Reflexões

‘Viajar’ por Gabriel

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” Viajar es marcharse de casa,

es dejar los amigos

es intentar volar

volar conociendo otras ramas

recorriendo caminos

es intentar cambiar.

Viajar es vestirse de loco

es decir “no me importa”

es querer regresar.

Regresar valorando lo poco

saboreando una copa,

es desear empezar.

Viajar es sentirse poeta,

es escribir una carta,

es querer abrazar.

Abrazar al llegar a una puerta

añorando la calma

es dejarse besar.

Viajar es volverse mundano

es conocer otra gente

es volver a empezar.

Empezar extendiendo la mano,

aprendiendo del fuerte,

es sentir soledad.

Viajar es marcharse de casa,

es vestirse de loco

diciendo todo y nada con una postal,

Es dormir en otra cama,

sentir que el tiempo es corto,

viajar es regresar.”

Gabriel García Márquez

Só porque me identifico, apenas porque amo, simplesmente porque é verdade.

Reflexões

Sobre viajar sozinha e fazer amigos

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Uma amiga me perguntou esses dias como é viajar sozinha e estar sempre acompanhada, como são estas novas amizades, onde vivem, como dormem, do que se alimentam … pois bem, estou numa escala de 5 horas durante a madrugada no aeroporto em Kuala Lumpur (aeroporto este que visitei mais que visitei minha avó na vida inteira) e como estou voltando da Indonésia que fui sozinha e fiz quase 40 amigos, resolvi fazer uma retrospectiva dos meus momentos sozinha de Ásia e refletir sobre isso.

Primeiro, temos que respeitar nossa natureza, não dá pra forçar nada, eu principalmente respeito meu ciclo menstrual e percebo direitinho minhas fases mais introspectiva, mais extrovertida, mais fogo no rabo (essa é longa hahahah), mais criativa.  Depois que aprendi a me observar e respeitar minhas fases, não me forço a nada. Então não tem muita regra, mas tem diferentes momentos, posso estar num hostel bombando e estarei no canto lendo meu livro de boa, como também posso estar hospedada sozinha em um quarto de hotel, mas me conectar na rua até com uma capivara e organizar um jantar onde junto todo mundo que conheci naquela semana dos mais diferentes lugares. No Kuala Lumpur, por exemplo, eu estava numa fase quietinha e tava vindo das Filipinas que foi muito relacional, então meus 3 dias de Kuala Lumpur resolvi explorar a cidade sozinha, quietinha, ignorei todo mundo no hostel.

Em segundo lugar, sou tímida. Verdade. Eu me solto muito depois que já conheci a pessoa, mas num geral, primeiro contato, sozinha, sou bem quietinha. Mas nesta viagem estou com muita vontade de conhecer gente, curiosidade, quero viver muitos momentos com as pessoas ao redor que estão vivendo o mesmo momento, então adotei o meme que mais gosto “o não eu já tenho, agora vou atrás da humilhação” hahahaha, portanto puxo papo, sem vergonha! Muita gente não me dá moral, principalmente gente bem novinha, os de 20…devem pensar “quem é essa tia?”, sim gente, porque tenho 34, e fiz o favor de raspar a cabeça antes de vir, então meu cabelo está crescendo como o de uma senhora, às vezes pareço até mais velha do que eu sou sim.  Mas a maior parte das vezes as pessoas estão bem abertas e a conversa flui. Num lobby de hotel nas Filipinas puxei papo com duas inglesas de 19 anos, e dia seguinte tive a melhor balada com elas, jesus, não sei nem como sobrevivi a tantos shots, porque se tem um povo que sabe beber, são os britânicos. Já  os australianos eu evito contato por não entender o sotaque, kkkk, mas no meu aniversário eu estava sozinha num hostel na praia no Sri Lanka e chegaram 5 australianos de 22 anos, cheguei na mesa deles e logo lancei “oi, tô fazendo 34 anos hoje e estou sozinha, posso sentar com vcs?”, basta sorrir, minha gente, eles me incluiram no drinking game deles que até hoje não entendi as regras, mas só eu bebia toda rodada e acabamos na balada. E também tiveram muitas vezes que puxei papo e a pessoa me respondeu seca, não perguntou nada em retorno, me mediu de cima a baixo e ok também, vida que segue, tentemos o próximo, é só não desistir na primeira batalha.

Terceiro: acredito que tudo ao nosso redor é movido pela energia. O que emanamos, atraímos, então se estou bem, feliz, acordo todo dia e agradeço a oportunidade de eu estar vivendo este sabático e esta viagem, acabo atraindo pessoas do bem também! Sabe o termo “o santo não bateu”? Acontece. Às vezes cruzamos pessoas que simplesmente não queremos estar junto, pessoas reclamonas, negativas, essas aí já percebo logo e caio fora, prefiro sempre estar sozinha do que mal acompanhada, principalmente pra viver e visitar estes lugares tão únicos e especiais! E esse negócio de energia é engraçado (pra quem acredita), lembro que há 7 meses eu estava em Auroville, no sul da Índia, sentada em um café tentando colocar este site no ar há horas, mas sofreniiii porque não manjo nada, aí surgiu um suíço, que tinha sentado do meu lado no ônibus numa visita a agrofloresta, ele me viu no café, pediu pra sentar comigo e em 5 minutos meu site estava no ar, ele trabalhava justamente como designer gráfico. A gente atrai o que deseja!

Agora vamos às táticas que adotei aqui nesta viagem, anotem, xuxus:

1) quando chego numa cidade e desembarco, na esteira à espera da mala no aeroporto, ou no trajeto no busão ou no trem já observo cada ser humano ao redor. Quando vejo um mochileiro ocidental mais aberto, sorrindo, observando ao redor, já vou perguntar se está indo pro mesmo lugar que eu, se tem hostel reservado,  se topa dividir o táxi ou se vai enfrentar busão pra irmos juntos e etc. Às vezes já arrumo o próximo companheiro de viagem neste momento, foi assim com um alemão no Sri Lanka, aliás a primeira aula de yoga que dei na vida foi pra ele na praia, no dia seguinte que puxei papo em um trem e dividimos o tuk tuk até os nossos hostels.

2) Aí chego no hostel, às vezes com a pessoa que já me arranjei no meio de transporte, às vezes sozinha, me hospedo em quartos compartilhados de 6 a 8 camas, começo a me instalar e qualquer pessoa que esteja no quarto já me apresento “hello, i’m marina from brazil”. E aqui é Brasil, né? Quem não gosta? Temos esta vantagem competitiva, é falar que é do Brasil, povo já abre o sorrisão, ou a pessoa já foi para o “Rio de janeiRo” (leia isso com sotaque de gringo nos R’s) ou sonha em ir. Daí o assunto já entra no embalo. Foi assim que conheci uma americana no hostel de Bali que ama churrasco, depois de 5 minutos de conversa já fechamos um driver pra ir numa cachoeira, nos juntamos com mais uma inglesa do quarto e saímos pra jantar.

