Marrocos, Roteiros de viagem

Marrocos

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Marrocos estava na minha bucket list de sabático há 3 anos, era um grande sonho meu, mas demorou pra se realizar…um pouco por medo de ir sozinha (pelas histórias que chegaram a mim) e um pouco por mudanças de rotas e outros projetos que surgiram pela viagem, como por exemplo, passar este verão em Copenhagen ;-).

Mas eis que surgiu esta oportunidade de eu pisar em solo africano e fazer uma road trip pelo Marrocos, de carro e acompanhada, o que me deixou muito mais tranquila! Fui agora, em outubro, e a viagem durou 11 dias, um pouco corrido pros meus padrões de mochileira mas foi na baixa temporada e achei tudo muito vazio e tranquilo, ótimo pra se visitar! O que inclusive me deixou com uma sensação de muita segurança e tranquilidade pra mulheres viajando sozinhas, ainda mais pós Índia (risos de nervoso) tudo parece mais tranquilo pós Índia, não é mesmo?

A vantagem de ir acompanhada pro Marrocos, seja com marido, peguete, uma amiga, ou qualquer outrx mochileirx que encontrar (aliás minha viagem pelo Rajastão fiz com outros 2 mochileiros que conheci online, pelo facebook do mochileiros.com) é o fato de alugar e dividir um carro, que permite muito mais mobilidade e autonomia do que de ônibus. Desta vez arrumei um boy, encontrei na rua mesmo, outro viajante sabático e tínhamos este destino em comum, então por que não?

As estradas no Marrocos são ótimas, o carro de modelo mais simples saiu EUR 20 por dia (não precisa ser 4×4), a gasolina para rodar os 2.000 km entre 7 cidades foi EUR 100. Mas prepare também o dindin das multas, tem muito policial e câmeras por todas as estradas, nos pararam 3 vezes, e tivemos que pagar 1 multa, as outras conseguimos nos livrar depois de muita conversa. As multas custam de 150 a 400 dirhams (EUR 15 a 40) e é preciso pagar em cash para os policiais, que te entregam um recibo…da primeira vez achei que o policial estava sendo corrupto nos pedindo pra pagar em dinheiro na hora e discuti com ele dizendo que era brasileira, que conhecia esse tipo de “esquema”, falei tanto até o coitado desistir de me aplicar a multa kkk depois vi que a errada era eu, o sistema deles não é de envio de multa por correio, e paga-se na hora sim. Na real eu não dirigi nem um quilometro, porque minha habilitação internacional não chegou a tempo, o boy que dirigiu 2000 km… arebaba!

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pelas ruas azuis de Chefchauen

Vamos à road trip: pousamos em Fez, alugamos o carro e subimos direto 200km para Chefchauen, a cidade azul. Tem duas teorias sobre esta cidade ser azul: a primeira é que os judeus ali refugiados da Inquisição Espanhola em 1471 pintaram as casa de azul para reproduzir o paraíso e a segunda é que a cor azul repele mosquitos… não sei, não vi judeus nem mosquitos, apenas muçulmanos parando 5x por dia para a reza, que se escuta de onde estiver.  É um destino super turístico e muito gostoso, onde se fala espanhol por todas as partes, pela proximidade com a Espanha, ao contrário do resto dos destinos onde se fala mais francês que inglês (o boy também falava francês, arebaba!). Você também irá encontrar muitas bloguers de vestido amarelo, prepare-se, é que o contraste do amarelo com o azul fica lindo no feed, eu não tinha vestido amarelo… Um dia e uma noite nesta cidade são suficientes pra se perder pelas ruas azuis, ver o pôr-do-sol do alto do morro e jantar num restaurante gostoso da praça Place Outa El Hamam. Mas caso tenha dois dias neste destino, tem uma cachoeira próxima que vale um trekking.

 

De Chefchauen voltamos à Fez para apenas 1 dia e 1 noite que achei bem suficiente, não me agrada muito passar muitos dias em cidades muvucadas, mas pra quem gosta de destino de compras talvez valha a pena ficar mais. Chegando em Fez pela manhã, deixamos o carro no Hotel-Riad  (o Dar Aline delícia e com bom preço) na porta da Medina, e nos perdemos pelas ruas da Medina (a maior do mundo) até achar o famoso Cortume (Chouara Tannery), e ver dos terraços ao redor como é o processo (e o cheiro) da lavagem do couro com urina de vaca e excremento de pombo. Alguns amigos tinham recomendado pagar um guia dentro da Medina, pois dizem que pode ser perigoso se perder lá dentro, o hotel também recomendou. Não pegamos guia, e achei tranquilo de rodar sozinhos, usando maps.me e seguindo as placas da Tannery.

