazem muito bem!

E após gerente de trade marketing e gerente nacional de vendas, voltar a ser vendedora? Pra mim sucesso virou sinônimo de tempo de qualidade. Mas isto vai ficar para uma outra reflexão sobre sucesso e carreira…

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