Caminho Português de Santiago

Pra quem ainda não é peregrino de Santiago, vale sempre lembrar: existem vários caminhos que levam a Compostela, alguns começam em outros países e todos culminam na Catedral de Santiago de Compostela, na Espanha. Cada peregrino pode escolher fazê-lo a pé, em bicicleta ou a cavalo, e escolhe também onde começar e quantos quilômetros por dia andar, basta levar consigo seus pertences e a credencial do peregrino, para receber carimbos ao longo do caminho. 

Ser peregrino é algo viciante, mesmo! Eu já havia feito o Caminho Aragonês, parte do Francês e o do Norte, em 2018, todos relatados aqui no blog, e este ano estava esperando a pandemia dar uma trégua pra fazer o Português.

Em agosto o caminho reabriu, com restrições: albergues municipais e Santas Casas seguiram fechados, os bombeiros não estão mais hospedando e em muitos dos albergues privados não se pode usar a cozinha, portanto estes fatores encareceram um pouco o caminho. Porém, consegui manter exatamente minha média de 2 anos atrás: 30 euros diários para acomodação, supermercado, menu peregrino e os cafezinhos das paradas, ahhh os cafezinhos…

Este ano, no Caminho Português, os cafezinhos eram servidos com pastel de nata!

A mochila de um peregrino deve ter apenas 10% do peso do seu corpo, eu sempre levo dois conjuntos de caminhada com bermuda, top e camiseta de dry-fit, um moletom fleece, um corta-vento à prova-d’água, 4 pares de meias, boné, óculos, necessáire pequena, toalha de microfibra, sleeping bag pra dormir nos albergues, bota de caminhada, papete e uma roupa mais confortável pra ficar a noite e dormir, com calça de moletom e camiseta. As tranqueiras úteis também são necessárias: carteira, celular, carregador, lanterna de cabeça, canivete, talher de camping, kit anti-bolhas, vaselina, varal, primeiros socorros, garrafa de água. Tudo isso deveria pesar 10% do seu peso. Desta vez, no caminho português, eu trouxe ainda uma calça de chuva e um tênis de corrida.

Foi muito importante comprar este tênis de corrida nos primeiros dias e revezar com a bota de caminhada no caminho português, esta necessidade eu não senti nos caminhos da Espanha, explico porque: em Portugal o caminho passa por muitas estradas asfaltadas! E o amortecimento da bota é bem menor, então quando eu andava até 8km na beira do asfalto começava a sentir uma dor similar a da fasceíte plantar. E quando eu andava em estrada de terra, ou trilha de floresta eu voltava a utilizar a bota, que protege, inclusive o tornozelo e pé dos galhos, troncos, pedras. Desta vez, além de trocar as meias nas paradas (para andar sempre com o pé seco), eu trocava ainda o tipo de calçado às vezes. Estas trocas também eram feitas dependendo do clima: quando calor o tênis permitia o pé respirar mais, quando chovia a bota , com tecnologia Gore-tex, mantinha meus pés seco.

Este foi o principal ponto negativo do Caminho Português: as estradas asfaltadas com carros passando em alta velocidade, principalmente nos primeiros dias saindo de Lisboa. O Caminho começa na Catedral da Sé no centro de Lisboa, onde você também pode retirar sua credencial do peregrino, e vai beirando o rio Tejo para o norte. Os primeiros 4 dias do caminho foram bem sofridos, com muitos trechos em beira de estrada movimentada, poucas belezas naturais e dificuldade em encontrar local para dormir, neste momento pandêmico onde os bombeiros não estão aceitando peregrinos. Portanto, para dormir em uma acomodação peregrina, temos que andar 42km no primeiro dia, o que é MUITO. Há alternativas mais caras para dormir antes, como hoteis fazenda, mas, no meu caso, ao perceber que os bombeiros não me aceitariam, tomei um trem de EUR 1,60 por 20km para a primeira acomodação peregrina que encontrei, de EUR 13, em Vila Franca de Xira. 

Os 3 dias seguintes seguiram bem chatos, sem cruzar nenhum peregrino, com muita estrada e atravessando plantações de milho sem graça, também encontrei poucas paradas de supermercado ou café para abastecer minha água, até que cheguei em Tomar, após atravessar uma pequena floresta. Tomar é um charme! Encontrei outros peregrinos, tirei um dia de descanso pra explorar a cidade, visitei o castelo MARAVILHOSO, e a partir dali o caminho começou a ficar lindo, variando paisagens entre trilhas em florestas, montanhas, castelos da Ordem de Cristo, plantações de oliva e menores trechos em estrada. Outra cidade que valeu a pena um descanso maior para visitar foi Coimbra, 3 dias depois de Tomar.

Portanto, minha recomendação para quem quer fazer o Caminho Português é: não sofra! Tome um trem de Lisboa a Tomar, e comece seu caminho por lá! 

Pouco antes de chegar ao Porto fiz também um desvio. Não é o Caminho oficial de Santiago, mas cada vez mais peregrinos tem usado o mapa offline maps.me e feito este desvio, em Pinheiro da Bemposta, rumo ao litoral para chegar no Porto. Em Pinheiro da Bemposta há um hostel construído em um moinho de pedra que é um charme, o Albergue Moinho Garcia, tem até cachoeira dentro dele pra se refrescar. De lá, é possível atravessar uma floresta e seguir pelo maps.me até chegar na praia de Espinho, evitando assim a zona industrial do caminho oficial para o Porto. De Espinho para o Porto fui beirando a costa e aproveitei pra conhecer a Capela do Senhor da Pedra, outra preciosidade.

Ponto importante para se guiar no Caminho Português: o aplicativo Camino Ninja. Na parte portuguesa, ele é o aplicativo mais completo com albergues e pontos de parada. Já na Espanha usei muito o aplicativo Buen Camino, mas ele não é completo para Portugal. 

Chegando no Porto, cidade que merece até um ou dois dias de descanso, turismo e degustação de vinhos, se for sua primeira vez lá, há dois caminhos para escolher rumo a Santiago de Compostela: o caminho central ou o caminho da costa. Escolhi começar pela costa, pois era mais bonito seguir o Rio Douro até desembocar no mar e subir pelas praias até Vila do Conde, e no segundo dia desviei para o Caminho Central. A ideia já era programada de fazer isso mesmo, para conhecer um pouco de cada caminho, e pelo mapa do aplicativo Camino Ninja tem até a trilha deste desvio, de Vila do Conde para Rates. 

Depois foi só seguir pelo Caminho Central Português, subir a mágica floresta La Bruja (debaixo de chuva, então, e sozinha, foi ainda mais especial), cruzar a ponte entre Portugal e Espanha de Valença a Tui e atravessar o úmido estado da Galícia para chegar em Santiago de Compostela.

Cheguei junto com a segunda onda do COVID na Europa, e ao entrar em Santiago já comecei a escutar os rumores pelas ruas e pelos comerciantes que a cidade fecharia fronteiras no dia seguinte. Era 29/10/2020, esta notícia foi confirmada no jornal do mesmo dia e eu saí de lá, quase como uma fugitiva, às 6h da manhã, pra não ficar presa na cidade. Ufa! Mas valeu, mais um Caminho completo, mais 620km caminhados de Lisboa a Santiago de Compostela. 

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