3) Ainda no hostel, tento participar de algumas atividades, os tours que eles organizam, walking tour pela cidade, noite de cinema, happy hour, foi no happy hour do hostel em Gili T na Indonésia, lotado de latinos, que fiz uma turma de amigos, e minha estadia que deveria durar 3 dias, viraram 10 hablando espanhol todo o tempo. No Myanmar, fiz um tour e conheci umas meninas muito incríveis, dia seguinte já fechamos um trekking de 3 dias juntas, e na próxima cidade passamos mais 3 dias de turma, andando de bike, almoçando e jantando juntas. Às vezes dá liga!

4) Agora, se estou numa cidade que não consegui hostel e fui pra um quarto privado, tenho a tática das atrações turísticas, aqui  o foco é outro: mirar pessoas sozinhas ou duplas de amigas/amigos tirando selfies. O truque é se oferecer pra tirar foto deles, depois pedir que tirem sua, fazer uma yoga pose na foto que o povo dá risada e quer imitar depois e emendar a conversa. Eu evito casais neste momento pois eles são mais fechados hahahahah (mas há exceções!!! Conheci um casal mara holandês num trem no Sri Lanka e saímos pra almoçar na espera do segundo trem e conheci outro casal  mara da África do Sul numa mesa de bar na indonésia que fomos pra balada dia seguinte)

5) Se isto é um tabu pra você, é necessário quebrá-lo: ir pra restaurantes, bares e baladas sozinha! Chego, foco em sentar perto de quem tá sozinho também, puxo assunto, às vezes só perguntando o que a pessoa visitou aquele dia ou o que recomenda já gera assunto. Um dia no Sri Lanka eu queria muito ir pra balada e ninguém do hostel animou, fui sozinha mesmo, e dançando sozinha conheci uns espanhóis mara que acabei passando 3 dias juntos (and paquera.). Ah! Na praia também já conheci muita gente estando sozinha, olhando pros lados sorrindo, os gregos nas Filipinas conheci assim (and paquera). Sorrir é importante! Foi sorrindo na trilha do Everest que eu estava fazendo sozinha com um guia, que uns americanos vieram puxar papo, e acabaram virando minha turma pelos 12 dias de trilha (and paquera também, por que né?). Ok, vou parar de falar de paquera e focar nos amigos.

6) Este instagram mara que deus nos deu, usem! nunca imaginei que eu fosse ter tanto amigo virtual da sala de bate papo da uol. Sério, cada um que me manda direct no insta eu respondo, alguns estão na mesma cidade, ou vamos nos cruzar nos próximo destino, aí marcamos de nos encontrar. Ou algum amigo que apresenta outro pelo insta, bato um papo e encontro. Facebook também, na Índia eu entrei no grupo mochileiros do face e achei 2 brasileiros fazendo o mesmo itinerário que eu pelo Rajastão, me juntei a eles por 10 dias, olha, a viagem não teria sido a mesma sem eles! O povo também usa o site do couchsurf pra hangout, tem a opção de hospedagem gratuita no couchsurf, mas também tem esta opção de apenas se conectar com quem está na mesma cidade e marcar um café ou um tour, eu nunca usei, mas sei que existe.

7) Esta tática mais velha, mas pra mim tem apenas 1 semana porque nunca tinha usado antes: usar o tinder em viagem é mara! Muita gente usa em viagem com um intuito diferente, já coloca no profile “estou em bali até o dia 10, se estiver afim de uma praia junto, um almoço, uma cerveja, marcamos”, mais de boa sem tanto apelo sexual. Montei meu perfil e usei por um fim de semana em uma praia que eu estava sozinha em Bali, funcionou, já mandei de cara “estou sozinha, queria ir na balada domingo”e o brasileiro mara já mandou “vem com a minha turma do hostel” e ainda nos encontramos na praia, rolou date, e ainda brasileiro que eu tava com tantas saudades, mara!

8) Esta é importante: nunca deixar passar batido um brasileiro, nunca. Sabe quando você escuta  português lá do outro lado da calçada, corre lá e grita “ae brasil!”. Melhores pessoas!  Principalmente pra mim que estou há muito tempo longe de casa, amo conhecer brasileiros aqui. Não são todos que são abertos, principalmente os  que estão em férias curtas, estes estão mesmo é fugindo dos brasileiros, é batata: te dão um sorriso amarelo e não retribuem uma pergunta que vc fizer…mas se for outro viajante de longa data como você, ou alguém que está morando naquela cidade, é fervo certo, em 5 min já trocamos whatsapp, face, instagram, já temos selfie e descobrimos um amigo em comum no brasil que já mandamos aquele áudio “amigaaaaa você não acreditaaaa quem tá do meu lado”. Foi assim no Everest, sentei pra ver um filme numa das paradas de descanso da trilha e escutei dois brasileiros, ficamos amigos, e um foi meu companheiro de alguns jantares em Katmandu depois, e o outro almocei junto em Singapura um mês depois. Já em Auroville, no sul da índia, escutei uma brasileira na rua, ficamos amigas e ela me me colocou em contato com um grupo de brasileiros morando na Índia, que só por ganesha, nunca me senti tão em casa com eles, até balada funk rola quando estou em Delhi.

9) Agora, sobre a máxima “bora beber que eu nunca fiz amigo comendo salada” aqui, não é verdade. Sim, é mais fácil fazer amigo bebendo no hostel ou no bar, mas quando comecei este sabático me propus a reduzir muito o consumo de álcool, pra ajudar na minha evolução no yoga e na meditação, mas também porque beber encarece qualquer viagem, então me propus a beber 1 vez ao mês, e em países muito festeiros acabo bebendo só aos sábados ou domingos. Mas aprendi a estar na festa, no bar, no pub, bebendo uma água de coco, um suco, um café, e me relacionar com as pessoas da mesma forma, sem gastar tanto e sem ressaca dia seguinte. Comecei a fazer isso antes mesmo de viajar, meus últimos meses em São Paulo continuei frequentando as mesmas festas (e muitas gratuitas) bebendo apenas água, e fui feliz.  E sim, na Índia fiz amigos comenda salada, compartilhando mesa de restaurante vegetariano. Rishikesh na Índia veio pra me provar isso, é uma dry city (proibido o consumo de álcool) e onde eu conheci mais gente, nos restaurantes, nas aulas de yoga, na fila pros satsangs do Prem Baba, num curso que fiz, na dança circular e até na beira do rio. Tá vendo, sabático tá aí quebrando paradigmas!