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Chouara Tannery em Fez

Como eu disse, comparado às ruas do Paharganj em Nova Deli, esta medina de Fez é praticamente um berçário. Mas tem que tomar cuidado porque se você estiver sem guia, vários locais vão colar em você (como na Índia) te indicando o caminho e pedirão dinheiro ao final, um garoto de 10 anos colou na gente querendo nos levar na Tannery e eu queria passear tranquila, mas ele não desgrudava e não parava de falar, fiz a Jade, rodei a baiana e mandei ele embora. Aí quando você não paga, eles te jogam uma praga. OK, cria um campo energético de proteção e boa, porque é sim um pouco estressante. Depois de visitar a Medina vale a pena cruzar o cemitério a pé subindo o morro em direção ao Les  Merinides Tombs pra ver o pôr-do-sol e a vista da cidade destas ruínas, e depois relaxar e tomar um drink ou um chá de menta no hotel de luxo Les Merinides. Voltando pra Medina, jantamos num restaurante que amei, uma fusão de comida marroquina com mexicana: Le Tarbouche!  

Tanto em Chefchauen quanto em Fez, tudo se visita a pé, guarde o carro no hotel ou na praça mais próxima, com algum guardador de carro que se chama Mohamed, gosta do Ronaldo e do Corinthians e te cobrará EUR 3 por noite. Não importa sua nacionalidade, sempre diga que é brasileiro, eles amam!

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Volubilis

Saindo de Fez, no 3º dia, o destino final seria Merzouga para visitar o deserto do Sahara, mas seriam 460km de estrada e com algumas atrações que queríamos ver no caminho, então quebramos em 2 dias e passamos uma noite em Midelt (uma cidadezinha pequena e nada turística, mas legal pra ver a vida local). Entre Fez e Midelt a primeira visita foi em Volubilis, as ruínas de uma cidade romana e hoje Patrimônio da Unesco, é uma local bem grande, dá pra ficar umas 2 horas explorando, e a entrada custa EUR 7.

Depois passamos na cidade de Azrou, na Floresta de Cedro, onde tem vários macacos soltos e tranquilos. É uma ótima parada pra sentir um pouco de umidade e friozinho em meio aquela aridez desértica do resto da viagem. Ali do lado também tem a cidade de Ifrane, que não chegamos a explorar, com construções que lembram uma pequena Suíça.

Dormimos em Midelt e no 4º dia seguimos em direção à cidade de Merzouga pra conhecer o Deserto do Sahara. Este caminho vale a pena fazer de dia pra ver o início da cordilheira Atlas e atravessá-la. Em Merzouga existem milhares de opções para passar uma noite no Sahara, tudo se encontra pelo booking.com, basta escolher quanto aproximadamente você quer gastar, pois os campings vão de EUR 20 a EUR 300 (luxo) a barraca dupla, com jantar e café-da-manhã inclusos. Escolhemos uma opção bem simples, que foi EUR 60 a barraca dupla com jantar e café, não tinha nenhuma decoração especial, mas era uma cama quentinha e comida boa, com a tradicional fogueira com música a noite. Todas as opções do booking são iguais, após reservar, você recebe um e-mail com a orientação de como chegar no ponto de apoio, em Merzouga, que geralmente é um restaurante com banheiros e chuveiros e área de descanso, lá você deixa o carro, almoça se quiser, toma um banho se quiser e escolhe a opção de transporte para o camping no deserto: camelo (EUR 15)  ou 4×4 (EUR 20). Como sou super contra o turismo com animais, fui de 4×4 e foi melhor, porque chegamos em meia hora, deixamos a mochila na barraca e subimos as dunas pra ver o pôr-do-sol no horizonte, sem ninguém por perto, apenas um mar de areia laranja à nossa frente. Já quem foi com camelo, levou 3 horas pra chegar e viu o sol se pôr atrás das dunas, no meio do caminho. No dia seguinte, vimos o nascer do sol de perto do camping e voltamos pra tomar café-da-manhã no ponto de encontro, onde deixamos o carro. A experiência (mesmo que curta) de conhecer esta pontinha do Sahara vale muito a pena, que lugar lindo! Que energia! Já a cidade de Merzouga nem visitamos.

