em isolamento na quarentena

Após exatos 3 anos nômade e viajante, vivendo em comunidade, dormindo em habitações compartilhadas de hostels, sofás de couchsurfing ou quartos alugados em repúblicas, surgiu a oportunidade de ter um apartamento para morar sozinha novamente, aqui, de volta à Copenhagen.

Aquele desejo que tive tantas vezes da cama de baixo de um beliche em hostel com alguém se mexendo e roncando na cama de cima, aquele sonho em tantas filas de banheiro compartilhado, quando eu estava atrasada pra sair mas não liberavam o banheiro, ou quando liberavam, mas o banheiro era um cubículo sujo onde não era possível pendurar minha toalha e minha roupa limpa, eu só pensava “amo viajar, mas um dia quero ter o meu canto de novo”.

Acho que manifestei tanto este sonho, que ele se materializou. Não é fácil alugar um apartamento em Copenhagen, tenho amigos europeus que até desistiram de morar aqui pelos altos preços e dificuldades com contrato e depósito, aquela garantia em dinheiro inicial que temos que pagar e retirar ao final do contrato. Mas por causa de um Match de Tinder conheci virtualmente um cara que compartilhava comigo os mesmos interesses em comida vegetariana, retiros de yoga e silêncio, e quando ele resolveu sair de sabático, eu estava justamente buscando nova moradia aqui. Como ele tem apartamento próprio, resolveu me cobrar um preço baixo para eu cuidar do apartamento enquanto ele dá a volta ao mundo dele, assim, sem nunca termos nos encontrado, nos tornamos amigos e fechamos negócio. “Tudo vem a mim com facilidade, alegria e glória” foi o que aprendi no Curso de Barras de Access, uma técnica de remoção de pensamentos, ideias e crenças limitantes, foi assim também que atraí abundância nesta fase nômade e minimalista da minha vida, agradecendo e valorizando por tudo o que tenho e me afastando da raiva, da inveja e do medo. 

E aqui estou, em um pequeno apartamento tipicamente dinamarquês, 5 andares de uma estreita escada para chegar, piso de madeira, apenas um cômodo que podemos chamar de sala com cama de casal ao fundo, ou de quarto, com sofá e mesa à esquerda, uma cozinha estreita de corredor e um banheiro antigo com banheira. Eu não tenho banheira em casa desde que sou um bebê, e sonho com o dia que a encherei de espuma, abrirei um vinho e lerei “O ano em que morri em NY” dentro dela, este dia será semana que vem, após minha semana detox. 

Dentro do apartamento com apenas uma porta de armário para colocar minhas roupas, cama de casal confortável com 4 travesseiros e jogo de lençol sóbrio de cor petróleo, grande sofá preto com uma aconchegante manta cinza, conjunto de mesa e duas cadeiras escuras, uma planta ao fundo, cristais com estátua de Shiva na janela e uma enorme TV que eu não fazia questão, me encontro em isolamento, em quarentena de corona vírus, em meio a velas acesas no melhor estilo hygge dinamarquês.

Me mudei esta semana, nas primeiras 24h fiz tudo que me vinha à cabeça desde que sonhava em morar sozinha: almocei pão de alho, dancei nua, fiz barras no aparelho preso à parede, jantei brigadeiro, tomei meia garrafa de vinho, joguei todas as minhas roupas no sofá e fui experimentando as que eu nem lembrava q existiam, que estavam numa mala trancada há 3 meses, dormi tarde e acordei sem hora, fiz tudo sabendo que não haveria o julgamento dos outros, eu aproveitei que estava sozinha. Nas 24h seguintes chamei o boy e companheiro de quarentena para um jantar com vinho e sexo, afinal, solteira sim, sozinha nunca, especialmente na quarentena. Depois me isolei e comecei uma vida saudável: meditação e incenso ao acordar, suco detox, um chá tomando sol à janela, saladinhas e legumes, leituras em dia, ninguém pra conversar…ninguém pra conversar…e isso é muito estranho.

Há 10 dias resolvi sair dos grupos de whatsapp e silenciar outros, quando o Brasil entrou em quarentena a situação online ficou insustentável para mim, em poucas horas eram mais de mil mensagens não lidas e 4 convites para encontros virtuais de diferentes turmas pela plataforma zoom ao fim do dia, turmas que nem se encontravam semestralmente de repente estavam agendando encontros online diários…também não aguentava mais as piadinhas e memes sem graça de tiozão, e o chuva de fake news e reportagens distorcidas. Acho que só quem mora fora do Brasil ou lê notícias do exterior, entende o tamanho do problemática nos meios de comunicação e discursos políticos distorcidos brasileiros. E aquilo tudo, em meio a uma pandemia, me adoecia. Me senti liberta ao sair dos grupos, ler apenas notícias daqui, fazer meditações de cura para o mundo e manter contato apenas por mensagens individuais com amigos espalhados na Europa, Ásia e Brasil, entendendo a situação do novo corona pelos olhos e experiências deles. 

O próximo passo para meu total isolamento de quarentena foi deixar temporariamente as redes sociais, apaguei do celular o Instagram e Facebook, e assim ficarei por pelo menos 15 dias, até o planejado fim da quarentena por aqui. Deixando de perder as 2 horas diárias rodando feed de fotos e stories.

Depois, resolvi desligar o celular por um dia inteiro. É incrível como este pequeno aparelho é viciante. E a cada 3 parágrafos lidos ou escritos, a cada cena do seriado do Netflix me vejo apertando este pequeno aparelho para ver se há novas mensagens, e não há, a tela não se acende, ele está desligado. Um vício, que quero me desapegar. Talvez eu esteja aprendendo mais com os dinamarqueses do que eu imaginava, comparado com os brasileiros, eles ficam bem menos ao celular, é o que eu observo nos transportes públicos, praias, bares e em suas bikes, usam no máximo para escutar música e podcasts.

Sentada no apartamento, sem música, após maratonar a 4ª parte de La Casa de Papel, escuto apenas o violino da vizinha de cima, fecho os olhos e deixo que venham palavras para o meu livro. Mas elas não vem. Ando procrastinando muito o livro. Mas se saiu esta reflexão aqui, traduzida em palavras, me pergunto, por que não sai o livro? Me sinto esquisita, me pressiono pra escrever um livro, mas ao abrir as cartas que escrevi pra mim mesma e acessar certos sentimentos e momentos da viagem, vejo que não quero voltar a cutucar certas feridas. Porém,  repassar por estes sentimento também é bom, identificar os que foram curados.

Procrastinação tem sido recorrente nesta quarentena para muita gente, por mais tempo que tenhamos para realizar nossa lista de tarefas pendentes, deixamos para depois. Fazer home office também não é fácil para todos, sozinhos em casa às vezes não trabalhamos tanto quanto no escritório, perante a “validação” dos demais. Mas está tudo bem, temos que olhar para este sentimento e acolher. Está tudo bem não aprender uma língua nova na quarentena, não ler um livro por semana e não finalizar nossos projetos pendentes. 

Podemos também apenas descansar, coisa que nunca fazemos. 

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