Fato é, nestes 9 meses de Ásia fiz amigos apenas quando eu estava sozinha, todas às vezes que me encontrei com alguém que veio do Brasil pra fazer uma parte da viagem junto, foi mais difícil conhecer novas pessoas. E pra mim, a beleza desta viagem não está só em conhecer lugares, mas em conhecer as pessoas, as diferentes culturas, religiões, histórias de vida e pontos de vista. Foi num jantar com a israelense em Canggu e em outro jantar com a americana em Colombo que me vi no outro, que percebi não ser a única a largar a carreira corporativa e explorar o mundo, não sou a única a buscar meu propósito e uma nova carreira … nestas conversar empáticas crescemos ainda mais. E pode até ser que eu nunca mais veja estas pessoas na vida, mas elas fizeram diferença naquele momento. Outras, com certeza ainda verei, aqui mesmo fui reencontrando muita gente de país em país, e este mês saio da Ásia com uma listinha de gente pra visitar na Europa. eba!!!

Estas conexões não são lindas?

Reflexões

o nepal surgiu por algum motivo aqui

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O Nepal passou pela vida ainda preciso descobrir o porquê, deve ser pra testar minha paciência, rever minha comunicação, pra eu engolir meu choro, pra eu deixar de ser esquentada ou pra valorizar as diferenças culturais, afinal o que seria do mundo se todos fossemos iguais?

Antes mesmo de vir pra cá, eu estava em contato por WhatsApp com um dono de uma agência, recomendado por uma amiga, fechando o Everest Basecamp Trekking, e tudo que ele dizia no WhatsApp era “Don’t worry”, eu perguntava o que estava incluso no pacote do Everest, “Don’t worry”, perguntava o endereço do hotel que ele me hospedaria, “Don’t worry”, até um dia antes de eu embarcar, e confirmar se ele me buscaria no aeroporto, “Don’t worry”…velho, você nem perguntou que horas é meu vôo, vai me buscar como?

Não diga pra uma escorpiana “Don’t worry” ou “Calma”, I worry! Gosto da comunicação mais clara, mesmo que a Ásia esteja me transformando…

Enfim, não estava segura com ele, cancelei tudo, reservei um hostel pras primeiras 4 noites e resolvi que fecharia o Everest quando estivesse em Katmandu, mas outra amiga me recomendou outro dono de agência e o cara me respondeu lindamente em um inglês perfeito, com informações completas de Everest, Butão, e ainda fotos do hostel que ele acabou de inaugurar, gostei do cara e fui conhecê-lo no primeiro dia, no meio a outras agências que passei pedindo informações. Sim, ele é muito gente boa, fechei o trekking de 12 dias do Everest com ele, a viagem de 3 dias pro Butão e ele ainda me deu 3 noites no hostel.

O único problema, como todo bom nepalês ou indiano que se preze, é que a cada 10 palavras que ele troca comigo, 4 são “me recomenda no tripadvisor?” Porque aqui é assim, você compra uma água numa barraca de rua, “me recomenda no tripadvisor?”, já nem ligo mais, sorrio e digo “sure!!”. Com esse cara é igual. Deu ruim com o guia que ele me arrumou pro Everest, já conto o porquê, mesmo assim voltei, expliquei pra ele todo o sufoco, ele me ouviu mais ou menos, pois estava escrevendo no celular, mas ao final “I’m so sorry, but …me recomenda no tripadvisor?”…velho,  o guia que você me arrumou deu ruim, vou te recomendar como? Me ajuda a te ajudar! Mas a viagem ao Butão foi um arraso, guia e motorista excelentes, ótimas pousadas, este sim recomendarei no tripadvisor!

Este cara também quer ser simpático o tempo todo, e aí fica pior que brasileiro quando diz “vamos marcar!”, todo dia ele manda mensagem dizendo “Te convido pra jantar hoje a noite, te mostro a cidade”, como bom anfitrião, mas chega a noite e ele manda mensagem que está enrolado com cliente, se podemos remarcar…meu bem, eu já me arrumei no meu restaurante favorito, passo todas as noites lá com os gringos todos, relaxa! Um dia deu certo de irmos jantar, levei uma amiga, marcamos de ir na agência dele antes, e quando estávamos pra sair pro restaurante, chegaram clientes pedindo informações de passeios, ele chamou uns empregados, falou em nepalês, e de repente os caras trouxeram a cerveja e dois pratos de momos, ele entregou pra mim e minha amiga, e lá jantamos, na mesa da agência, enquanto ele atendia os clientes na nossa frente..…ai gente, é o tipo de coisa que é o tal negócio… só rindo mesmo! Isso não é um jantar agradável!! Enfim, agradecemos, comemos e vazamos.

Episódio 3: o guia do Everest. De cara quando desci no aeroporto de Lukla achei ele bem novato, falava pra dentro e não tinha bom inglês, porém, seríamos apenas eu e ele pelos 12 dias de trilha, achei melhor não reclamar. Logo fui fazendo amigos pela trilha, na parada do almoço, na parada do jantar, até paquera surgiu no começo da trilha e durou os 12 dias (sim, dei uns pegas no Everest porque sou dessas), achei bom ter feito estes amigos porque eles estavam fazendo o mesmo roteiro nos mesmos dias que eu, assim eu tinha gente pra conversar e me divertir, já que meu guia era quietão. Ele também não tinha mapa, não mostrava o itinerário, e quando fui ficando resfriada e com sinusite vi que nem tinha a caixinha de remédios que deveria ter…não era um guia muito profissional e  fui pegando bode do nível de serviço. Até que, na volta do Everest  no 10o dia de trilha, cruzei com o paquera que reforçou o  combinado do primeiro dia: se tudo desse certo pros dois, nos encontraríamos no pub de Namche Bazar no dia 10 a tarde. Mas neste dia 10 algo aconteceu com meu guia que surtou,  sem eu ver ele entrou no café que o paquera estava com o grupo, enfiou o dedo na cara dele e falou “Não chame a Marina pro pub, não fale com ela, se afaste dela”…. Mais tarde no pub o paquera me contou o episódio e o grupo todo dele estava assustado com a agressividade do meu guia. Não entendi nada,  talvez ele estivesse tentando evitar que eu bebesse já que eu estava doente… mas gente….tenho 34 anos, pelo amor…sou responsável por mim, ele nunca deveria ter falado assim com um amigo meu ou com qualquer pessoa, ultrapassou todos os limites. Assustei! Neste dia 10 falei com o dono da agência e chequei se eu poderia dispensar o guia antes e me hospedar onde eu quisesse na próxima noite, que já estaríamos na última cidade antes do avião. Como o dono da agência  confirmou que tudo bem, fui tranquila no último dia de trilha sem tocar no assunto. Mas sei lá o que se passa com este povo, quando  dispensei o guia e disse que procuraria hotel por mim, o cara surtou, começou a me seguir, falava em nepalês com cada dono de pousada que eu entrava e todos me recusavam um quarto depois que ele falava algo que nunca vou saber o que é…até que me senti acuada e aceitei ir pra reserva dele, fiz um teatro pra dispensá-lo, pois comecei a achar a situação perigosa, e ele foi embora, gritando que o “Nepal não precisava de turistas como eu”…oi??  a comunicação neste país já me dá um certo bode, aí ainda vem um cara destes surtado cruzar o meu caminho!