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um pôr-do-sol no Sahara 

Depois passamos 3 dias em Todra Gorge, as Gargantas de Todra, um cânion maravilhoso na Cordilheira do Atlas, destino para trekkings e escaladas. Eu particularmente fui pra visitar uma amiga que fiz na Índia e está gerenciando uma guesthouse e uma empresa de escalada lá, e acabou sendo dos lugares mais lindos do Marrocos, a vista da guesthouse dela é uma pintura, dá vontade de passar o dia na varanda só olhando os desfiladeiros alaranjados com o vale de palmeiras abaixo, contornando o rio. Eu SUPER recomendo esta guesthouse: A Secret Garden (próximo à cidade de Tinghir, mas fica bem na boca do cânion onde se iniciam as trilhas e escaladas). O café-da-manhã e o jantar (tajine vegetariano) nesta guesthouse foram maravilhosos, fora os inúmeros chás de menta na varanda e a prática de yoga às 6pm <3. Fizemos uma trilha linda de 3 horas de caminhada, caminhei na beira do rio e entre os cânions. Já pra quem se aventura mais (não é o meu caso) tem uma Via Ferrata pra subir um paredão (com degraus em metal fixos e cabo de aço acompanhando o percurso) e também paredões de até 400m pra fazer escalada com grampos, Deus me livre mas quem me dera.

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Cenário de Cléopatra no Atlas Studios em Ourzazate

Foi nesta guesthouse que conhecemos hóspedes vindos de Marrakesh que nos disseram: “NÃO VÁ! É horrível, vários homens no Souk (mercadão) explorando cobras e macaquinhos como atração turística, e fora alguns palácios bonitos, todo o resto é horrível”. Então resolvemos mudar a rota, pular Marrakesh e o próximo destino foi Ourzazate, onde dormimos num hotel delícia (Riad Sarayas) e exploramos os Estúdios Atlas dia seguinte (custa EUR 8), local de filmagens de Cléopatra, A Múmia, Aladin, Game of Thrones, Babel, O Gladiador, entre outros, além da novela Jezabel da Record. Saindo de lá visitamos o maior projeto de energia solar do mundo em construção, o Noor I (os engenheiros piram) e o castelo Ait Ben Haddou, que foi locação de Games of Thrones, tudo isso entre a Cordilheira Atlas a caminho do Litoral.

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Essaouira

Até paramos pra jantar em Marrakesh, e nem gostei mesmo, mas seguimos viajem pro último destino: 3 dias na praia de Essaouira. Este é um destino bem turístico, perto de praias de surf, lotado de bons restaurantes e lojinhas mais tranquilas do que as de dentro das grandes medinas. Foi a primeira cidade que vimos bebida alcóolica mais liberada, tinha cerveja e drink em todos os restaurantes (por ser um país muçulmano não era natural servir álcool nos restaurantes mais locais e cidades mais tradicionais) , e aqui encontramos até uma baladinha com música ao vivo. É o local perfeito pra descansar, seja na praia, seja em um restaurante rooftop vendo o pôr-do-sol no mar, visitar o mercado de pescadores e o forte (outra locação de GOT). Recomendo fortemente o hotel Mama Souiri, confortável, linda decoração e bem localizado

E acabou! Após o descanso e uns drinks, seguimos pra Agadir pra devolver o carro e embarcarmos! PS: tem vários vôos lowcost pro Marrocos saindo da França e Bélgica, por ser um destino muito comum pra quem só fala francês, então pra mim compensou pegar um ônibus de 18h até Bruxelas pra pagar só EUR 40 no vôo.

Enfim, este foi o roteiro: sem Marrakesh, sem Rabat, sem Casablanca e sem os famosos resorts de Agadir, viagem do jeito que eu gosto, fugindo dos destinos mais famosinhos pra curtir os outros destinos muitos mais únicos! Amei e recomendo!

Já quero voltar, deu saudades de assistir O Clone.