Episódio 4: após alguns dias em Katmandu, 12 dias de trekking ao Everest Basecamp e 3 dias de Butão, deixei minha última semana de Nepal dedicada a um voluntariado que me candidatei pelo Worldpackers. O conceito do Worldpackers é de curtir uma viajem e trabalhar algumas horas por dia em troca de hospedagem e às vezes também alimentação, tornando a viagem mais barata. Eu já tinha usado em uma hostel no Sri Lanka e tinha dado super certo! Aqui eu queria continuar curtindo Katmandu, então vi que se trabalhasse aquelas 5 horas por dia no orfanato que me candidatei, teria quarto, café, almoço e jantar de graça, ainda teria tempo a tarde pra curtir e faria uma coisa legal, que é ajudar crianças pelas manhãs. Mas….o voluntariado deu ruim! Primeiro que não era em Katmandu como dizia o site, era longe ‘paporra’, no meio do nada na periferia, onde nem um restaurante por perto eu achei, caso desse ruim alguma das refeições inclusas, e deu, logo de cara o responsável do orfanato disse que ia ver se eu poderia almoçar na escola onde as crianças estudavam…dia 1 fiquei sem almoço, dia 2 ele pediu pra eu negociar meu almoço na escola…vai vendo! Já o café e o jantar eram no orfanato com as crianças, mas pobres crianças, era arroz com lentilha nas duas refeições, preparados por uma cozinheira que servia o arroz pegando com a mão e a água de tomar era direto da torneira, …logo pensei “será que após 7 meses de Ásia finalmente aqui terei minha primeira diarréia?”

A dinâmica do orfanato era assim: 10 crianças que acordam 6 da manhã, fazem lição até às 9h, vão pra escola, ficam até às 16h na escola e voltam pra fazer lição no orfanato das 4 às 7 da tarde, quando jantam e se preparam pra dormir. Eu fiquei hospedada no quarto de uma família perto, entre a escola e o orfanato. E o responsável pelo orfanato pediu pra eu ajudar nas lições da manhã, nas da tarde e ainda dar aula de inglês na escola…até aí pensei, isto daria 13 horas de trabalho por dia, ao invés de 5, né? Se bem que longe de tudo eu ia querer tempo livre pra que?

Mas o que mais me incomodou, logo no primeiro dia, é ele me pediu uma ajuda financeira, que não estava combinado…falou uma vez, duas, três e só quando eu concordei que doaria 50 dólares pro projeto, ele sossegou. E sossegou mesmo! Virou as costas, disse que tinha que sair e me largou lá, meio que sem entender por onde eu começaria, não me apresentou pras crianças, disse que eu tinha que voltar na escola e negociar com o diretor minhas aulas de inglês lá. Uma confusão!

No primeiro dia a tarde eu já estava sem almoço, ajudei as crianças nas lições, jantei com elas e fui pro meu quarto na outra casa dormir. Dia seguinte eu estava lá às 6 da manhã, onde comecei o dia delas com práticas de yoga, elas eram fofas, por elas eu teria continuado…mas fui pra escola, onde o diretor me deixou mais de uma hora numa sala esperando, e ele entrava e saía repetindo “você quer dar aula de inglês né? Vou tentar arrumar uns alunos pra você”…eu só pensava “me candidatei pra uma vaga para dar aulas de inglês, como assim esse cara não estava me esperando e parecia agora estar fazendo um favor de me arrumar uns alunos?”, tentei explicar pra ele, mas ele não entendia bem inglês. Não consegui mais falar com o responsável do orfanato, fiquei sem almoço de novo na escola (pensa numa pessoa que fica mal humorada sem comer), voltei pro quarto que eu tinha e eu deveria voltar às 16h pra buscar as crianças e ajudar nas tarefas no orfanato.

Mas pensei, pensei, estava extremamente incomodada com a situação, me candidatei a dar aula de inglês e não existia este trabalho, as refeições não estavam mesmo inclusas e o cara ainda me arrancou uma grana e sumiu…o bom de estar em sabático é que somos completamente livres, diferente de estar num trabalho e ter que encarar aquela reunião chata…aqui, sinto que “não sou obrigada!”, se tá ruim, vaza, ainda mais se fogem do combinado. Arrumei meu mochilão, andei andei andei até achar um ônibus que viesse pro centro da cidade, e fui embora. Mandei mensagem pro cara explicando tudo que ele estava fugindo da proposta do Worldpackers, mas pela resposta dele, horas depois, parece que ele estava mais preocupado com minha doação mesmo. Uma pena.

Aí no meio de tanta confusão de comunicação eu me pergunto, sou eu? Dou azar? Crio expectativa? Ou o Nepal é uma cilada mesmo, Bino? Eu não sei, achei que estava mais que batizada após 3 meses de Índia, mas por aqui, tudo se superou, Nepal veio pra testar minha paciência, me fazer pensar se o que eu considero correto é correto pro outro também, pensar na ética e nas malandragens…E dá-lhe Ásia!

Reflexões

nem tudo são flores

73F0C0F7-E6F8-4627-8BD4-AAB93FD3C96C.jpegFaltava coragem pra postar uma fragilidade, acho que muito por medo do julgamento “nossa, mas ela tá viajando o mundo e tá reclamando?”…sim…quando viajamos nem tudo são flores….
Estes dias estive mais vulnerável, mais ainda com a tpm e após 21 dias de uma jornada com yoni egg após o #poderesdofeminino que mexeu muito comigo (dá um google aí, meu bem, pra entender), mas estar vulnerável e se entregar a estes sentimentos sem máscaras no fundo é tão bom, né?
E foi lendo o depoimento de outra viajante no instagram que resolvi encarar este sentimento, terminar o texto e postar…quem sabe, assim como ela me trouxe um sentimento de #tamojunto, eu também não desperte este sentimento em tantos outros.
Viajar sozinha na Ásia exige FORÇA. Nestes 6 meses passei por lugares paradisíacos, lugares de forte energia, hostels sujos, coincidências, alunos me aguardando pro yoga, sonhos, confissões, novas amizades, pobreza escancarada, amores de verão, fim de romance com dor no coração, solidão, medo, festas, fuga de indianos ‪de madrugada‬, alergias, pulgas na cama, sorrisos, cremações a olho nu, abraços em dogs de rua, comida boa, muita pimenta, queimadura séria na perna, paisagens de tirar o fôlego, choques culturais com diversas religiões, dificuldade de comunicação, cansaço do mochilão nas costas e auto-conhecimento puro.
E apesar do grande movimento, escolhi ficar comigo mesma por 7 dias em uma praia no Myanmar na baixa temporada e, apesar do lindo lugar, ficar comigo mesma, meus sonhos e insights foi difícil, mas necessário. Uma semana depois, enfrentei 19 horas em um ônibus pra chegar na capital e tive o pior atendimento em hostel que já tive na vida, fui muito destratada por uma pessoa amargurada, isto em um hostel sujo onde dei de cara com um rato na calçada ao chegar….No meu estado mais vulnerável, às 3 horas da manhã, o choro veio, junto do cansaço e da solidão.
Tem hora que o perrengue é forte, a saudades de casa só aumenta, vontade de estar na minha cama e dormir abraçada com o meu cachorro, comer a comida da minha mãe de domingo e encontrar os amigos no fim do dia.
Mas as fases ruins passam e nos fortalecem, e seguimos explorando o mundo e a nós mesmos!

Reflexões

6 meses de Ásia!

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6 meses de Ásia completo hoje, dia 04 de outubro de 2017 eu chegava na Índia pra esta jornada de Ásia que duraria 6 meses, já cheguei com a passagem de volta comprada pro Brasil dia 04 de abril…porém, há 2 meses atrás mudei a rota e a passagem de volta para junho…

6 meses já se passaram! 6 intensos meses em 5 países asiáticos, com uma escapadinha de 15 dias pra Austrália bem no terceiro mês.

6 meses vivendo as mais diferentes culturas e religiões, visitando templos budistas, hinduístas, jainistas, mesquitas, comendo o melhor Palak Paneer na Índia e sofrendo pra achar algo vegetariano nas Filipinas…6 meses passando de hostel em hostel, divindindo quarto com holandeses, alemães, americanos, chilenos, franceses, recebendo sorrisos pela rua… Mingalabar! Namastê!

Peço informação e o que mais escuto é “i don’t know”, não importa o país … escutei mais “i don’t  know” aqui do que em todas as aulas de inglês somadas da minha vida!

A Ásia me entrega tanto, tanto aprendizado, cultura, sabores, sentimentos, até uma tatuagem que me surgiu na cabeça na noite de Mahashivaratri, entoando mantras pra Shiva e que o tatuador em Rishikesh, na Índia soube traduzir tão bem em uma mandala com a flor de lótus, o sol e a lua.

Sento no sofá do hostel em Myanmar com meu amigo lady boy da recepção, bed bugs atacam meu braço, já estou acostumada, cada lugar eh um inseto diferente. A comunicação é difícil… mas o sorriso e mímica resolvem, pelo que entendi, eu ajudei ele a escolher um filhote de cachorro pela internet. O bichinho deve chegar amanhã.

Fiz tantos amigos aqui! Saudades de cada um! A lista de contatos no celular se expande “Heleanna Barcelona”, “Cindy Paris”, “Tom Londres” e um monte de gente me oferecendo estadia quando eu for pra Europa. Faço um FaceTime com alguém especial nas Filipinas, saudades e coração apertado, troco msgs com as amigas na Índia, mais gente em comum que se conheceu por lá, este mundo é enorme e bem pequenininho.

Cheiro de sardinha frita no andar de baixo, sigo há 7 dias na mesma praia no Myanmar, Ngapali, acabei ficando mais aqui pois outros destinos que eu ia estão inseguros por ataques raciais, enjoa a mesma comida por 7 dias seguidos, tentei um jejum hoje pra limpeza do corpo, não consegui. Também não é o momento, estou no meio de um processo com Yoni Eggs, ando nostálgica, reclusa, trabalhando vários sentimentos.

Mas pelo menos estou na praia, posso usar short e biquíni, não preciso mais cobrir ombros e pernas em um país hindu. Faz um calor!!

Ásia… a internet falha, dependo do wifi do hostel que não é bom, queria tanto fazer meu IR! Querer não queria, mas preciso… quem sabe semana que vem no Nepal. Falando em Nepal, a comunicação por whatsapp torna-se impossível com o guia que me levará ao Everest, melhor resolver por lá, com mímica…

Ásia…amanhã tenho um ônibus de 14 horas pra próxima cidade, lembro-me de cada trem, ônibus e tuk tuk que tomei, achei que eu ia morrer esmagada no trem no Sri Lanka, mas sobrevivi, e quando peguei o metrô vazio e com ar bombando na Malásia? Luxo e glamour! Na Índia os trens foram os mais longos, chegando a 15 horas, mas fui dormindo na caminha.

São 19h e os mosquitos atacam, melhor entrar, no quarto, sem wifi, volto ao livro “Half the Sky” e o choque sobre o tráfico sexual de tantas mulheres no mundo, principalmente aqui, na Ásia.

Reflexões

amores sabáticos

amores

Porque a simples frase “fico aqui até sexta” faz o relacionamento, o casinho ou a paquera que poderiam levar semanas ou meses pra acontecer se comprimir pro espaço de 72h? E tudo é vivido nestas 72h, todo um relacionamento, dormir e acordar junto, todas as refeições, passeios, balada, histórias de infância e opinião política….e depois cada um segue pro seu próximo destino e FIM. Ficam as lembranças e algumas palavras aprendidas em alguma língua nova.

Costumam ser assim as paixões de viagem.

Viajar sozinha é estar aberto a conhecer as pessoas mais diferentes e as mais iguais a você, é fazer amigos e ter romances. Mochileiros pulando de hostel em hostel encontram naquela cerveja de fim de dia seu novo “affair”, que vira romance no dia seguinte, que vira ex no terceiro dia pois cada um segue pra sua próxima cidade. Os “dates” às vezes nem são no fim de tarde, são na trilha durante o dia, ou até mesmo na hora que acordamos, saímos na varanda e já damos de cara com o boy novo e interessante, engatamos a conversa antes mesmo do café da manhã, e quando vemos, já passou o dia inteiro de conversas e trocas de olhares e você já está no “date” sem nem perceber, sem se maquiar, sem nem contar pra amigas que tem carinha novo, quando vê, já está envolvida no romance, que em 2 dias vai acabar.

Em 72h já sabemos quanto de açúcar colocar no café dele e ele sabe qual bebida pedir pra você no jantar. Temos piadas internas, não temos frescura, não temos segredos, só sabemos o essencial um do outro, só vivemos um lado do relacionamento da forma mais intensa. Não sei dizer se é só o lado bom, ainda falta muita coisa, mas o fato é que em 72h não chegamos à crise, à briga, à decepção, só sabemos que terá uma despedida.

No vôo agora da Malásia pra Índia assisti ao 4o episódio da 4a temporada de Black Mirror, que de uma forma ou de outra, me lembrou muito essa situação das paixões de viagens, romances de férias ou como queira chamar. E se soubéssemos exatamente quanto duraria cada relação? Neste episódio, os casais sabem pelo aplicativo quantas horas, dias ou meses terão de compatibilidade com a pessoa que estão conhecendo, e quando o tempo se encerra, se despedem e cada um vai pra um lado… apesar do episódio ser triste, me lembrou muito o que vivemos em viagens.

Viajando é assim, sabemos quanto a relação vai durar. Claro que alguns marcam mais, que seguimos o contato, que até marcamos de nos encontrar em algum outro país em algum outro momento. E quem sabe algum dia alguma desta paixões não vire um verdadeiro amor pra juntar as escovas de dentes na mesma nécessaire do mochilão!

Sigo dizendo que o melhor do sabático são as pessoas: os amigos, os amores, a turma inteira que juntamos em determinada cidade. Pode ser que um dia eu olhe pra trás e nem lembre o nome da ilha ou cidade que visitei, mas com certeza lembrarei com quem estive. Porém a pior parte também são as pessoas, pois é muito difícil se despedir de quem nos conectamos tanto e que entrou na nossa não-rotina naquele curto espaço de tempo.

Mas vida que segue e ficam as melhores lembranças, não é mesmo?

Reflexões

mudei a rota. de novo.

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Há 8 meses atrás eu começava meu período sabático, o plano era viajar por 2 anos, eu tinha uma lista de coisas pra fazer, cursos pra estudar, lugares pra visitar. No começo decidi que eu passaria 6 meses no Brasil com visita aos Estados Unidos, 6 meses na Ásia com natal e réveillon na Austrália, 6 meses fazendo voluntariado na África e outros 6 meses na Europa visitando países e comunidades que ainda não conheci por lá.

O que eu não sabia, é que planos assim, formatadinhos, não se concretizam!

Comecei a primeira etapa, e da lista de coisas que eu queria fazer, que iam de conhecer o João de Deus a ir ao Burning Man, de fazer o  Vipassana ao Circo, mudei n vezes, cumpri metade da lista, incluí outras coisas, risquei outras, mas acabei ficando só 4 meses por lá…vim pra Ásia, queria começar logo meu curso de Yoga na Índia.

A Ásia é apaixonante, esta é minha segunda vez aqui, a primeira foi há 3 anos quando vim de férias por um mês e visitei Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã. Desta vez estou direto desde 4 de outubro, com uma lista de países que quero conhecer, porém em 4 meses já fugi da rota 2 vezes e fui pro Sri Lanka e pra Filipinas que nem na wishlist estavam! Comecei me planejando super, sabia dia-a-dia onde eu estaria em novembro e dezembro, depois aprendi a viajar mochileira-hippie-cigana e abandonei os planos de vez, cheguei ao cúmulo da semana passada ter um voo pra uma ilha nas Filipinas sem ter nem onde dormir e nem saber pra qual praia ir após a chegada ao aeroporto. Planejada que eu era, foi uma vitória pra mim este desapego todo. Agora aprendi que o melhor mesmo é estar livre, e os encontros da vida e o trip advisor te dirão pra onde ir.

Vim pra Ásia com passagem de ida e volta (mais barato do que comprar só uma perna), e tinha um voo programado pra voltar pro Brasil dia 04 de abril pra uma visitinha rápida antes de embarcar pra Europa, mas quando pedi o visto da Índia de 6 meses, me deram de 1 ano…veja só…e estou gostando demais daqui, dos lugares, das pessoas, da comida, a Ásia é mesmo mágica! E pra sair daqui dia 04 de abril, eu só teria mais 2 meses pra conhecer e fazer tudo que ainda quero, então…

Então ontem mudei a rota de novo, ontem mudei minha passagem, não volto mais em abril (desculpem amigos, apesar das saudades), a princípio volto fim de junho, completando 9 meses de vida cigana na Ásia, nunca imaginei! Entre cursos em ashrams, quartos compartilhados em hostels, trabalho em troca de hospedagem, mergulhos, dar aula de yoga, receber aula de yoga, sujeira na rua, comida apimentada, calor de derreter, sorrisos no rosto, praias paradisíacas, voos baratos da Air Asia, mochilão nas costas, pessoas e mais pessoas, aqui completarei 9 meses em junho.

Não passarei mais abril em São Paulo como antes planejado, não farei o Caminho de Santiago na Espanha em maio, talvez nem pra África eu vá, a ideia agora é estar no Brasil durante a copa (e tratar este momento como um carnaval), visitar todo mundo que morro de saudades no Brasil entre julho e agosto e embarcar pra Europa em setembro começando pelo Caminho de Santiago…mas nada definido, apenas ideias rascunhadas, que poderão ser mudadas o tempo todo.

E aqui seguimos, mudando a rota o tempo todo, na viagem, no sabático, na vida!

Reflexões

Se der medo, vai com medo mesmo

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Hoje percebi que não tenho mais medo de nada, tomando um expresso de manhã, após acordar atrasada porque sem querer desliguei o despertador do celular, sair correndo com a mochila toda aberta pra fazer checkout de um hostel e checkin em outro, antes de ir pro ponto de encontro do barco onde eu faria 3 mergulhos em naufrágios, parei pra tomar o expresso no caminho e acordar direito, e não senti frio na barriga de mergulhar…

Sim, eu tinha medo de mergulhar, e pra falar a verdade, mergulhar, assim como esquiar, nunca me atraiu muito, mas há um ano atrás, do nada, resolvi entrar num curso e tirar a certificação PADI open water, e no mar em Paraty na hora do checkout deu medo. E um mês depois eu estava com a mesma turma da escola embarcando pra Noronha pra uma semana de mergulhos. Deu medo.

Deu medo porque era tudo muito novo pra mim, por que tenho problema pra equalizar a pressão nos ouvidos e enquanto todo mundo desce em 3 minutos eu desço em 12… deu medo porque ainda to aprendendo, tinha medo de pular a parada de segurança, de tudo.

Mas hoje, apesar de estar completamente sozinha, nas Filipinas, numa agência x sem referências, sem nenhum conhecido pra segurar minha mão enquanto eu lentamente equalizo, hoje não senti medo. E mesmo assim, chegou uma mensagem de encorajamento por direct do instagram: “Lembre-se de respirar e soltar todo ar enquanto sobe”, obrigada Fabi, que convivi apenas há um ano atrás em Noronha, mas que hoje nos conectamos semanalmente através do insta mesmo, nesta grande jornada que é o auto-conhecimento. Como li num livro do Prem Baba, cada um buscando sua consciência chegamos em uma consciência coletiva. Awaken love!

Eu também morria de medo de montanha russa, só porque o único parque que eu conhecia era o Hopi Hari, e uma vez dei uma semi-desmaiada na queda livre do elevador (vergonha), mas precisava encarar umas montanhas russas e tinha o sonho de conhecer a Disney, então esta foi a primeira viagem do meu sabático: Orlando. Encarei todas as montanhas russas dos parques da disney, bush gardens, see world, universal, algumas até na primeira fileira quando meus amigos, que carinhosamente chamamos de “pepes”, topavam, algumas até repeti… pronto! Medo vencido! E alguns meses depois, após Burning Man e umas 24h de loucura em Los Angeles, encarei de novo as montanhas russas do Six Flags, aluguei um carro, dirigi até lá sozinha e passei o dia sozinha no parque berrando em cada brinquedo.

Ainda refletindo sobre medo e coragem, lembro que fui super acolhida no Natal por brasileiros que vivem na Austrália, e contando meus relatos do sabático, alguém me falou: que coragem a sua! Cara, você largou tudo no Brasil pra começar do zero na Austrália, que coragem a SUA. Coragem  é deixar pra trás amigos, família, carreira e mudar pro outro lado do mundo, às vezes pra um cargo inferior ao que tinha no Brasil, ou ir trabalhar nos chamados “second jobs” na Austrália buscando ter qualidade de vida e contato com a natureza. “Second” job pra quem? Pra mim, se você tem a possibilidade de surfar de manhã, trabalhar algumas horas por dia, pegar praia fim do dia, pagar preços justos por um bom apartamento e uma boa refeição, viajar, ser feliz…talvez o conceito de “second” job seja porque eles colocam a vida em primeiro lugar, e o trabalho em segundo, e na loucura de São Paulo quantos não colocam o trabalho em primeiro lugar e saem de casa ainda no escuro, voltam 13 horas depois no escuro de novo, comem comida congelada, trabalham de final de semana, não tem tempo….mas este papo de carreira deixamos pra outro momento.

Voltando ao medo,  lembro que a última vez que tive muito medo mesmo foi antes de embarcar pra Índia, fui tão desplanejada que nem sabia o que fazer em Delhi, e dias antes do embarque resolvi pesquisar,  li blogs e relatos que me aterrorizaram sobre mulheres sozinhas na Índia, casos de estupro, assédio, perigos desvelados de uma cultura reprimida. Mas eu fui com medo mesmo. E em um jantar com amigas dias antes, que estávamos falando desse medo todo, a Fer minha amiga conhecia alguém que conhecia alguém que conhecia o Junico do vemcomigoparaindia, aí pronto, né? Ele foi meu guia no meu primeiro dia em Delhi, e logo vi que não era todo aquele perigo, e tomei coragem pra ficar sozinha em tantas outras cidades naquele país maravilhoso que voltarei em fevereiro.  Sim, os homens te encaram, mas se posiciona, mulher,  e pronto. Sim, passei perrengue, voltando de um jantar com uma amiga a noite em Pushkar fomos seguidas por dois caras mas o medo e a coragem nos fizeram correr feito maratonistas e chegamos na nossa guesthouse salvas, apesar de eles terem corrido atrás.

Agora acho que pra vencer todos os medos mesmo falta um bungee jump, e já que cortei a Nova Zelândia do roteiro (porque de vez em quando a gente tem que olhar pro budget sim), busco opções de bungee jumps daqueles nonsense em outros países, aceito sugestões!

E se der medo, vai com medo mesmo.

A coragem, Reflexões, Sabático

A coragem do sabático

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Eu fiz tudo “certinho”, estudei em escola tradicional de São Paulo, fiz cursinho pra passar em faculdade pública, terminei a faculdade com algum atraso, afinal a vida de república no interior tem muitos atrativos que fazem a gente perder o foco dos estudos… Mas ainda assim fiz intercâmbio, trabalho social na Amazônia, estágio, me formei e passei em processo de trainee, passei por 3 empresas, fiz MBA, alguns cursos de extensão, fui sendo promovida…Trabalhava cada vez mais estimulando o consumo mas em alguns momentos me dava um “tilt”, me perguntava se era isso mesmo que eu queria pro mundo ou se eu estava apenas na minha zona de conforto, me sentia cada vez mais afastada de mim mesma, seguindo um fluxo da sociedade e aí vinham as terapias alternativas: retiros de yoga e meditação, constelação familiar, mapa astral, leader training, terapia convencional, parecia que eu estava sempre buscando alguma resposta a alguma pergunta que eu não sabia nem qual era. Só estava desconfortável em seguir um flow de carreira que todos ao meu redor seguiam sem eu nem saber o porquê.

Então há uns anos atrás comecei a pensar em tirar um sabático, uma pausa na carreira pra viajar, conhecer novos lugares, pessoas, profissões, estilos de vida, mas nunca veio aquele momento de largar tudo, porque é como um vício, a gente vai ganhando mais e mais, comprando mais e mais, se comprometendo em cada vez mais relações.

Faltava coragem.

Porém há cerca de um ano atrás, no trabalho, durante uma palestra do filósofo Cortella, ele mencionou “pneuma”, aquela energia vital que deveríamos sentir ao levantar todo dia da cama e trabalhar no que estamos nos dedicando, e após 5 anos em uma empresa que eu gostava muito de trabalhar, eu não sentia mais este pneuma. Então este ano vieram aqueles episódios que alguns chamam de coincidência, mas eu chamo de sincronicidade. Li na revista Vida Simples sobre o livro Sabático 45 que a autora Heloisa havia parado a carreira pra passar um ano na Irlanda e como meu pai estava indo pra lá visitar meu irmão, achei que teriam dicas da Irlanda e comprei pra ele. Mas não, o livro nos guiava sobre tirar um sabático, do ponto de vista prático e emocional, e de repente eu estava com este guia e esta vontade na mão, e um desejo enorme de conhecer a Índia, comecei a pesquisar sobre cursos de yoga pra passar uma temporada lá e decidi que a data seria outubro pois é o melhor clima pra Índia e tempo suficiente pra eu me organizar, vender coisas, alugar o apartamento, sair do trabalho…

O trabalho… como diz uma amiga, energeticamente eu já não estava naquele trabalho, porque quando um ciclo se encerra a energia muda, e quando queremos muito algo o universo dá aquela ajudinha. Em uma reestruturação da empresa, meu desligamento veio 4 meses antes do meu pedido de demissão. Lógico que ser desligada em um ano de tanta crise política e econômica no país não deveria ser tranquilo, mas foi. Foi porque eu não acredito que devemos ficar onde não estamos felizes. E foi aí que a coragem veio! E o tão esperado sabático saiu do papel.

O sabático veio em forma de tempo pra visitar as pessoas que com a correria do dia-a-dia eu não conseguia visitar, veio em forma de cursos que tenho realizado, veio em forma de desapego e viver com apenas uma mochila, veio em forma de burning man, veio em forma de raspar a cabeça e doar o cabelo, veio em forma de yoga e circo, veio em forma de viagens que sigo fazendo e dedicarei meu 2018 a elas, veio em forma de pessoas que passam pela nossa vida pra apertar um botão.

E as sincronicidades seguem acontecendo, quando meditamos todos os dias, abrimos o canal da intuição, nos conectamos com nós mesmos, entramos em uma nova frequência. Há cerca de um mês atrás, quando eu estava em Auroville, uma comunidade no sul da Índia, conheci um casal que também largou carreira em busca de seu propósito, e ao trocarmos algumas palavras, eles me apresentaram o poema mais lindo que eu não conhecia: The Calf Path. Sobre o caminho desordenado feio por um bezerro onde toda uma sociedade seguiu sem nem saber por que, vale a leitura!

Ao fim de 2018 completo 35 anos, na antroposofia completo o setênio da reorganização para entrar no meu 6o setênio da conexão espiritual e trabalho com propósito. Mas sim, sei que posso passar o ano todo e talvez a vida sem encontrar meu real propósito, e pode ser que eu volte a trabalhar com varejo, vida corporativa, se eu sentir “pneuma” novamente nisso tudo bem! Mas também pode ser que eu mude de cidade, que trabalhe com yoga, ou com algo que ainda não conheço. Eu não tenho a menor ideia. Só sei que hoje não tenho medo, acredito que devemos nos arriscar, ter coragem de parar, buscar respostas, sermos felizes sempre.

Reflexões

As pausas estratégicas

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Sabático não é férias. Não é correria, mochilão, checklist de pontos turísticos, checkout de hostel a cada 2 dias, nada disso. Na verdade  a definição de sabático é período de descanso, e existem muitas formas de se tirar um sabático, você pode escolher ficar em casa ou em uma única cidade por 6 a 12 meses estudando algo novo ou simplesmente se escutando. Ou também pode escolher viajar o mundo, conhecer países e culturas, tribos, comunidades. E mesmo que o sabático seja destinado a uma volta ao mundo, as pausas estratégicas são necessárias.

No meu sabático decidi viajar e me dedicar a conhecer alguns países e culturas, mas também a praticar alguns cursos e simplesmente parar em alguns lugares para viver, assim como vivenciei Piracanga por um mês, mas esta experiência incrível fica para um post à parte.

Aqui na Ásia que cheguei há pouco mais de dois meses, eu sabia que no primeiro mês estudando yoga no ashram eu não teria tempo para parar, pensar, ler  e me estruturar, o curso tomava o dia todo.

Depois resolvi passar 2 semanas na praia no Sri Lanka trabalhando 4 horas por dia num hostel, até pensei que lá teria este tempo. Não tive. Praia, festas e novos amigos fazendo checkin a cada dois dias, voltei de lá como se estivesse voltando de movimentadas férias.

Então voltei pra Índia, a ideia era visitar Auroville em 3 dias e depois seguir pelo sul da Índia visitando várias cidades de Kerala. Me apaixonei por Auroville e resolvi passar 10 dias apenas lá. Imaginei que lá teria este “tempo pra mim” mas acabei me envolvendo com tudo e com todos, e passei os 10 dias frequentando aulas de yoga, workshops, filmes, documentários, visitas à floresta, café com um, sorvete com outro, almoço com uma família que acabou de se mudar pra lá, e assim foi, o tempo todo absorvendo algo novo.

Eis que vim parar em Pushkar, uma cidade pequena no Rajastão, o maior estado da Índia, mas uma cidade que não tem muitas atrações turísticas. Na verdade é uma pequena cidade com um grande mercado de roupas ao redor de um lago sagrado. Mas vim passar o fim de semana com uma amiga grega que conheci no ashram, então sabia que no fim de semana inteiro não teria muito tempo pra mim, estava matando as saudades dela e visitando os amigos que ela tem por aqui.

Ela ia embora na segunda-feira, e eu tinha uma semana até encontrar uns brasileiros que havia marcado de encontrar na próxima cidade. Uma semana: 7 dias livres, que eu até poderia pegar outro trem, viajar horas, colocar mais uma cidade do Rajastão no itinerário. Mas eu quis ficar, quis parar, pra ler, refletir e escrever, decidi fazer a tal da pausa estratégica.

Eu nem sabia direito pra que eu queria esta pausa estratégica, mas lendo Propósito, livro do Prem Baba, me deparei com um capítulo que cita que nossa jornada da alma é longa e às vezes precisamos parar para identificar e absorver aprendizados. E esta pausa foi no local certo pra mim. Em uma cidade de compras.

Muita gente vem a Pushkar para comprar roupas e acessórios para si, e outros tantos vem para o business também, compram nas confecções daqui para revender em seus países. As roupas, bolsas e acessórios aqui são realmente muito lindos e o turismo aqui é comprar, comprar, comprar.

Me fez parar pra pensar na Marina consumista que já fui. Que ia de férias para Nova York ou Miami e voltava com uma mala extra cheia de roupas novas. Que gastava sem se questionar no shopping na hora do almoço, que comprava tudo que achava bonito, sem se perguntar da real necessidade de ter mais e mais. Desde que comecei o sabático optei por uma vida mais simples, minimalista, descobri que antes eu tinha 96 vestidos no armário e mais de 50 sapatos…eu acho isso exageradamente MUITO.

Desapegar não é fácil, mas fiquei bem tocada pelo documentário Minimalism disponível no Netflix, descobri um cara que tem 53 itens na vida e viaja o mundo apenas com isto (considere até a carteira e a mochila itens dessa conta) e uma mulher que lançou o desafio de viver com 33 peças por mês, inclua seus anéis nessa conta! Apesar de eu ter morado em 17 casas e a cada mudança sempre desapegar de muitos bens materiais, eu ainda assim acumulava, comprava livros que não lia, comprava roupas que usava uma só vez, e às vezes nem isso. Então desapeguei!

Me juntei com amigas em bazares e vendi quase todas minhas roupas, sapatos, bolsas, livros, além das 2 bikes que eu não usaria nos próximos meses viajando. Além das vendas, ainda doei muita roupa, e doei o meu cabelo! Vim pra Ásia pra passar 6 meses com um mochila de 15kg, não dá pra comprar nada a mais, senão pago excesso de peso nos voos domésticos, e na verdade nem preciso de nada a mais. Até comprei uma calça aqui, mas porque abandonei uma velha no Sri Lanka e deixei outra no ashram que até furou de tanto usar. A proposta desta grande jornada é esta: usar as roupas até elas se desfazerem.

Esta foi minha pausa estratégica e meu aprendizado na nova jornada.

E não é só no sabático que as pausas são necessárias, é na vida. Muitas vezes deixamos o tempo e o trabalho nos consumirem, entramos na roda girando e nem lembramos de parar e olhar o que estamos fazendo e quais foram os aprendizados das nossas jornadas.